“O título de eleitor é, antes de mais nada, uma espécie de certidão de nascimento política do cidadão. É através dele que o jovem passa a existir para o sistema democrático.” A definição é do professor dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia Social e Sociologia da Universidade Federal de Alagoas João Bittencourt.
Mas, em Alagoas, conquistar essa “certidão” tem significado enfrentar madrugadas em filas ou abrir mão do documento para garantir o sustento da família.
Dados do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL), cruzados com projeções populacionais e históricos do TSE, mostram que o crescimento do eleitorado jovem segue abaixo do esperado.
O Estado registrou aumento de 27% no número de eleitores de 16 e 17 anos em relação a 2022, passando de 42 mil para uma estimativa de 53,5 mil jovens aptos a votar.
O eleitorado potencial, porém, cresceu em ritmo mais acelerado. O resultado é um vácuo de mais de 60 mil jovens sem título eleitoral — realidade que atravessa as histórias de Alysson Teixeira e Sueli Silva.
A madrugada e a feira
O relógio ainda marcava 4h40 de uma sexta-feira quando Alysson Teixeira, de 17 anos, chegou ao Fórum Eleitoral de Maceió. À frente dele, dezenas de pessoas já ocupavam a fila; algumas haviam passado a noite no local para garantir atendimento.

Enquanto Alysson disputava espaço na fila do cadastro eleitoral, Sueli Silva, de 19 anos, começava mais um dia de trabalho na feirinha do Jacintinho. Sem tempo para enfrentar filas e pressionada pela rotina de sobrevivência, ela perdeu o prazo para tirar o documento.
O contraste entre os dois jovens resume um dos principais desafios de Alagoas para as eleições de 2026: para alguns, exercer a cidadania exige virar a madrugada; para outros, é um privilégio incompatível com a necessidade imediata de trabalhar e colocar comida dentro de casa.
Entre a cidadania e a sobrevivência
Bittencourt avalia que a juventude atual se conecta de maneira diferente com a política institucional. Segundo o professor, os jovens buscam estruturas mais horizontais, enquanto partidos e instituições seguem presos a modelos hierárquicos e distantes da realidade periférica.

Sem o título, Alysson sabe que encontraria dificuldades para acessar direitos básicos. Já Sueli teme ser impedida até de concluir a inscrição em processos como o Enem. Para o pesquisador, essa distância entre juventude e instituições abriu espaço para o avanço de discursos anti-sistema nas periferias.
“A direita vem construindo estratégias muito mais eficazes para dialogar com essa população, utilizando TikTok e WhatsApp para criar uma ideia de radicalidade e transgressão”, analisa.
Na prática, jovens como Sueli acabam enxergando a política tradicional como algo distante da realidade cotidiana. A prioridade, segundo ela, é sobreviver. “Como tudo está mais caro e o dinheiro não dá, tenho que pensar em comer e pagar as contas”, afirma.
Os números do vácuo eleitoral
O levantamento aponta que, mesmo com o crescimento do eleitorado jovem, Alagoas ainda convive com um déficit expressivo de adolescentes e jovens fora do sistema eleitoral. A estimativa é de que cerca de 61,5 mil jovens permaneçam sem título eleitoral no Estado.
Em Maceió, o cenário é ainda mais delicado. A capital apresenta crescimento estimado de apenas 6,95% na base eleitoral total, indicando que o afastamento da juventude é mais intenso nos centros urbanos, onde a rotina de trabalho informal e subsistência costuma atropelar prazos e exigências burocráticas.
“Se o jovem não vota, o gestor se sente desobrigado de construir políticas públicas para ele. O sistema não o enxerga, e ele passa a se sentir cada vez menos representado”, reforça Bittencourt.
A família como última ponte
O pesquisador destaca ainda que a família segue sendo um dos principais fatores de incentivo à participação política entre os jovens. “A família continua sendo uma agência de socialização importante. O voto jovem ainda é fortemente influenciado pelo que se ouve dentro de casa”, explica.

Foi justamente essa rede de apoio que fez Alysson chegar ao Fórum Eleitoral ainda antes do amanhecer. No caso de Sueli, a ausência de suporte, somada à rotina desgastante na feira, acabou afastando a jovem do processo eleitoral.
A assessora do TRE Alagoas, Flávia Lopes, informou que os números definitivos sobre quem conseguiu regularizar o título e quem ficou de fora serão divulgados apenas em junho.
Até lá, milhares de jovens alagoanos seguem no mesmo limbo enfrentado por Sueli: invisíveis para o sistema político.
No fim das contas, a distância entre Alysson e Sueli não está apenas em uma fila do Fórum Eleitoral, mas em um Estado que ainda não conseguiu dialogar com a juventude que precisa trabalhar antes mesmo de exercer a própria cidadania.
RAIO-X | JUVENTUDE E ELEITORADO EM ALAGOAS
- Cerca de 61,5 mil jovens seguem sem título eleitoral em Alagoas
- Estado teve crescimento de 27% no eleitorado de 16 e 17 anos em relação a 2022
- Mulheres negras aparecem como maioria nas filas, mas seguem sub-representadas nos espaços de poder, segundo levantamento da Alma Preta
- Redes sociais como TikTok e WhatsApp ampliam a influência de discursos anti-sistema entre jovens periféricos, aponta pesquisador da Ufal
