Passa, curte e arrasta o dedo para cima: gestos simples que fazem parte da rotina de milhares de adolescentes. Em um cenário cada vez mais conectado, viver a juventude também passa pelas telas — curtidas, comentários e visualizações funcionam como indicadores de aceitação e pertencimento.

Para quem está nessa fase da vida, as redes sociais deixaram de ser apenas parte do cotidiano e passaram a influenciar diretamente a forma de existir e de se perceber no mundo. Nesse ambiente, ao mesmo tempo em que acumulam likes, muitos jovens também lidam com frustrações silenciosas.

Porém, nem tudo são flores. A internet também é um espaço que evidencia diferentes vivências de classes sociais, étnicas e raciais, o que pode despertar as mais variadas emoções. 

Há aqueles que passam a admirar determinados estilos de vida, enquanto outros se questionam por que não possuem aquele cotidiano quase utópico, colocando-se em uma posição de inferioridade.

Essas e outras questões foram levantadas no Relatório Mundial da Felicidade 2026, publicado no dia 19 de março, que aponta que o uso excessivo das redes sociais pode tornar os jovens mais infelizes.

O estudo ouviu adolescentes de 15 anos em 50 países. O objetivo foi analisar os efeitos da “significativa queda de bem-estar” que, segundo a pesquisa, variam de acordo com as plataformas, a forma como essas redes são utilizadas e os fatores demográficos de cada indivíduo.

Para a psicóloga Ellen Quintela, a percepção de felicidade está diretamente relacionada à maneira como as pessoas enxergam o mundo e interpretam as situações, o que faz com que adolescentes comparem suas realidades com o universo digital.

“Com os adolescentes imersos numa cultura que deriva do mundo digital, há uma maior tendência de referenciar suas próprias realidades de forma comparativa a partir do que consomem. Se o cenário digital é sempre melhor, isso pode trazer a sensação de insatisfação com as próprias vidas e com a autoimagem, que passam a parecer inadequadas e insuficientes”, afirmou.

 

A psicóloga Ellen Quintela destaca que a comparação nas redes sociais influencia a percepção de felicidade dos adolescentes – Foto: Divulgação

 

A infelicidade, no entanto, não está atrelada apenas a recortes globais. As regiões onde esses jovens vivem também exercem influência direta, considerando suas especificidades, como níveis socioeconômicos, costumes e padrões de comportamento.

Em Alagoas, esse cenário ganha contornos próprios, marcados pelas desigualdades sociais e pelo acesso limitado a determinados padrões de consumo frequentemente exibidos nas redes.

Ellen destaca que, mesmo sem características específicas isoladas, há um estímulo ao consumo exacerbado entre adolescentes, sobretudo diante dessas desigualdades.

“Cria-se a ideia de que, para ser feliz e ter qualidade de vida, é necessário ter acesso a itens de alto custo, que colocam esses jovens em um determinado nicho social. Mais uma vez, isso gera sensação de insatisfação, já que, devido às diferentes realidades financeiras, nem todos terão acesso”, explica.

Sou bonita? A infelicidade das meninas no uso das redes sociais

As mulheres historicamente enfrentam diferentes formas de pressão, mesmo em idades em que ainda não compreendem totalmente essas imposições. Desde cedo, são incentivadas a seguir padrões estabelecidos pelas indústrias da moda e da beleza, o que reforça a idealização de um modelo de “mulher perfeita”.

Se esse debate já existia há décadas, com o avanço das redes sociais ele se intensificou. O corpo “ideal” deixou de estar apenas em outdoors e na televisão e passou a ocupar a palma da mão.

“No ambiente digital, essa separação se torna ainda mais evidente. Os conteúdos são fortemente direcionados a públicos específicos, impulsionados por algoritmos capazes de identificar preferências e oferecer exatamente o que cada grupo tende a consumir — o que, em certa medida, faz parte da lógica das plataformas”, destaca.

