O Partido dos Trabalhadores chega às eleições de 2026 em Alagoas em um cenário de forte contraste. De um lado, a legenda avança na articulação para consolidar a maior bancada de sua história na Assembleia Legislativa, sustentada por movimentações políticas e pelo fortalecimento de lideranças locais.
Por outro, o crescimento institucional convive com uma crise interna de identidade, marcada por divergências sobre rumos, alianças e a preservação de pautas históricas. O quadro expõe a tensão entre a ampliação de espaço político e a manutenção da coerência programática que marcou a trajetória da sigla.
Nos bastidores do Palácio República dos Palmares, o desenho político em construção busca ampliar a influência da legenda no cenário estadual, com foco em maior presença no Legislativo e reorganização de forças para o próximo pleito.
Nesse contexto, a chegada de nomes com trajetórias ideológicas distintas passa a ocupar o centro da estratégia. A filiação dos deputados estaduais Marcos Barbosa e Breno Albuquerque vai além da troca de legenda e acirra o debate interno sobre o perfil da sigla.
As novas adesões intensificam a disputa sobre identidade e reposicionamento político, em meio às articulações para 2026. O movimento evidencia o desafio de conciliar expansão eleitoral com a manutenção de uma base histórica cada vez mais pressionada por rearranjos pragmáticos.
Quem são os novos rostos?

Para entender a crise interna, o ponto de partida passa pelos perfis incorporados ao projeto e o que eles representam no tabuleiro político.
• Marcos Barbosa: com seis mandatos na Assembleia Legislativa, construiu trajetória marcada pelo assistencialismo e pela forte ligação com o futebol, especialmente o CRB. Ao longo da carreira, passou por partidos como Avante, Cidadania e PRB antes da nova filiação.
• Breno Albuquerque: representante de uma nova geração de uma família tradicional do Agreste, iniciou a vida pública no PRTB, de perfil conservador, e depois transitou pelo MDB antes de chegar ao atual destino político.
Para o deputado federal Paulão, uma das lideranças mais antigas da legenda no estado, a chegada desses nomes não partiu da base militante, mas de uma decisão estratégica construída no topo. Segundo ele, a chapa foi “desenhada” em articulação envolvendo a direção estadual e o governador Paulo Dantas (MDB).
A avaliação é compartilhada pela vereadora Teca Nelma, que aponta um “descompasso gritante” entre os perfis incorporados e o discurso de renovação interna. Para ela, setores da política tradicional passam a usar a sigla como “trampolim” ou “atalho de poder”, o que representaria um afastamento das bases que sustentaram sua construção histórica.
Na mesma linha crítica, o Professor Luizinho afirma que há um processo de descaracterização em curso. Segundo ele, a legenda estaria sendo ocupada por nomes sem identidade ideológica, movidos principalmente por cálculo eleitoral e acesso a tempo de TV e fundo partidário. Ele sustenta ainda que a presença desses quadros seria dispensável diante da capacidade de eleger lideranças orgânicas.
A centralização das decisões, segundo Paulão, também atingiu projetos individuais. O parlamentar relata que sua intenção de disputar o Senado em 2026 foi esvaziada internamente, sem espaço para consolidação dentro da atual condução política.
Diante desse cenário, acabou recuando para a disputa de uma vaga na Câmara Federal. Ele aponta o episódio como exemplo de uma condução concentrada na cúpula, com prioridade para acordos de palanque em detrimento de construções internas mais amplas e participativas.
Contraponto do poder
A direção estadual da legenda, representada pelo deputado estadual Ronaldo Medeiros, sustenta que o crescimento é necessário para garantir governabilidade ao governo Paulo Dantas (MDB) e ao presidente Lula no plano nacional.
Segundo ele, a lógica adotada é estritamente numérica: ampliar representação exige volume de votos, e nomes com redutos eleitorais consolidados são considerados fundamentais para sustentar esse desempenho nas urnas.
