“Não tem muitas lojas abertas, o ponto de ônibus é perigoso e as pessoas não têm muita confiança de vir para cá, seja para passear ou até mesmo só passar por aqui”, diz Luiza Nobre, estudante de design e frequentadora da região onde está localizada a Praça Sinimbu, no Centro de Maceió.
O seu relato está longe de ser um caso isolado. A percepção de insegurança é compartilhada com quem perambula nas redondezas e ajuda a explicar o esvaziamento de um dos mais importantes polos culturais da capital alagoana.
Nos arredores da praça, estão patrimônios e equipamentos culturais de referência, como a Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o Museu Théo Brandão, a Casa Jorge de Lima e a Escola Técnica de Artes da Ufal (ETA).
No entanto, a sensação constante de perigo faz com que muitas pessoas pensem duas vezes antes de frequentar a região, deixando de visitar e prestigiar eventos, exposições e outras programações culturais.
Como um dos principais espaços públicos do Centro de Maceió, a Praça Sinimbu, com cerca de 152 mil m², enfrenta um cenário de esvaziamento. A circulação de pedestres é reduzida, tanto nas calçadas do entorno quanto nos caminhos internos da praça, contrastando com o intenso fluxo de veículos e pessoas registrado nas vias próximas.
A poucos metros dali, a área comercial do Centro e o bairro do Jaraguá permanecem movimentados, impulsionados pelo comércio, pelos serviços e por uma programação cultural frequente, especialmente durante o período junino.
Apesar da proximidade, esse dinamismo não se estende ao local, que convive com a perda de frequentadores em meio à sensação de insegurança e ao abandono percebido por quem passa pela região.

Abandono cultural
Para Carlos Eduardo, estagiário de Design do Núcleo de Patrimônio Cultural (Nupac), a Praça Sinimbu sofre com a falta de ocupação por parte da população, apesar do potencial que possui como espaço público.
Segundo o estudante, a ausência de atividades permanentes e de investimentos desestimula tanto estudantes quanto moradores a frequentarem o local.
Carlos lembra que, em outros momentos, a praça recebeu brechós, sessões de cinema e outras iniciativas culturais. No entanto, afirma que essas ocupações foram pontuais e não conseguiram transformar a dinâmica do espaço.
"Eu lembro que o pessoal do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupou esse espaço para algumas atividades. Foi uma das poucas vezes que eu vi esse lugar realmente ocupado", relata.
Na avaliação de Eduardo, a sensação de insegurança e a falta de infraestrutura são fatores determinantes para o esvaziamento da praça. Ele acredita que melhorias na iluminação, na arborização, na conservação dos equipamentos e na segurança pública poderiam incentivar a população a voltar a utilizar o espaço.
O estagiário também critica o modelo de ocupação urbana de Maceió, que, segundo ele, concentra pessoas e investimentos em poucos locais da cidade. Para o estudante, áreas históricas e culturais acabam perdendo espaço para regiões voltadas ao turismo de praia.
Como exemplo de transformação, cita ainda a revitalização do Rio Salgadinho, nas proximidades do Centro Histórico de Jaraguá. Antes associado ao abandono, o local passou a receber visitantes e atividades de lazer após as intervenções realizadas.
"Muita coisa acontece na região. Só o fato de esse espaço poder ser frequentado com mais naturalidade e as pessoas conseguirem ver o que está acontecendo aqui já é gratificante", afirma.
Outro ponto destacado é a necessidade de valorizar outros equipamentos culturais da capital. Além disso, menciona a Rua do Sol como um exemplo de espaço que, na sua avaliação, recebe pouca divulgação em comparação às praias da Ponta Verde e de Pajuçara, principais cartões-postais da cidade.
Para ele, a história de Maceió também precisa ser contada por meio da ocupação de seus espaços públicos. "Assim como a orla e o Centro Histórico de Jaraguá, outros lugares que fazem parte da memória da cidade precisam ser vividos", defende.
"É um lugar para as pessoas aproveitarem. É um espaço que poderia ter muito movimento. Com melhorias na estrutura e até na organização do trânsito ao redor, acho que a realidade poderia ser diferente", reforça sobre a Sinimbu.

Recuperar a praça exige mais do que obras
Embora a região tenha passado por intervenções de revitalização nos últimos anos, o cenário atual mostra que a recuperação física do espaço não foi suficiente para atrair novamente a população.
Para o arquiteto e urbanista, mestrando em Patrimônio Cultural e pesquisador em Paisagem Urbana, Lucas Galdino, isso acontece porque o abandono da praça está ligado a transformações mais profundas na dinâmica urbana de Maceió.
Segundo o especialista, o Centro deixou de ser um bairro de permanência para se tornar, sobretudo, um lugar de passagem. Com o crescimento da cidade em direção a outras regiões, o uso residencial foi sendo substituído por atividades comerciais e administrativas, concentradas no horário comercial.
"Existe uma significativa redução da circulação de pessoas fora do expediente, favorecendo o aumento da sensação de insegurança e a degradação dos espaços públicos de convivência", explica.
Na avaliação do pesquisador, esse esvaziamento não pode ser atribuído a um único fator. Segurança, infraestrutura, mobilidade, iluminação, diversidade de usos e programação cultural fazem parte de um mesmo sistema e precisam funcionar em conjunto para que um espaço público volte a ser apropriado pela população.
