Passageiros que dependem do transporte alternativo intermunicipal em Alagoas convivem com um cenário de incertezas que oscila entre a eficiência de uns e o total descaso de outros.
O desrespeito às normas básicas de segurança é flagrante: ao transportar pessoas em pé e ignorar o uso obrigatório do cinto de segurança, motoristas transformam o trajeto intermunicipal em uma ameaça direta à integridade física e à vida dos usuários.
Uma experiência acompanhada pela nossa reportagem no último sábado (11), na linha Maceió/Ibateguara, flagrou desde graves infrações de segurança até o retardamento proposital de viagens, prática conhecida como "segurar o carro", que coloca em risco a vida dos usuários e a fluidez do trânsito.
A disparidade no serviço prestado é evidente. Enquanto a viagem de volta, iniciada às 13h, cumpriu o trajeto em 2h17, dentro do tempo esperado de 2h a 2h30, o percurso da manhã foi marcado por irregularidades. A van que partiu do Terminal Rodoviário de Maceió às 06h10 só chegou ao destino final às 09h25.

O atraso de quase uma hora não foi fruto de congestionamentos, o fluxo estava livre no momento da partida, mas sim de uma condução em velocidade reduzida e paradas constantes.
Somente para percorrer o bairro do Feitosa, o motorista levou cerca de meia hora, parando em todos os pontos para anunciar o destino, além de estender o percurso por áreas como o Shopping Pátio e a Cidade Universitária de forma deliberadamente lenta.
Durante o percurso, o motorista ainda efetuou uma parada de quase 15 minutos em um posto de combustível na entrada do Conjunto José Tenório, na Serraria. O atraso deliberado teve como objetivo aguardar uma passageira, amiga do condutor, que se deslocava de outro ponto da cidade, ignorando o compromisso com o horário dos demais usuários que já estavam no veículo.
Ao ser cobrado pelos passageiros sobre o atraso, o motorista da manhã reagiu com rispidez: “Quem faz meu horário sou eu”. Procurado por nossa reportagem para explicar a morosidade e o tempo de viagem de mais de três horas, o condutor se recusou a prestar esclarecimentos ou comentar o descumprimento do cronograma.
Para a passageira Júlia Ferreira, a demora excessiva é fruto da ganância de motoristas já conhecidos na rodoviária, inclusive de outras linhas. Ela descreve o cenário como uma disputa de usura, onde a competição por cada passageiro ignora o respeito ao usuário.
Durante o trajeto acompanhado pela reportagem, Júlia observou que o motorista estaria em uma disputa direta com a van da linha Murici. “Ele quer pegar a maior quantidade de passageiros possível, por isso para em todos os pontos. É uma lógica simples: quanto mais gente, mais dinheiro. O problema é que nós sofremos, porque eles acham que não temos compromisso com o tempo”, desabafou.

Passageiros em pé e o não uso do cinto de segurança
A rotina de irregularidades, contudo, vai além da demora excessiva nos percursos. Problemas graves de segurança são relatados com frequência por usuários não apenas da linha Maceió/Ibateguara, mas de diversos itinerários intermunicipais.
Quem utiliza o serviço com frequência confirma que a insegurança é uma constante. Impulsionados por essa competição desenfreada por passageiros, veículos circulam superlotados, desrespeitando o artigo 231 do CTB. Vale destacar que transportar pessoas acima da capacidade permitida é uma infração gravíssima, colocando em risco a vida de todos os ocupantes em caso de acidentes.
Maria Cícera, de 66 anos, passageira assídua da linha para Chã Preta, relata que a lotação é a regra, não a exceção. “Sempre há passageiros que vão em pé. A van já sai da rodoviária cheia e vai pegando gente no caminho; quando chega no destino, está entupida”, afirma.

O perigo dessa negligência é sentido na pele por outros usuários. José Santino, morador do Povoado Ouricuri, em Atalaia, utiliza o transporte para trabalhar em Maceió e já presenciou acidentes internos devido à imprudência.
“Já vi freadas bruscas onde uma adolescente que estava em pé foi parar lá na frente e machucou o braço levemente”, relata. Segundo ele, a prioridade de motoristas e cobradores é o lucro sobre a segurança: “A maior preocupação é conseguir o maior número de passageiros, e isso leva o carro a ir bem devagar para lotar o veículo”.
Ainda sobre a segurança dos passageiros, a idosa Maria Cícera traz um alerta importante sobre a omissão dos funcionários. “Os veículos têm cinto de segurança, mas nunca presenciei recomendação dos cobradores para usar. Os carros têm, mas não se usa”, lamenta.

A reportagem flagrou os equipamentos obrigatórios de segurança pendurados fora do alcance dos assentos, impossibilitando o uso. A prática ignora a obrigatoriedade imposta pelo artigo 167 do CTB, que considera o transporte de passageiros sem o dispositivo uma infração de natureza grave.
Visão de dentro do sistema
Na viagem de retorno, um cobrador que preferiu não se identificar trouxe uma visão de dentro do sistema.
Segundo ele, o motorista com quem trabalha investiu em um veículo moderno, com cintos de três pontos, mas admitiu que a prática de levar passageiros em pé ocorre "para não deixá-los esperando", revelando que a lotação acima do permitido é vista por alguns como uma "cortesia", ignorando o risco de morte em caso de colisões ou frenagens bruscas.
Ainda segundo o relato do funcionário, a orientação oficial é o cumprimento rigoroso do quadro de horários. Ele revelou que, quando há denúncias formalizadas à Arsal, a punição pode chegar a R$ 800,00 em multa, além da suspensão do veículo por um dia.
Silêncio dos órgãos competentes
A reportagem do Cada Minuto entrou em contato com a assessoria da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas (Arsal) por meio do seu contato oficial via WhatsApp para questionar sobre a fiscalização nessas linhas específicas e as medidas contra o excesso de passageiros. No entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno.
