A morte da adolescente Evilly Vitória, na última quarta-feira (22), em Arapiraca, acendeu um alerta sobre a dengue em Alagoas. Isso porque, inicialmente, a doença, em sua forma mais grave, foi apontada como suspeita da causa da morte da jovem.

Segundo relatos da família, Evilly, de 17 anos, deu entrada três vezes em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade com sintomas compatíveis com a dengue. A primeira ida ocorreu no dia 9 de abril e a última no domingo (19). Ainda de acordo com a família, os exames iniciais não identificaram um quadro de dengue grave, e o diagnóstico demorou a ser confirmado, o que só ocorreu após a realização de um hemograma.

Após a confirmação, a adolescente foi transferida para o Complexo Hospitalar Manoel André (Chama), onde ficou internada na UTI, mas não resistiu. Na sexta-feira (24), a Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca negou que a morte tenha sido causada por complicações de dengue hemorrágica, como divulgado anteriormente, e informou que o caso segue sob investigação epidemiológica e laboratorial.

 Evilly Vitória / Foto: Reprodução - Redes Sociais

 

A morte da jovem gerou grande repercussão e reforçou o alerta da população quanto à gravidade da doença.

A dengue geralmente começa com febre alta de início súbito, entre 38,5°C e 39°C. Esse costuma ser o primeiro sintoma, seguido por dor de cabeça, cansaço, dores musculares e dor atrás dos olhos. Náuseas e vômitos também podem ocorrer. O diagnóstico deve sempre ser confirmado por um médico.

Nos casos leves, o tratamento costuma ser feito em casa, com acompanhamento. No entanto, se não houver melhora após sete dias, é fundamental procurar novamente atendimento médico para reavaliação.

Para esclarecer as diferenças entre os tipos de dengue, como ocorre a dengue grave (hemorrágica) e quando buscar atendimento médico, o CadaMinuto conversou com a biomédica Flávia Oliveira.

Confira a entrevista:

O que é a dengue e qual o microrganismo envolvido?

A dengue é uma doença infecciosa febril aguda, que pode se manifestar de forma leve ou evoluir para quadros graves, dependendo de fatores como o sorotipo do vírus, histórico de infecções anteriores e condições de saúde do paciente. O agente causador é o vírus da dengue, pertencente à família dos flavivírus, classificado como um arbovírus por ser transmitido por vetores. No caso, o principal transmissor é o mosquito Aedes aegypti. Existem quatro sorotipos conhecidos (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4), todos capazes de causar a doença.

Aedes aegypti - mosquito transmissor da dengue / Foto: (IAGF)

 

O que são os sorotipos da dengue?

Os sorotipos são variações do vírus que apresentam diferenças em sua estrutura antigênica. Isso significa que, ao contrair dengue por um sorotipo, a pessoa desenvolve imunidade permanente apenas contra aquele tipo específico, mas continua vulnerável aos demais. Por isso, é possível ter dengue até quatro vezes ao longo da vida. Além disso, infecções sucessivas por sorotipos diferentes aumentam o risco de evolução para formas mais graves, devido a uma resposta imunológica mais intensa do organismo.

Por que o sorotipo 3 preocupa?

O DENV-3 é considerado mais virulento, ou seja, tem maior capacidade de causar quadros graves da doença. Estudos mostram que ele está frequentemente associado a formas mais severas, assim como o DENV-2. No Brasil, a introdução do sorotipo 3 esteve relacionada ao aumento expressivo de casos entre os anos 2000 e 2002, contribuindo para epidemias mais intensas e maior número de complicações.

O que é a dengue hemorrágica?

A dengue hemorrágica, atualmente classificada como dengue grave, é uma complicação da infecção pelo vírus. Ela ocorre quando há alterações na coagulação e aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, levando ao extravasamento de plasma. Os sintomas podem incluir sangramentos, manchas na pele, vômitos persistentes, dor abdominal intensa e dificuldade respiratória. Nem todos os casos apresentam sangramento visível, o que pode dificultar o diagnóstico.

A dengue hemorrágica pode matar?