"A infraestrutura exerce um papel importante, porém, isoladamente, não é capaz de garantir que um espaço seja vivido e utilizado de forma contínua. A vitalidade urbana depende da interação entre aspectos físicos, sociais, econômicos e culturais", afirma.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que a Praça Sinimbú permanece vazia mesmo estando cercada por importantes equipamentos culturais. Ainda assim, a movimentação gerada por esses espaços pouco se reflete na ocupação da praça.
Para Galdino, existe uma desconexão entre o patrimônio cultural e a vida cotidiana do Centro. Embora a região reúna uma das maiores concentrações de equipamentos históricos de Maceió, muitos deles funcionam de maneira isolada, com atividades restritas aos próprios edifícios.
"O patrimônio ganha significado quando é apropriado pela comunidade, integra o cotidiano das pessoas e contribui para a construção da identidade urbana", destaca.
Na prática, isso significa levar a cultura para além das paredes dos museus e galerias, transformando a própria praça em palco de feiras, oficinas, apresentações artísticas, exposições ao ar livre e ações de educação patrimonial.
Na visão do pesquisador, a Praça Sinimbú reúne condições para cumprir esse papel articulador justamente por sua localização estratégica. Integrar a programação dos equipamentos culturais ao espaço público ampliaria a circulação de pessoas, fortaleceria o comércio do entorno e contribuiria para criar um ambiente mais seguro a partir da ocupação constante.
Outro aspecto apontado por Lucas é a concentração dos investimentos públicos na orla marítima, enquanto áreas históricas permanecem em segundo plano. Para ele, a valorização do turismo de sol e mar trouxe resultados importantes para a economia da cidade, mas também aprofundou desigualdades na distribuição dos investimentos urbanos.
"Existe uma clara discrepância entre a orla localizada ao norte do Porto de Jaraguá e a orla situada ao sul", observa. Enquanto bairros como Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca receberam sucessivos investimentos em infraestrutura, paisagismo e lazer, regiões como Centro, Jaraguá, Prado, Trapiche da Barra e Pontal da Barra, apesar da importância histórica, passaram por um processo de perda de protagonismo.
O contraste se torna ainda mais evidente na própria Praça Sinimbú. Localizada a poucos metros do litoral, ela não compartilha da mesma valorização urbana observada na área mais turística da capital. Para Galdino, esse cenário reforça a necessidade de um planejamento que enxergue Maceió para além das praias.
E ainda defende que recuperar o Centro Histórico não significa diminuir os investimentos na orla, mas ampliar o olhar sobre a cidade. "O desafio consiste em construir uma cidade policêntrica e mais equilibrada", afirma.
Nesse modelo, o patrimônio histórico deixa de ser apenas memória e passa a integrar estratégias de desenvolvimento urbano, turismo e economia criativa.
Para o especialista, a recuperação da Praça Sinimbú precisa fazer parte de uma política mais ampla de reocupação do Centro. "Mais do que uma praça revitalizada, ela pode tornar-se um catalisador da vida urbana", afirma.
Segundo o pesquisador, a integração entre patrimônio, cultura, mobilidade e moradia é essencial para devolver vida à região. "Somente quando o Centro voltar a ser um espaço vivido, e não apenas um local de passagem, será possível consolidar uma cidade verdadeiramente inclusiva e socialmente ativa", conclui.
A reportagem procurou a Prefeitura de Maceió para questionar quais ações estão sendo desenvolvidas para enfrentar os problemas de insegurança, abandono e baixa ocupação da Praça Sinimbú, além de pedir esclarecimentos sobre eventuais projetos de revitalização e incentivo à ocupação cultural do espaço. Até o momento, não houve retorno.
O que há de melhor na Praça Sinimbú
Assim como o Centro Histórico do Jaraguá, a Praça Sinimbú possui arredores que contemplam atividades culturais, como exposições.
Veja a seguir espaços que podem ser visitados na região:
Museu Théo Brandão
Para quem gosta de visitar lugares históricos de Maceió, o Museu Théo Brandão é uma ótima pedida. O local contém o grande acervo do professor Theotônio Vilela Brandão, o qual colecionava objetos da cultura popular alagoana.
O espaço se mantém parcialmente aberto, funcionando entre 9h às 17h de terça à sexta-feira. Porém, a entrada só é permitida com agendamento prévio por meio do email [email protected], e, após isso, aguardar a confirmação do pedido.
Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas
Sendo reaberta em abril de 2026, a Pinacoteca traz grandes exposições de artistas alagoanos. Atualmente, o local está expondo a vida e obra do expressionista Pierre Chalita, com foco em mostrar coleções como “O Paraíso”, “O Baile” e a história política do país retratados em quadros cheios de vida.
O espaço está aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. Neste mês, a Pinacoteca ampliou o horário de visitação e passou a abrir também em alguns sábados, das 9h às 13h.
Casa Jorge de Lima
A atual sede da Academia Alagoana de Letras não apenas mantém viva uma arquitetura secular, mas também homenageia um dos poetas mais importantes de Alagoas, Jorge de Lima.
O local foi tombado pela Secretaria de Cultura do Estado em 2005, tornando-se um ambiente que mantém exposições permanentes. O espaço abre de segunda a sexta-feira, de 8h às 12h.
Escola Técnica de Artes (ETA) da Universidade Federal de Alagoas
Apesar de ser um local de ensino, a ETA também abre oportunidades para apresentações de estudantes que graduam Teatro, Moda e Música.
Você pode conferir quais serão os próximos eventos por meio do instagram da instituição, @eta.ufal.
*Estagiárias sob supervisão da editoria
Foto de capa: Melissa Buarque/Cada Minuto
