“Se o candomblé não tivesse sido teimoso, a nossa religião teria sido apagada”, contou o antropólogo, especialista em Práticas Culturais Populares e sacerdote do candomblé, da Nação Nagô Egba e do Catimbó Jurema, Railton Teixeira da Silva, ao lembrar que foi a resistência quem manteve viva a fé de matriz africana mesmo após a violência de 1912.
Na história de Maceió, aquele período permanece como uma ferida aberta de violência e racismo religioso. Considerado o episódio mais brutal de intolerância religiosa no Brasil, o Quebra de Xangô levou à destruição de cerca de 150 casas de religiões de matriz africana.
A ofensiva foi articulada pelo político local Fernandes Lima, fundador da Liga dos Republicanos Combatentes. À época, à frente da oposição ao então governador Euclides Malta, ele é apontado como o principal mentor da ação, que resultou na saída em massa de pais e mães de santo da capital alagoana.
Na madrugada de 2 de fevereiro, dezenas de casas de culto foram invadidas e devastadas por milícias particulares. Objetos litúrgicos foram queimados em praça pública, tambores silenciados à força e mães e pais de santo passaram a esconder a própria fé como estratégia de sobrevivência.
A violência não se limitou à destruição dos espaços físicos: atingiu a dignidade, a memória e a ancestralidade de um povo inteiro. O Quebra de Xangô de 1912 permanece, até hoje, como um dos capítulos mais dolorosos da história de Maceió.
Com a repressão, parte significativa da cultura afro-brasileira presente em Alagoas foi interrompida. O som que ecoava nos terreiros deu lugar ao medo; histórias, toques, rezas e fundamentos deixaram de ser transmitidos como antes, marcando um silêncio imposto pela intolerância.
Resistência que manteve a fé viva
Silva acrescenta que a sobrevivência da religião não se deu por acaso. Ele explica que o candomblé sempre esteve marcado pela perseguição, desde a escravidão até a chegada ao Brasil e as tentativas de silenciamento cultural.

“Essa teimosia, essa resistência de manter essa herança, é o que manteve e mantém ainda hoje. Porque a perseguição não foi só no Quebra de Xangô, ela continua nos dias atuais”, disse.
Segundo o antropólogo, o episódio de 1912 ganhou destaque por sua perversidade extrema, mas não foi um evento isolado. A violência era política e social, articulada por grupos conservadores que, em sua visão, pretendiam “civilizar” a cidade a partir do apagamento das religiões afro-brasileiras.
Para o historiador e professor universitário Cláudio Jorge, o Quebra de Xangô não foi fruto apenas de intolerância religiosa, mas também de um contexto político e social específico do início do século XX.

Ele aponta que a Liga Republicana dos Combatentes, criada em dezembro de 1911, funcionava como um grupo paramilitar com discurso de “liberdade” e, na prática, promovia ações violentas contra o que considerava ameaça cultural e política. “Foi nesse ambiente conservador que se articulou a chamada Operação Xangô”, destacou Cláudio Jorge.
O historiador ainda destaca que a sociedade de Maceió naquele período era marcada por racismo estrutural, desigualdade social e forte influência do latifúndio (Propriedade rural de grande extensão), mantendo uma lógica de poder baseada na herança colonial e escravista.
“O Estado brasileiro nascente consolidava uma estrutura conservadora que via as religiões afro-brasileiras como algo a ser silenciado ou eliminado”, explicou.
Perseguição ainda persiste
Mesmo com um decreto estadual de 2012 pedindo perdão à população de terreiro, a perseguição não acabou. Silva lembra que a violência hoje assume formas menos explícitas, mas igualmente graves.
A discriminação se manifesta em olhares tortos e no cotidiano, nas denúncias e conflitos com vizinhos por causa do som dos atabaques e nas intervenções policiais que interrompem toques e rituais.
Há também crenças equivocadas que associam a religião ao “demônio”, uma ideia que, para Railton, revela um problema que vai além do campo religioso e se estende ao social e cultural. “A nossa sociedade tem um problema sério com o que o outro acredita. A alteridade incomoda”, ressaltou.
Para o sacerdote, o terreiro funciona como uma escola de valores essenciais, hoje frequentemente perdidos na pressa e na tecnologia do século XXI. Ele destaca o respeito à vida, o amor ao próximo, a partilha e a solidariedade, assim como a preservação da natureza e da ancestralidade. “São coisas que parecem básicas, mas são necessárias para a vida humana”, afirmou.
E o Quebra de Xangô continua vivo na memória. O que ficou, além da destruição física, foi a lembrança de um ataque à própria identidade de uma população.
“Eu sou descendente de pessoas que foram escravizadas, sequestradas, trazidas como bichos”, lembrou o sacerdote. Para ele, o candomblé é um compromisso com os ancestrais, com a história que tentou ser apagada. “E essa história ainda reverbera, porque o Quebra de Xangô não foi um ataque a terreiros, foi uma tentativa de apagar um povo!”, finalizou.
*Estagiário sob supervisão da editoria
Foto de capa: Reprodução / Veículo de imprensa em Alagoas difundiu, de forma equivocada, a associação entre religiões de matriz africana e bruxaria










