Aos 38 anos, Daniela Soares acorda todos os dias com um corpo que dói como se carregasse pedras invisíveis. São músculos que parecem queimados, noites de sono interrompidas e uma exaustão que persiste mesmo após horas de descanso. Para quem vê de fora, ela pode parecer apenas cansada, mas Camila sabe que a dor é real, constante e transformou sua rotina.
“Tem dias que levantar da cama parece escalar uma montanha”, diz com a voz embargada. “É difícil explicar para quem nunca sentiu.”
Há sete anos, Daniela foi diagnosticada com fibromialgia, síndrome caracterizada principalmente por dor musculoesquelética difusa e persistente por mais de três meses. Quem sofre com a síndrome também pode apresentar distúrbios do sono, alterações de memória e concentração (popularmente chamadas de “névoa mental”), além de ansiedade e depressão.
Diferentemente de doenças inflamatórias ou autoimunes, a fibromialgia não provoca deformidades físicas nem aparece em exames laboratoriais ou de imagem, o que torna o diagnóstico essencialmente clínico.

A síndrome por trás da cor roxa
O mês de fevereiro ganha um tom especial no Brasil: o Fevereiro Roxo, campanha que chama atenção para condições crônicas e ainda pouco compreendidas pela sociedade como lúpus, Alzheimer e fibromialgia. Nesta última, a dor pode se manifestar em múltiplas partes do corpo, acompanhada de cansaço profundo, dificuldade de concentração e alterações do sono.
No Brasil, estima-se que cerca de 2% a 2,5% da população adulta viva com fibromialgia, mas esse número pode ser ainda maior devido ao subdiagnóstico e à falta de registros oficiais, especialmente no Nordeste, incluindo Alagoas.
Alagoas: sem números oficiais, com muita dor
Em Alagoas, não há dados oficiais atualizados sobre a quantidade de pessoas diagnosticadas com fibromialgia. A subnotificação é um dos principais entraves: muitos pacientes convivem com sintomas por anos sem obter diagnóstico, e outros nem chegam a procurar atendimento por medo de não serem levados a sério.
Mesmo assim, iniciativas importantes têm surgido. No Legislativo de Maceió, tramita um projeto que institui o movimento “Fevereiro Roxo”, destacando a necessidade de diagnóstico precoce e atenção integral às pessoas com fibromialgia, Alzheimer e lúpus.
Além disso, Alagoas possui legislação estadual que reconhece a fibromialgia como condição que garante atendimento preferencial, inserindo os portadores em filas especiais e vagas de estacionamento destinadas a pessoas com deficiência — um avanço que, embora discreto, representa um passo rumo à dignidade no cotidiano.
Vivências que representam muitos
Daniela é uma das muitas mulheres que enfrentam a fibromialgia sem uma rede de apoio estruturada. “Tem médico que olha para você e nem acredita no que você descreve… É como se a minha dor não tivesse peso”, conta.
Ela encontrou acolhimento em grupos de suporte e em terapias físicas e psicológicas, mas ainda sente a lacuna deixada pela falta de serviços mais especializados no interior do estado, uma realidade compartilhada por pacientes em cidades como Arapiraca, União dos Palmares e Penedo.
“Se eu pudesse dizer uma coisa para quem lê essa matéria, é: a dor pode ser invisível, mas ela é real”, afirma Daniela,
Informação é cuidado
Durante o Fevereiro Roxo, profissionais de saúde e entidades da sociedade civil reforçam a importância de informar e escutar. A fibromialgia não deixa sinais em exames convencionais e, por isso, ainda enfrenta o estigma de ser “coisa da mente”. Essa visão, porém, tem sido cada vez mais contestada por reumatologistas e estudiosos da dor, que apontam para alterações na forma como o sistema nervoso processa estímulos dolorosos.

“A dor crônica afeta mais do que o corpo. Impacta o trabalho, as relações, a autoestima. A dor da fibromialgia é real. Ela tem base neurobiológica e envolve alterações na forma como o cérebro processa os estímulos dolorosos”, diz o reumatologista Igor Nogueira.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a fibromialgia atinge cerca de 2% a 3% da população brasileira, sendo mais comum em mulheres entre 30 e 60 anos. Apesar dos números expressivos, o diagnóstico ainda é cercado de dúvidas e, muitas vezes, de descrédito
A ausência de marcadores objetivos é um dos principais desafios enfrentados por quem convive com a síndrome. Não são raros os relatos de pacientes que passaram anos ouvindo que “era coisa da cabeça” ou “exagero”.
Tratamento e qualidade de vida
Embora não tenha cura, a fibromialgia tem tratamento. A abordagem costuma ser multidisciplinar, envolvendo uso de medicamentos, prática regular de atividade física, acompanhamento psicológico e técnicas de controle do estresse.
“Não existe um exame de laboratório ou de imagem que ateste a fibromialgia. O diagnóstico é feito por critérios estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Reumatologia e Clínica da Dor e outras instituições científicas que estudam a doença. O tratamento vai além do farmacológico, como psicoterapia e atividades físicas que ajudam no controle da dor. A medicina alternativa também é aliada. A acupuntura, por exemplo, atua nos feixes de dor e oferece grande alívio para os pacientes”, explica o Dr. Igor Nogueira.
O reumatologista diz que a pessoa acometida por fibromialgia sente dor com maior incidência na região da coluna cervical, coluna torácica, cotovelos, nádegas, bacia e joelhos. Quando ocorre a confirmação do diagnóstico, deve-se adotar medidas preventivas de controle da doença para que não atinja altos padrões de gravidade e acabe impedindo as atividades rotineiras ou prostração.
O médico ressalta que não existe um fator infeccioso ou ambiental que provoque a fibromialgia. Estudos demonstram a genética como fator principal.
“O tratamento tem um grande arsenal. Além de remédios para dor e que atue a nível do sistema nervoso central, que é onde está o desfecho do erro, a condução da dor, existe psicoterapia para que se faça a modificação no sistema de relação com o emocional, pois muitos desses pacientes têm sintomas de depressão e ansiedade que amplificam a dor. Atividades físicas, exercícios aeróbicos leves e moderados, como caminhada e hidroginástica, são recomendados. Além do apoio familiar e social”, frisa o médico.
Um convite à empatia
O Fevereiro Roxo, chama atenção para a fibromialgia, uma dor que muitos tentam esconder, mas que atravessa vidas e lares. Mais do que campanhas e leis, pacientes como Daniela pedem escuta e compreensão, reconhecendo que a dor invisível não é menos verdadeira, e que cada história merece ser ouvida.
A campanha também é dedicada à conscientização sobre lúpus e Alzheimer, mas a fibromialgia ocupa um espaço cada vez maior no debate público justamente por desafiar a lógica do “ver para crer”.
“Falar sobre a síndrome é abrir espaço para escuta. É lembrar que nem toda dor deixa marcas visíveis, mas pode atravessar o corpo inteiro”, conclui Daniela.










