Casos recentes de violência sexual e contra mulheres que chocaram o Brasil reacenderam um debate urgente sobre misoginia nas redes sociais. Um dos episódios de maior repercussão foi o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, crime que levou à prisão de cinco indiciados e provocou novas denúncias relacionadas ao mesmo grupo.
Diante de situações como essa, especialistas voltam a discutir o papel de ambientes digitais que ajudam a normalizar discursos de ódio contra mulheres. Em fóruns, perfis e comunidades online, conteúdos que humilham mulheres ou tratam igualdade de gênero como ameaça têm circulado com cada vez mais frequência. É nesse contexto que um termo tem ganhado visibilidade em debates sociais e políticos: red pill.
Origem do termo
A expressão “red pill” surgiu a partir do filme Matrix, lançado em 1999. Na história, o personagem principal, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas: a vermelha, que revelaria a “verdade” sobre o mundo, ou a azul, que permitiria continuar vivendo em uma realidade ilusória.
Na internet, o conceito foi apropriado por comunidades masculinas que passaram a usar a ideia de “tomar a pílula vermelha” como metáfora para um suposto despertar sobre relacionamentos, poder e papéis de gênero.
Com o tempo, no entanto, o termo passou a ser associado a conteúdos que difundem visões negativas sobre mulheres e relações afetivas.
Especialistas alertam, no entanto, que muitos desses conteúdos podem incentivar ressentimento e discursos de ódio. O crescimento desse tipo de “movimento” está ligado ao funcionamento das redes sociais e aos algoritmos de recomendação, que tendem a sugerir conteúdos semelhantes ao que o usuário já consumiu. Internautas de modo geral têm acesso, mas pesquisas apontam que os jovens, nascidos entre 1995 e 2010, da chamada Geração Z estão entre os mais expostos a esse universo.
Red pill e blue pill: o que significam
Dentro dessas comunidades digitais, o termo red pill costuma se referir ao homem que teria “acordado” para uma suposta verdade sobre o comportamento feminino.
Já blue pill é o rótulo dado aos homens que ainda acreditariam em ideias como amor romântico, igualdade de gênero ou relações mais equilibradas.
Embora pareçam expressões simples, especialistas apontam que esses termos carregam uma visão de mundo que coloca homens e mulheres em lados opostos, como se relacionamentos fossem disputas de poder.
Segundo a psiquiatra Daniel Brito, os jovens da Geração Z estão ainda em formação de identidade e pertencimento e ficam mais suscetíveis e interessados nesse tipo de conteúdo.
“Os conteúdos como os do Red Pill chegam de forma sedutora, com vídeos, memes, humor e ‘verdades escondidas’ oferecendo respostas relativamente simples para frustrações que muitos adolescentes vivem, especialmente em relacionadas à rejeição. Esses conteúdos acabam “incutindo” nos jovens uma ideia de guerra e disputa entre mulheres e homens”, afirmou a psiquiatra.
Um outro fator que contribui para essa expansão do red pill é o funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais. Conteúdos que geram reação rápida, como polêmica ou indignação, tendem a alcançar mais pessoas. Desta forma, quando um usuário passa a interagir com esse tipo de material, o sistema pode sugerir conteúdos semelhantes, ampliando a exposição a essas narrativas.

A relação com a chamada “manosfera”
O red pill faz parte de um universo maior conhecido como “manosfera” ou “machosfera”, termos usados por pesquisadores para descrever comunidades online compostas majoritariamente por homens que compartilham críticas ou ataques ao feminismo e à igualdade de gênero.
Segundo a pesquisadora Camila Souza, que estuda masculinismo e redes de ódio na internet, esses espaços funcionam como verdadeiros ecossistemas digitais.
“Não se trata só de troca de opiniões. Em muitos casos, essas comunidades reforçam ressentimento, radicalização, comentários que desqualificam, ameaças e discursos de hostilidade contra mulheres. Isso já produz violência”, explica.
Para Camila, há debates virtuais nesses espaços onde são discutidos relacionamentos, masculinidade, superioridade masculina e onde também aparecem discursos misóginos e antifeministas.
“Em situações mais graves, essas ideias podem contribuir para comportamentos agressivos e violência doméstica. É fundamental que os avanços desses conteúdos sejam combatidos. O avanço desse tipo de movimento deixa claro a necessidade de educação digital e diálogo. Em relação aos jovens, apenas a proibição do uso das redes não resolve, nem é solução para o problema”, destaca a pesquisadora.
Crescimento dessas comunidades no Brasil
Estudos indicam o conteúdo red pill tem se expandido no país. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas identificou 85 comunidades misóginas em redes sociais, reunindo cerca de 225 mil participantes.
Segundo a pesquisa, o volume de conteúdos nesses espaços cresceu cerca de 600 vezes desde 2019.
Para a pesquisadora, os números reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre educação digital, responsabilização das plataformas e combate à violência de gênero também no ambiente online.

Em 2023, um caso envolvendo o influenciador Thiago Schutz e a humorista Lívia La Gatto chamou a atenção para o movimento red pill no Brasil. O influenciador brasileiro, de 34 anos, se apresenta como "coach de masculinidade" e ficou conhecido por um vídeo no qual apresenta suas ideias de manipulação feminina com o exemplo de uma mulher que oferece cerveja a um homem que bebe Campari. Foi aí que ele ganhou os apelidos de Coach do Campari e Calvo do Campari.
La Gatto é uma atriz e roteirista, defensora da igualdade de gênero e dos direitos das mulheres. Após publicar um vídeo em que parodia os "ensinamentos" de Schutz, ela passou a receber ameaças dele, que chegou a afirmar "é processo ou bala".
Schutz, que na verdade se chama Schoba, foi denunciado à Justiça e está com sua conta pessoal do Instagram suspensa. Ainda assim, a página profissional do seu treinamento, permanece ativa, com mais de 300 mil seguidores.
O perfil do influenciador, que se chama Manual Red Pill, é um entre os inúmeros perfis que pregam a superioridade masculina nas redes sociais.

Projeto de Lei em análise Câmara
O Projeto de Lei 6075/2025 – conhecido como “PL Anti Red Pill” -, de autoria da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) foi apresentado na Câmara dos Deputados e propõe tipificar como crime a promoção e a incitação de conteúdos misóginos na internet, com o objetivo de enfrentar a disseminação de discursos que incentivam violência física, psicológica ou moral contra mulheres.
A iniciativa também busca responsabilizar conteúdos que desumanizam mulheres e incentivam práticas de violência ou discriminação, frequentemente difundidos por influenciadores que lucram com a propagação dessas ideias nas redes.
Um abaixo-assinado em apoio ao PL ultrapassou 150 mil assinaturas e aguarda análise final na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), última fase da tramitação antes de ir ao plenário da Casa. A relatoria foi designada à deputada Lídice da Mata (PSB-BA).
*Foto 1: Getty Images/BBC