Para Medeiros, a leitura de crise parte de uma incompreensão sobre a necessidade de ocupação de espaços. Ele defende um partido mais pragmático, capaz de atrair lideranças com capacidade de transferência de votos e estrutura eleitoral.
Na avaliação dele, a chegada de Barbosa e Albuquerque fortalece tanto o projeto local quanto a base de sustentação nacional, evitando que a legenda fique restrita a um papel de oposição simbólica.
Ainda segundo o parlamentar, ampliar a base não significa perda de identidade, mas aquisição de musculatura política para viabilizar políticas públicas.
Essa visão, no entanto, encontra resistência na bancada negra. A ativista e militante Alycia Oliveira critica o avanço dessa estratégia e afirma que ela aprofunda desigualdades internas.
Segundo Oliveira, o peso econômico dos novos filiados sufoca candidaturas de base e cria um ambiente de disputa desigual por recursos e visibilidade. Para Alycia, o que é chamado de estratégia pela direção se traduz, na prática, em barreiras para grupos historicamente marginalizados.
O “cavalo de Troia” e a resistência interna
A expressão “cavalo de Troia”, usada pelo Professor Luizinho, passou a sintetizar a insatisfação de parte da militância. A crítica é de que a legenda abriu espaço para forças externas que podem alterar sua estrutura interna.
Ele argumenta que a sigla teria condições de eleger representantes sem depender de figuras externas e que a atual composição bloqueia o surgimento de novas lideranças oriundas de movimentos sociais e universidades.
A reação se consolidou na “Nota Pública dos 100”, assinada por mais de uma centena de militantes e lideranças, entre elas a vereadora Teca Nelma. O documento classifica as novas filiações como um “inflar artificial” da legenda com nomes sem compromisso com suas pautas históricas.
O texto cita bandeiras como o fim da escala 6x1 e a reforma agrária como exemplos de agendas que, segundo os signatários, não teriam respaldo efetivo entre os novos quadros.
Simbiose funcional ou erosão identitária?
Para o cientista político Leonardo Rodrigues, a movimentação do PT em Alagoas não deve ser lida como uma mudança súbita de convicção ideológica, mas como um movimento 'eleitoralmente racional'.

Rodrigues explica que, no complexo sistema de lista aberta, o partido buscou nomes como Barbosa e Albuquerque não por afinidade programática, mas pela necessidade pragmática de viabilizar a chapa.
Na visão do especialista, esses parlamentares funcionam como 'veículos de votos', detendo o que a militância orgânica muitas vezes carece: redutos geográficos concentrados e uma previsibilidade de quociente que garante a sobrevivência da sigla no tabuleiro institucional.
Contudo, o crescimento para as margens do tabuleiro político traz um alerta estratégico: o risco do vácuo. Rodrigues adverte que, ao priorizar o volume de massa em detrimento da densidade de luta, o PT pode estar desguarnecendo o seu centro de gravidade à esquerda.
Historicamente, quando uma legenda negligencia seu espaço de origem para se tornar uma 'simbiose funcional' de um governo, ela abre caminho para que novos atores ocupem esse campo.
O perigo, segundo o cientista, é o partido conquistar cadeiras na Assembleia no curto prazo, mas sacrificar sua hegemonia e credibilidade junto ao eleitorado progressista no longo prazo.
A análise técnica aponta para o que Rodrigues chama de 'Efeito PSDB' — o declínio de grandes siglas que, ao abraçarem movimentos erráticos e figuras alheias à sua história para manter o poder, acabaram por descredibilizar seu próprio programa.
No PT de Alagoas, essa tensão se manifesta na coexistência de dois modelos em colisão: a organização autônoma e programática, defendida pela base histórica, contra a visão de um componente de coalizão governista ampla, defendida pela atual gestão.
Para o especialista, nenhuma dessas visões venceu a outra ainda, o que explica a 'fervura interna' e a resistência manifestada por nomes como Paulão, Teca Nelma e o Professor Luizinho
