O bolso e a mesa do consumidor alagoano devem sentir os reflexos de um fenômeno climático que já tem contornos de inevitabilidade. De acordo com a mais recente projeção oficial da Administração Oceanográfica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de estabelecimento do El Niño saltou para quase 100%.
Com a consolidação prevista para o bimestre de junho e julho, Alagoas entra em estado de atenção máxima devido a uma redução severa no volume de chuvas. O alerta ganha um complicador: projeções da MetSul Meteorologia advertem que, no Nordeste brasileiro, os efeitos colaterais do fenômeno serão particularmente severos.
A estiagem deve castigar a agricultura de sequeiro no interior e disparar o preço de alimentos básicos como o feijão, a carne, o leite e do ovo nas feiras e supermercados.
Para compreender a gravidade do cenário, é preciso olhar para o que está acontecendo abaixo da superfície do mar. Análises da MetSul Meteorologia revelam que o El Niño já começou a se estruturar nas profundezas do Oceano Pacífico Equatorial. Ondas de calor submarinas (chamadas tecnicamente de Ondas de Kelvin) estão a deslocar uma gigantesca massa de água aquecida das profundezas para a superfície.
Esse aquecimento profundo e constante é o que levou o NOAA a elevar as probabilidades do fenômeno ao teto de quase 100%, consolidando a transição global para a fase de forte anomalia térmica.
Na prática, o El Niño atua como uma barreira invisível que desvia o fluxo de umidade da Amazônia, que normalmente abasteceria o Nordeste, em direção à região Sul do país. Sem esse "combustível", a formação de nuvens de chuva em Alagoas despenca.
O meteorologista da Sala de Alerta da Semarh, Vinicius Pinho, explica que a ciência climática trabalha com correlações estatísticas muito precisas para medir esse impacto. "Estudos indicam que a cada um grau de aumento na temperatura média do oceano, ocorre uma alteração na pressão de vapor de saturação do ar. Na nossa região, isso se traduz em uma redução de cerca de 7% no patamar de chuvas", adverte.
O grande perigo está no calendário. Alagoas está a entrar na sua quadra chuvosa de inverno, período responsável por mais de 70% de toda a recarga hídrica anual do estado. Embora os próximos meses tragam uma redução gradual das temperaturas máximas e uma sensação térmica mais amena, o volume de água acumulado corre o risco de ficar muito abaixo da média histórica.
"A atmosfera demora um certo tempo para responder aos fenômenos atmosféricos; não é como se o El Niño começasse amanhã e parasse de chover no mesmo dia. Mas as regiões onde ele deve impactar mais significativamente, com desvios mais negativos de precipitação, são o Agreste, Sertão e Sertão do São Francisco, que têm menos influência direta do Oceano Atlântico. É o momento de planejar o uso racional da água", alerta Vinicius Pinho.
O Efeito dominó: do campo à cidade
Quando a escassez de chuva toca o solo alagoano, o problema deixa de ser estritamente meteorológico e passa a ser financeiro. No Agreste, a engrenagem econômica gira em torno da agricultura de sequeiro, que depende exclusivamente do ciclo natural das águas.
O professor Cícero Adriano, especialista em desenvolvimento rural e sustentabilidade da UFAL em Arapiraca, descreve o impacto imediato na base produtiva: "Com a diminuição da chuva, diminui a área plantada, a produção e a produtividade. O agricultor fica esperando as chuvas chegarem entre abril e maio, estendendo-se até agosto, para plantar e colher. Se diminui a chuva, ele perde a cultura".
Essa quebra de safra cria uma reação em cadeia que atinge o comércio das cidades polo. "Apesar de Arapiraca ter um comércio muito forte, é um município cuja economia é significativamente dependente da agricultura. Diminuindo a produção, diminui o rendimento e diminui a renda circulando no comércio urbano", pontua o professor.
Alimentos que formam a base da dieta do alagoano, como o feijão e o milho, são os primeiros a sofrer. Até culturas consideradas mais resistentes, como a mandioca, registram perdas severas de produtividade sob o estresse hídrico. Mesmo produtores de hortaliças que utilizam poços artesianos para irrigação enfrentam ameaças, já que os poços mais rasos tendem a secar com o rebaixamento do lençol freático.
A análise macroeconômica da UFAL revela que o El Niño severo projetado pela MetSul também encarece alimentos que não dependem diretamente da chuva local. Como o fenômeno afeta grandes polos agrícolas mundiais, o preço internacional de commodities como o milho e a soja dispara. Sendo esses grãos a base da ração animal, o custo de produção da pecuária sofre um reajuste imediato.
"Isso gera um impacto no preço da ração e, consequentemente, no preço da carne, do leite e do ovo. É um problema sério onde as pessoas perdem o seu poder de compra e a segurança alimentar fica comprometida. Com menos dinheiro, as famílias compram menos alimentos e de pior qualidade nutricional", adverte Cícero Adriano.
Na pecuária local, a sobrevivência dos rebanhos exigirá planejamento estratégico para compensar a perda das pastagens nativas. A recomendação dos especialistas envolve a produção antecipada de silagem, feno e, fundamentalmente, o cultivo da palma forrageira, apontada como uma reserva estratégica vital de água e nutrientes para os animais do semiárido.
A resposta no chão da terra: Agroecologia como escudo
Se a engrenagem econômica desenha um cenário desafiador, a resposta prática para resistir à crise vem de quem aprendeu com a história. No acampamento Morro das Graças, situado nas terras da antiga Usina Laginha, em União dos Palmares, a agricultora Riquele, de 66 anos, evoca o passado para mostrar que o campo hoje possui ferramentas de defesa que não existiam em décadas anteriores.
Dona Riquele vivenciou na adolescência a histórica seca de 1970, em Quipapá (PE). "Foi um período tão difícil que a gente teve que comer apenas feijão de corda e palma. A gente plantou e não deu nada. Meu pai cuidava dos gados do fazendeiro e vimos eles morrerem aos poucos, um a um, numa seca que durou quase três anos", relembra.
Hoje, a realidade no acampamento é pautada pela agroecologia, que ela define como um mecanismo para "plantar água". "Naquela época não era igual a hoje, que a gente consegue fazer uma série de coisas. Com a agroecologia, entendo que posso plantar água por meio das árvores e trabalhar com a diversidade de plantação", afirma Riquele, combatendo a fragilidade dos cultivos únicos.
Em seu barraco, a escassez virou engenharia cotidiana através do reaproveitamento: "Eu reutilizo a água da pia e do chuveiro para usar novamente nas plantas, e cuido até do manejo do vaso sanitário para reverter em benefício da minha própria agricultura".
A convergência entre os dados globais do NOAA, a física climática da Semarh, a economia da UFAL e a experiência de Dona Riquele deixa claro que o enfrentamento a um El Niño severo exige uma atuação coordenada que vai além do esforço individual do agricultor.
O professor Cícero Adriano enfatiza a necessidade urgente de políticas públicas estruturantes. "O mais importante é que haja incentivo governamental e ações de mitigação, como a construção de cisternas de placas, barragens subterrâneas e a perfuração de poços artesianos profundos".
Além disso, o especialista defende a implementação de estoques reguladores de alimentos por parte do poder público para conter picos inflacionários e proteger o bolso da população urbana e rural, garantindo que o prato do alagoano continue cheio, independentemente das oscilações do Pacífico.
