O elevado nível de endividamento das famílias brasileiras, que já supera 80%, é resultado de uma combinação de fatores estruturais e conjunturais, segundo análise do professor e doutor em Economia, Cícero Péricles, em entrevista ao CadaMinuto. Entre os principais elementos apontados estão as altas taxas de juros, o acesso ao crédito sem planejamento, as compras por impulso e a inflação, que, mesmo em níveis moderados, reduz o poder de compra da população.
De acordo com o economista, o cenário não é exclusivo do Brasil, mas tem se agravado no país nos últimos anos, com crescimento do número de pessoas com dívidas em atraso. Ele explica que, somente em Alagoas, cerca de 800 mil pessoas enfrentam essa situação, e o impacto recai diretamente sobre o orçamento familiar, dificultando o controle das finanças e ampliando a inadimplência.
“O endividamento é um problema presente em todas as economias, inclusive nas mais desenvolvidas. No Brasil, o número de pessoas com dívidas em atraso vem crescendo há alguns anos, conforme apontam as pesquisas da Serasa Experian e da Confederação Nacional do Comércio. Esse cenário resulta de uma combinação de fatores: as altas taxas de juros, que encarecem as compras a prazo e reduzem a renda disponível; o acesso ao crédito sem planejamento, que compromete a organização das finanças familiares; as compras por impulso, que impactam o orçamento dos meses seguintes; e a inflação, ainda que moderada, que corrói gradualmente o poder de compra de salários geralmente reajustados apenas uma vez ao ano. Em conjunto, esses elementos ampliam as dificuldades de controle das finanças pessoais e levam milhões de brasileiros ao atraso nos pagamentos ou à inadimplência”, explicou.
Sobre as medidas em análise pelo Governo Federal para reduzir o nível de endividamento dos brasileiros, como a proposta de saque extraordinário do FGTS, Péricles avalia que a iniciativa pode ajudar na redução das dívidas, mas tem caráter limitado.
“Trata-se de medida paliativa e de caráter pontual, capaz de amenizar, mas não de resolver o problema estrutural do endividamento. Ainda assim, a iniciativa se mostra válida pelo potencial de contribuir para a redução das dívidas e da inadimplência de grande parte da população, funcionando como uma oportunidade adicional para a reorganização das finanças pessoais”, prosseguiu.
O economista destaca que o projeto em estudo, concebido como uma nova versão do programa Desenrola - que apresentou resultados positivos em 2024 -, prevê a liberação de R$ 17 bilhões do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para auxiliar trabalhadores na quitação de dívidas: “A proposta deverá ter como foco as famílias de menor renda e permitir o uso de até 20% do saldo do fundo para a renegociação de débitos junto ao sistema financeiro. É uma ação positiva, mas temporária”.
Medidas de médio e longo prazo
Na avaliação do economista, a redução do endividamento no médio e longo prazo depende principalmente do aumento da renda média da população, sobretudo nas classes C, D e E, aliado à ampliação de políticas de educação financeira. Ele destaca que cerca de 80% dos brasileiros que vivem em áreas urbanas comprometem a maior parte da renda com despesas essenciais, como alimentação, transporte e moradia, o que limita a capacidade de ajuste no orçamento.
“A redução do custo desses itens tende a gerar impactos positivos e significativos. Nesse cenário, políticas tributárias - como as previstas na recente reforma, que contempla a desoneração de alimentos básicos - podem contribuir para aliviar o orçamento das famílias”, pontuou Péricles.
Entre os principais componentes de gasto, a alimentação costuma ter o maior peso, seguida pelos custos de transporte, aponta o economista. “Em Maceió, por exemplo, a cesta básica calculada pelo DIEESE para o mês de março alcançou R$ 644, o que corresponde a cerca de 43% do salário mínimo. Esse custo familiar reforça a importância de políticas agrícolas mais eficazes, voltadas ao aumento da produção de alimentos essenciais e à contenção de preços, bem como de medidas que reduzam o custo dos combustíveis - fator que impacta diretamente o transporte e, indiretamente, o preço de diversos produtos. A adoção coordenada dessas ações pode contribuir para a construção de um padrão de consumo mais compatível com a renda média da população brasileira, especialmente quando se observa que o grosso das famílias endividadas e inadimplentes são as de renda mais baixa”.
Perspectivas
Para 2026, a perspectiva é de manutenção desse cenário de pressão entre renda e consumo. Dados do IBGE indicam renda média nacional de R$ 3.613, enquanto em Alagoas o valor é de R$ 2.557, considerado insuficiente para cobrir despesas essenciais.
“O endividamento está fortemente associado a uma equação desequilibrada entre renda média baixa e elevada pressão de consumo. Do outro lado dessa equação, há uma forte pressão por consumo. Ela é construída tanto pela ampla oferta do sistema de comercialização - redes de lojas, supermercados, shopping centers -, que utilizam estratégias de marketing cada vez mais sofisticadas, quanto pela popularização dos meios de pagamento, como cartões e PIX, que facilitam e aceleram as decisões de compra. Esse ambiente estimula o consumo, mas também favorece gastos acima da capacidade de renda”, analisa o especialista.
Para este ano, segundo o Banco Central no Boletim Focus divulgado esta semana, a inflação projetada é de 4,7%, um nível considerado administrável diante do atual cenário de instabilidade internacional, marcado, entre outros fatores, pela elevação dos preços do petróleo.
A expectativa de crescimento econômico é de 2%, ligeiramente inferior à registrada no ano anterior. Como ocorre sazonalmente, entre maio e setembro é esperada uma redução nos preços dos alimentos, em função de uma supersafra agrícola estimada em 360 milhões de toneladas. Para Cícero Péricles, esses fatores tendem a contribuir positivamente para o poder de compra das famílias.
“Medidas como a liberação de recursos do FGTS e a antecipação de parcelas de fim de ano do INSS ajudam a aliviar, no curto prazo, a pressão sobre o orçamento das famílias; no entanto, a solução estrutural para o problema do endividamento passa, necessariamente, pelo crescimento sustentado da economia, pela elevação da renda e pela popularização dos programas de educação financeira”.
Apostas online
Após endividamento recorde, um estudo inédito da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apresentado no final de abril, traz um alerta importante para o peso das apostas online nesse cenário: as Bets estão comprometendo a renda das famílias brasileiras.
A análise aponta que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. O crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas nesse período foi superior a R$ 30 bilhões por mês, comprometeu a disponibilidade de renda para manter o pagamento em dia das dívidas e podem ter levado 270 mil famílias a situação de “inadimplência severa”.
De acordo com a CNC, oito em cada vez famílias (80,4¨%) estão endividadas no Brasil. O indicador é próximo aos 78% verificado no final de 2022. Entre 2019 e aquele ano, a proporção de famílias endividadas cresceu quase 20 pontos percentuais.
Foto: Ascom Sedics/Arquivo