Sim. Nos casos mais graves, a doença pode levar ao choque, causado pela perda significativa de líquidos dos vasos sanguíneos, resultando em queda de pressão arterial. Além disso, hemorragias internas, insuficiência respiratória e falência de órgãos também podem ocorrer. No entanto, o atendimento médico rápido e adequado reduz consideravelmente o risco de morte.

Então, a dengue grave tem cura?

Tem, especialmente quando é diagnosticada precocemente. O tratamento é baseado em suporte clínico, com hidratação intensiva e monitoramento constante. O organismo do paciente é o responsável por combater o vírus, enquanto a equipe de saúde atua para manter as funções vitais estáveis durante o período crítico da doença.

Quais são os sinais de alerta?

Entre os principais sinais estão dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos, dificuldade para respirar, tontura, queda de pressão e alterações no nível de consciência. Esses sintomas costumam surgir quando a febre começa a diminuir, entre o terceiro e o sétimo dia, fase considerada crítica.

Outros sintomas são: manchas vermelhas pelo corpo; sangramentos na gengiva, boca, nariz, ouvidos ou debaixo da pele; presença de sangue nas fezes, e batimentos cardíacos acelerados ou lentos. A pessoa com dengue hemorrágica também pode apresentar sensação extrema de cansaço, fraqueza, sono alternado com agitação, tontura, irritabilidade, letargia, confusão mental, sensação de desmaio, queda de pressão arterial e lábios roxos. 

É importante lembra que, apesar dos sangramentos serem característicos da dengue hemorrágica, em alguns casos podem não acontecer, podendo dificultar o diagnóstico e atrasar o início do tratamento. Por isso, sempre que forem percebidos sinais e sintomas indicativos de dengue, é importante ir ao hospital.

Manchas vermelhas na pele é um dos sintomas da dengue / Foto: Reprodução 

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico e laboratorial. O médico avalia os sintomas e pode solicitar exames como hemograma, testes de coagulação e, em alguns casos, exames de imagem. A identificação precoce de alterações no sangue é essencial para evitar complicações.

O que causa a forma hemorrágica?

A forma grave está associada a uma resposta imunológica exacerbada do organismo ao vírus, especialmente em pessoas que já tiveram dengue anteriormente. Essa reação pode provocar inflamação intensa, alterações na coagulação e vazamento de plasma. No entanto, pessoas sem infecção prévia também podem desenvolver a forma grave. O risco de dengue hemorrágica também é maior em lactentes, crianças, mulheres grávidas, idosos e pessoas que já possuem problemas de saúde, como diabetes e pressão alta. Além disso, o uso de alguns remédios que não foram recomendados pelo médico para tratar a dengue, como ácido acetilsalicílico e ibuprofeno, também podem favorecer o desenvolvimento da dengue hemorrágica, pois podem estimular sangramentos e hemorragias.

Por onde sai sangue na dengue hemorrágica?

Na dengue hemorrágica o sangue pode sair por diversas partes do corpo, como nariz, gengivas, por meio das fezes ou urina. Além disso, embora não "vaze" para fora do corpo, o sangue também pode sair sob a pele, sendo visível na forma de manchas vermelhas, pontinhos de sangue ou manchas roxas que parecem hematomas e machucados. Em casos muito graves, podem ocorrer sangramentos severos em órgãos internos, como no sistema nervoso central.

Como é feito o tratamento?

O tratamento é realizado em ambiente hospitalar e inclui hidratação intravenosa, monitoramento rigoroso dos sinais vitais e, em casos mais graves, transfusões de sangue e suporte respiratório. Medicamentos como anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico devem ser evitados, pois aumentam o risco de sangramentos.

Como prevenir a dengue?

A principal forma de prevenção é eliminar criadouros do mosquito, evitando água parada em recipientes. Também é recomendado o uso de repelentes, roupas que protejam o corpo, telas em janelas e o uso de mosquiteiros. A vacinação pode ser indicada para pessoas que vivem em áreas com alta incidência da doença.

A dengue é contagiosa?

Não. A transmissão ocorre exclusivamente pela picada do mosquito infectado, não havendo contágio direto entre pessoas.

 

Sintomas da dengue clássica e da dengue hemorrágica

Fonte: Agência Brasília