O crescimento das plataformas de apostas online deixou de ser apenas uma tendência de entretenimento e passou a levantar alertas sobre os impactos financeiros, sociais e emocionais provocados pelo avanço das chamadas bets. O percentual de brasileiros que investiu nesse tipo de plataforma saltou de 11% em maio para 34,8% nas duas primeiras semanas de junho, período que coincidiu com o início da Copa do Mundo. Os dados são de um levantamento da Klavi, analista de dados bancários, obtidos por meio de informações oficiais do Banco Central.
Durante a competição, o aumento da movimentação também refletiu no valor gasto pelos usuários. O tíquete médio das apostas registrou picos acima de R$ 500 por apostador, enquanto a média antes da Copa era de R$ 188.
Além do impacto financeiro direto para os apostadores, especialistas alertam para consequências que atingem a saúde mental, as relações familiares e a economia local. Para o economista Marcos Calheiros, presidente do Conselho Regional de Economia de Alagoas (Corecon-AL), a dependência em apostas pode comprometer o desempenho profissional e o equilíbrio emocional dos usuários.
Produtividade e trabalho
“Os jogos são feitos para perder. As pessoas acabam adoecendo e optam por pegar dinheiro emprestado com agiota; isso vai afetando o desempenho no trabalho, além das consequências negativas na família. O vício em apostas afeta diretamente a produtividade, a mente e o estado emocional das pessoas”, afirmou.
Segundo o economista, os reflexos do vício ultrapassam o ambiente das plataformas e chegam à rotina familiar. “Os apostadores frequentemente chegam em casa mal-humorados, o que prejudica tanto o ambiente doméstico quanto a dedicação e o rendimento no trabalho. A produtividade, consequentemente, vai lá para baixo”, declarou.
O impacto também preocupa quando envolve a necessidade de atendimento especializado para pessoas que desenvolvem dependência em jogos. De acordo com Calheiros, o sistema público de saúde poderá enfrentar uma demanda crescente por acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
Custo na saúde pública, inadimplência e crédito
“O impacto é muito grande por todo o investimento que a saúde pública vai precisar, como psicólogo e psiquiatra. Principalmente, por estarmos em um estado pobre, com pessoas que precisam de benefícios do governo. Inclusive, elas acabam gastando os auxílios”, disse.
Para o economista, o problema não se limita ao apostador. “O vício exige um suporte robusto de psicólogos e psiquiatras, não apenas para os apostadores, mas também para os familiares, que sofrem com o desgaste emocional. Para alimentar o vício, os indivíduos chegam a vender bens essenciais da casa, como televisores, geladeiras e celulares, além de tentar vender imóveis”, pontuou.
As consequências financeiras das apostas também podem atingir o comércio e o sistema bancário, segundo Marcos Calheiros. Ele explica que o endividamento provocado pelas perdas cria um efeito em cadeia na economia.
“O endividamento motivado por apostas gera um efeito cascata no comércio e nos bancos locais. Os apostadores utilizam cartões de crédito e o cheque especial, enfrentando taxas de juros que superam os 300% ao ano”, argumentou.
Segundo ele, recursos que poderiam circular na economia local acabam sendo direcionados para as plataformas de apostas. “O dinheiro que poderia ser utilizado no consumo local, como compra de eletrodomésticos, eletrônicos, óculos para os filhos, entre outros, é totalmente drenado para o mercado financeiro dessas plataformas de apostas, reduzindo a atividade comercial em Alagoas”, explicou.
Impacto na juventude
Outro ponto de preocupação é o impacto entre os jovens, principalmente diante da promessa de enriquecimento rápido. Para Calheiros, a ilusão do ganho fácil pode afastar parte desse público de investimentos em formação profissional.
“Muitos jovens estão abandonando os estudos ou seus planos de carreira atraídos pela falsa promessa de enriquecimento rápido. Em vez de investir o dinheiro em educação de qualidade, cursos de informática ou no aprendizado de línguas estrangeiras (inglês, espanhol ou chinês), recursos fundamentais para um mercado de trabalho exigente, os jovens preferem arriscar o futuro nas apostas”, disse.
O economista defende que as famílias incentivem alternativas de planejamento financeiro e preparação profissional. “As famílias devem economizar e usar o dinheiro na poupança para dar melhores condições de estudo e preparar os filhos para o mercado profissional”, declarou.
Sinais de um vício que começa no comportamento
Os efeitos psicológicos da dependência em apostas também são observados pela psicóloga Leila Moura, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC). Segundo ela, os primeiros sinais de alerta aparecem por meio de mudanças emocionais e comportamentais.
“Os sinais de alerta comportamentais do vício em apostas manifestam-se inicialmente por meio de severas alterações de humor, incluindo crises de irritabilidade, ansiedade e agressividade, que se intensificam diante de perdas ou da impossibilidade de jogar”, explicou.
