A possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño já colocou Alagoas em alerta. Com projeções indicando alterações no regime de chuvas em diversas regiões do país, órgãos estaduais e municipais começaram a planejar medidas para reduzir possíveis impactos sobre o abastecimento de água, a agricultura e a população.

Embora ainda exista incerteza sobre a intensidade do fenômeno, especialistas apontam que os efeitos podem ser mais sentidos no Agreste e no Sertão alagoano. A principal preocupação é a redução das chuvas em áreas que dependem da recarga dos reservatórios e da regularidade das precipitações para garantir o abastecimento e a produção rural.

A preocupação não se restringe ao estado. No último dia 18 de junho, o Governo Federal instalou uma Sala de Situação Interministerial para acompanhar os prognósticos climáticos e coordenar ações preventivas diante da possibilidade de um evento de forte intensidade.

O alerta surge após centros meteorológicos nacionais e internacionais identificarem o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, condição necessária para a configuração do fenômeno. Historicamente, episódios de El Niño costumam favorecer chuvas acima da média na Região Sul e reduzir as precipitações em parte do Norte e Nordeste do país.

O que pode mudar no clima de Alagoas

Segundo o meteorologista da Sala de Alerta da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), Vinicius Pinho, o aquecimento anormal do Pacífico interfere diretamente na circulação atmosférica responsável pelo transporte de umidade para o Nordeste.

"Quando as águas ficam mais quentes no Pacífico Equatorial, elas alteram o transporte de umidade da região amazônica. Esse fluxo é intensificado para o Sul do Brasil e diminuído para o Nordeste, fazendo com que haja menos combustível para a formação de chuva no semiárido nordestino", explica.

Os modelos climáticos analisados pela Semarh indicam a formação do fenômeno, mas ainda não há consenso sobre a intensidade que ele poderá atingir.

"A maioria dos modelos climáticos mostra indicativos de que nós teremos um El Niño. Mas ainda existe muita incerteza de que esse El Niño será muito intenso. De qualquer forma, a gente já está se preparando para todos os cenários, incluindo o pior cenário possível", afirma.

De acordo com o meteorologista, os impactos mais significativos tendem a ocorrer nas regiões menos influenciadas pelo Oceano Atlântico.

"A atmosfera demora um certo tempo para responder; não para de chover no mesmo dia. Mas as regiões onde ele deve impactar mais significativamente são as mais para o oeste, como o Agreste e o Sertão", destaca.

Pinho também cita estudos climáticos que apontam uma correlação entre o aquecimento do Pacífico e a redução das chuvas na região.

"Existem alguns estudos que indicam que, a cada um grau de aumento da temperatura média do Pacífico Equatorial, pode haver uma redução próxima de 7% das chuvas aqui na nossa região", pontua.

O inverno que pode definir o cenário de 2027

Embora os reservatórios alagoanos apresentem situação considerada confortável neste momento, a principal preocupação dos especialistas está nos próximos meses.

Segundo a Semarh, o período chuvoso concentra mais de 70% da recarga hídrica anual do estado. Isso significa que uma redução significativa das chuvas pode comprometer o volume de água disponível durante a próxima estação seca.

"Mais de 70% de toda a chuva esperada para o ano ocorre neste período. Com essa tendência de El Niño, precisamos estar preparados principalmente para o pós-período chuvoso", alerta o meteorologista.

O temor não é apenas teórico. Episódios anteriores do fenômeno estiveram associados a períodos de estiagem mais severa no Nordeste, afetando a agricultura familiar, reduzindo a disponibilidade hídrica e aumentando a vulnerabilidade de municípios inseridos no semiárido.

Estado reforça obras hídricas e plano climático

Para reduzir os efeitos de uma eventual estiagem, o Governo de Alagoas afirma que tem reforçado ações voltadas à segurança hídrica, principalmente nos municípios do Agreste e Sertão.

Segundo a Semarh, uma das principais ferramentas é a Sala de Alerta, responsável pelo acompanhamento em tempo real das condições meteorológicas dos 102 municípios alagoanos.

"O Estado passou a monitorar as condições meteorológicas de todos os municípios simultaneamente e em tempo real", informou a secretaria.

Entre as principais ações estão os microssistemas comunitários de abastecimento, o Programa Água Doce, a perfuração de poços artesianos e o Canal do Sertão, considerados estratégicos para reduzir os impactos de uma eventual estiagem no interior.

Caso os prognósticos indiquem um cenário mais severo, o governo informou que estuda criar uma comissão multidisciplinar para acompanhar a evolução do fenômeno.

"O trabalho é conduzido com base em critérios técnicos e parâmetros científicos para evitar alardes sem fundamentação", destacou a Semarh.

A preparação também passa pela Política Estadual de Enfrentamento às  Mudanças Climáticas de Alagoas, criada pela Lei nº 9.304, de 2024. Entre as ações em andamento estão a criação do Fórum Alagoano de Mudanças Climáticas, a implantação da Gerência de Mudanças Climáticas e a elaboração do Plano Estadual de Arborização Urbana.

"A arborização urbana é um dos principais instrumentos para melhorar a qualidade de vida nas cidades, contribuindo para a redução das temperaturas e para a adaptação às mudanças climáticas", informou o órgão.

Na área rural, o governo destaca o Garantia Safra, programa voltado a agricultores afetados por perdas provocadas por estiagem, além da implantação de cisternas para ampliar a segurança hídrica das famílias do semiárido.

Prefeitura aposta em arborização e monitoramento para enfrentar calor extremo

Enquanto o foco do governo estadual está na segurança hídrica, a Prefeitura de Maceió concentra esforços nos possíveis efeitos do aumento das temperaturas na capital. 

Segundo a administração municipal, o monitoramento climático é realizado pela Defesa Civil e pelo Centro Integrado de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cimadec).

"O município mantém acompanhamento permanente das condições meteorológicas, permitindo antecipar cenários de risco e subsidiar ações preventivas", informou a Defesa Civil.

A prefeitura afirma ainda que o Plano Previne Maceió também contribui para ampliar a capacidade de adaptação da cidade diante de eventos climáticos extremos. Segundo a gestão, as intervenções previstas também contribuem para enfrentar períodos de calor intenso e estiagem.

Entre as medidas citadas estão investimentos em arborização urbana, recuperação ambiental, criação e revitalização de parques, praças e áreas verdes.

"Essas iniciativas contribuem para a redução das ilhas de calor, melhoria da qualidade ambiental e fortalecimento da capacidade da cidade de enfrentar eventos climáticos extremos", informou o município.

A administração municipal também afirma que mantém integração com órgãos de saúde, saneamento e abastecimento para acompanhar possíveis reflexos das mudanças climáticas sobre a população.

"Esse trabalho integrado permite acompanhar possíveis reflexos das condições climáticas sobre a população e subsidiar ações preventivas quando necessário", destacou a Defesa Civil.

Além disso, a prefeitura informou que mantém parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para aperfeiçoar o monitoramento e orientar medidas preventivas diante de cenários climáticos adversos.