Diferentemente das mulheres, os homens não sofrem, na mesma proporção, com a pressão estética. Embora a internet também imponha padrões de comportamento para esse grupo, o impacto ainda não se equipara à exigência constante direcionada às meninas para estarem “dentro do padrão”.

Segundo a especialista, apesar dos avanços na desconstrução de papéis de gênero, essas diferenças ainda persistem. “Culturalmente, ainda há distinções na forma como meninos e meninas são criados. Embora isso venha mudando nos últimos anos, com avanços importantes, essas diferenças permanecem. Nesse contexto, meninas e adolescentes são mais expostas a conteúdos relacionados à beleza, comportamento e padrões associados ao universo feminino, o que influencia diretamente hábitos e percepções”, afirma.

 

Comparações constantes nas redes sociais e padrões inalcançáveis ajudam a explicar a frustração e a insatisfação – Foto: Freepik

 

Influência que molda comportamentos e reforça frustrações

Ao falar sobre o ambiente digital, é inevitável abordar o papel dos influenciadores na formação de comportamentos e percepções. Produzindo conteúdos variados, esses criadores utilizam o cotidiano e uma linguagem acessível para tratar de diversos temas — inclusive disseminando, em alguns casos, ideias equivocadas sobre saúde e beleza.

A produção de vídeos para as redes sociais passou a exigir maior responsabilidade, já que esses conteúdos são consumidos diariamente e influenciam diretamente a formação da identidade dos jovens. Expressões como “67” e “farmar aura”, por exemplo, ganharam popularidade nas plataformas e rapidamente ultrapassaram as telas, chegando às escolas e ao convívio social.

No entanto, essa influência pode se tornar prejudicial quando reforça comportamentos desconectados da realidade socioeconômica ou estimula preconceitos, alimentando desejos irreais e percepções distorcidas — não apenas entre adolescentes, mas também entre adultos.

“Nem todos — e arrisco dizer que a maioria — assume essa responsabilidade de forma consciente, refletindo sobre os impactos do que produzem. Existe um potencial importante de provocar reflexão, mas a ausência desse compromisso social acaba ampliando sentimentos como frustração e infelicidade entre os jovens”, afirma a psicóloga.

Outro ponto destacado pela psicóloga é a construção de um estilo de vida aparentemente acessível, que nem sempre corresponde à realidade. “Corpos considerados ‘ideais’, por exemplo, muitas vezes dependem de recursos financeiros elevados ou de práticas que não são acessíveis — e, em alguns casos, nem saudáveis”, pontua.

Quintela também chama atenção para a falta de transparência nesse processo. “Frequentemente, não se mostra o percurso até aquele resultado final. Essa ausência de contexto contribui para a criação de expectativas irreais e afeta diretamente a forma como adolescentes se enxergam e se relacionam com o próprio corpo e com a própria vida”, completa.

Como famílias tentam frear os efeitos das redes sociais entre adolescentes

Diante desse cenário, famílias têm buscado alternativas para reduzir os impactos do uso excessivo das redes sociais. Com uma nova geração de pais, os cuidados com o consumo digital se tornaram mais frequentes, especialmente em relação ao que os adolescentes acessam no dia a dia.

De acordo com a especialista, entre as estratégias adotadas estão a limitação do tempo de tela, o bloqueio de aplicativos e o incentivo à participação em atividades extracurriculares, como balé, judô e natação. Ainda assim, Quintela ressalta que a restrição, por si só, não é suficiente. A supervisão do conteúdo consumido e o diálogo dentro de casa são fundamentais.

“Além disso, é importante desenvolver e praticar valores como respeito, sabedoria, limites e gentileza, ao mesmo tempo em que se constrói um ambiente em que o adolescente tenha autonomia e capacidade para tomar decisões — dentro de limites aceitáveis — com base nesses ensinamentos”, finaliza.

*Estagiária sob supervisão da editoria