A especialista destaca que o comportamento pode levar ao isolamento e ao uso das apostas como uma forma de fuga diante de problemas pessoais.
“Esse quadro frequentemente leva o indivíduo ao isolamento, utilizando o jogo como um mecanismo de fuga para se esquivar de problemas cotidianos, conflitos no ambiente familiar ou decisões importantes”, afirmou.
Leila também alerta que a preocupação constante com as apostas prejudica atividades do dia a dia. “A mente fixada constantemente nas apostas gera uma preocupação contínua que prejudica diretamente a concentração e o rendimento em atividades profissionais ou escolares”, disse.
Segundo a psicóloga, muitos dependentes passam a esconder o comportamento para manter o hábito. “Para sustentar o hábito e mascarar a dependência, o jogador recorre a mentiras e desonestidade, omitindo o tempo e o dinheiro reais despendidos nas plataformas, além de descumprir compromissos rotineiros sob falsas justificativas”, declarou.
Impacto nas famílias
O vício em apostas também provoca consequências entre familiares, que muitas vezes passam a conviver com instabilidade emocional e financeira. De acordo com Leila Moura, a dependência afeta todo o núcleo familiar.
“A convivência com o dependente de jogos impõe um severo impacto na saúde mental da família, gerando um estresse contínuo que rapidamente evolui de um estado agudo para crônico”, afirmou.
Ela explica que familiares podem desenvolver sentimentos de culpa e assumir uma responsabilidade que não conseguem resolver sozinhos. “Nesse ambiente, os familiares frequentemente passam a experimentar sentimentos de culpa, alimentando a crença equivocada de que deveriam ter a capacidade de resolver o problema de forma isolada”, disse.
Segundo a psicóloga, o monitoramento constante do comportamento do apostador também gera desgaste. “Como consequência, o núcleo familiar passa a viver em um constante estado de alerta e hipervigilância, canalizando esforços para monitorar e controlar cada passo e comportamento do jogador”, explicou.
“Todo esse cenário resulta em um esgotamento emocional intenso para todos os envolvidos, além de disparar sérios prejuízos financeiros que colocam em risco e desestruturam a estabilidade de todo o ecossistema familiar”, completou.
Vulnerabilidade dos jovens
Para Leila Moura, a vulnerabilidade dos jovens diante das apostas está relacionada à dificuldade de lidar com frustrações e controlar impulsos.
“A imaturidade emocional, que vai além da idade cronológica, reflete a incapacidade do indivíduo em lidar com frustrações e controlar os próprios impulsos”, afirmou.
Segundo ela, as apostas também exploram uma busca por prazer e reconhecimento social. “A ausência dessa maturidade frequentemente insere os jovens em uma cultura de comparação, onde o foco se volta para o status do ‘ter’ e para o que o dinheiro obtido nas apostas pode comprar. Do ponto de vista biológico, o jogo ativa o sistema límbico, desencadeando uma busca incessante por prazer”, explicou.
A psicóloga alerta que as perdas podem intensificar o comportamento compulsivo. “Esse mecanismo se torna perigoso quando as perdas começam, momento em que o jogador perde o controle emocional, mas insiste na atividade na tentativa desesperada de recuperar o dinheiro perdido e evitar sentimentos como frustração e raiva”, afirmou.
Vício na palma da mão
Para a especialista, um dos principais desafios no tratamento da dependência está justamente na facilidade de acesso às plataformas digitais.
“Antigamente, práticas como o jogo do bicho e as lotéricas contavam com uma barreira natural, pois exigiam deslocamento físico e funcionavam em horários específicos, demandando maior esforço de quem tentava esconder a atividade. Atualmente, a tecnologia eliminou esses obstáculos ao trazer os jogos e as apostas diretamente para a palma da mão, garantindo acesso irrestrito em qualquer lugar e a qualquer hora”, explicou.
Segundo Leila, o uso descontrolado dessas ferramentas pode provocar impactos profundos. “O grande impacto dessa mudança é que o uso excessivo e descontrolado dessas ferramentas afeta o cérebro de maneira muito semelhante ao uso de substâncias psicoativas”, afirmou.
No enfrentamento do problema, a psicóloga ressalta que a família precisa diferenciar apoio de atitudes que acabam mantendo a dependência.
“É fundamental que a família saiba distinguir o suporte, que representa a ajuda real, da facilitação, caracterizada por atitudes que tornam a manutenção da dependência mais fácil”, declarou.
Ela destaca que estabelecer limites é parte essencial do processo. “Estabelecer limites claros torna-se indispensável, o que significa interromper de forma imediata qualquer comportamento que alimente a prática do jogo, como a cessão de dinheiro ou o ato de encobrir as consequências financeiras e sociais provocadas pelo vício”, concluiu.
*Estagiário sob supervisão da editoria
