Enquanto as bolhas das redes sociais fervem com polêmicas e anúncios patrocinados, o destino das eleições 2026 em Alagoas continua sendo traçada longe das telas dos Smartphones. 

Em análise exclusiva ao Cada Minuto, a cientista política e professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Luciana Santana, aponta que, apesar do avanço da conectividade, o estado ainda preserva uma dinâmica política tradicional, na qual o rádio e o contato direto em municípios de pequeno porte têm mais peso do que os algoritmos.

Para a especialista, a conectividade em Alagoas é um fenômeno complexo. “O que precisamos entender é se essa conexão representa melhor qualidade da informação ou se torna o eleitor mais vulnerável à desinformação”, avalia. Para Santana, o “barulho digital” em Maceió muitas vezes não ultrapassa as fronteiras da Região Metropolitana com a mesma força.

Cientista politica e professora da UFAL, Luciana Santana


Alagoas é formada por municípios pequenos, segundo Santana, onde a rotina da população ainda é ditada por meio de comunicação tradicionais. Nesses locais, o rádio continua sendo a principal fonte de informação, e a influência política é construída no contato pessoal. 

“A rede social é uma ferramenta importante, mas não substitui o modelo clássico de fazer política no interior. O diálogo direto com as bases e o papel do rádio ainda são os grandes trunfos para quem busca o voto no interior do estado”, explica a cientista política.

Um ponto crítico levantado por Santana é a qualidade do conteúdo que chega ao eleitor conectado. Alagoas, ao mesmo tempo em que se digitaliza, enfrenta o desafio da desinformação. 

Para a professora, o eleitorado mais vulnerável acaba sendo alvo fácil de narrativas distorcidas que se espalham rapidamente por aplicativos de mensagem, sem o filtro do jornalismo profissional. 

Ainda de acordo com ela, a estratégia política em 2026, portanto, não deve se resumir ao Instagram ou TikTok. Segundo a análise, vencerá quem conseguir equilibrar o discurso moderno das redes com a capacidade de “gastar sola de sapato” e dialogar com o eleitor que ainda prioriza a confiança no líder local e no rádio de pilha. 

As emendas e o peso político de AL nas eleições

Ainda de acordo com a cientista política, o protagonismo político de Alagoas no cenário federal não é um fenômeno recente, mas o reflexo de lideranças consolidadas que detêm um expressivo capital eleitoral. 

Em sua análise sobre o peso dos ministros alagoanos em Brasília, Santana destacou que nomes como Renan Filho, Marx Beltrão e Luciano Barbosa deixaram legados importantes para o estado em diferentes pastas. 

Segundo a especialista, embora o trabalho de um ministro deva ser focado no país, a presença de alagoanos em cargos de comando gera ganhos para o estado, ainda que esses avanços não supram todas as necessidades de uma região marcada por profundas desigualdades. 

Outro ponto crucial da análise refere-se ao uso das emendas impositivas, que Santana classifica como um “trunfo” nas mãos das lideranças partidárias. Em ano de eleição, o uso dessas emendas se intensifica, pois o objetivo central dos políticos é a manutenção do poder e a visibilidade eleitoral. 

“Quem vai ter maior êxito é quem conseguir utilizar melhor o seu discurso e dialogar melhor com as bases”, afirma, destacando que a estratégia política muitas vezes se sobrepõe ao planejamento de longo prazo.

A “asfixia” da terceira via e o ‘familismo’ 

Para Luciana Santana, o desenho político impõe um sistema de “asfixia” para qualquer tentativa de terceira via. O cenário é polarizado por dois grande eixos que dominam a estrutura partidária e o capital financeiro.

De acordo com docente, de um lado, o grande grupo liderado por Arthur Lira (PP) e o PL, fortemente ligado ao bolsonarismo e que um dia já foi ligado a JHC; do outro, a aliança Lula e os Calheiros (PT e MDB). 

“O sistema asfixia alternativas que não orbitam esses polos”, afirma. Além disso, destaca que, embora o PT e o PL tenham pesos ideológicos distintos, em Alagoas as siglas funcionam muito como suporte para as lideranças locais. 

Um dos pontos mais críticos da análise da cientista política é o chamado “familismo”, que ela aponta como a principal barreira para a renovação. Santana exemplifica que as grandes lideranças não pensam apenas na própria carreira, mas na continuidade do poder dentro de seus clãs.

“Arthur Lira planeja sua saída da Câmara, mas já projeta o filho para manter o espaço. O mesmo ocorre com JHC, que foca em eleger a mãe, a irmã e a esposa para consolidar seu grupo”, pontua. 

Esse modelo de sucessão, segundo Santana, também está presente no grupo de Renan Calheiros, cria um círculo fechado onde a renovação de nomes é substituída pela perpetuação de sobrenomes, dificultando o surgimento de lideranças que venham de fora dessas estruturas tradicionais. 

O balanço da análise aponta para uma Alagoas em que a política é, sobretudo, um jogo de xadrez geracional e financeiro. Lideranças consolidadas ampliam o uso das emendas e fortalecem seus grupos, enquanto a “renovação” ainda busca espaço além das telas da capital. 

Nesse cenário, o estado caminha para uma eleição em que a manutenção do poder segue como a única regra que não muda.