Na sala de uma casa simples em Chã Preta, o pano branco de tecido cuidadosamente repousa sobre as imagens dos santos católicos na parede e em um pequeno altar. O gesto, repetido há décadas por Dona Maria Ferreira, de 82 anos, é a materialização de um luto que o tempo não conseguiu apagar. Enquanto o mundo lá fora acelera no ritmo dos feriados e das notificações digitais, dentro deste refúgio no interior de Alagoas, a fé se revela justamente naquilo que se esconde.

As fotos não deixam mentir: há uma solenidade silenciosa no ato de cobrir os santos. Para dona Maria, não é apenas um costume, é um dever de respeito. Entre as imagens “guardadas” sob o pano, estão Senhor Jesus Cristo, Frei Damião e Nossa Senhora da Conceição. “É um costume de sempre do tempo passado”, disse ela, com a voz mansa de quem zela por uma herança que a modernidade parece ignorar.

 


Esta prática, conhecida como o velamento das imagens, é o ponto de partida para entender uma Alagoas que vive em diferentes tempos. Para o doutorando em história, Paulo Victor de Oliveira, o que Dona Maria preserva é um fragmento de uma era em que o luto católico era uma régua que media o comportamento de toda a sociedade. “Antigamente, a hegemonia era tamanha que até outras crenças precisavam silenciar”, explicou. Para ele, a resistência de ritos como o de Dona Maria mostra que, embora a hegemonia tenha acabado, a devoção pessoal criou as suas próprias trincheiras.

Do silêncio das cozinhas aos bares lotados

A memória de Dona Maria Ferreira guarda um tempo em que a Sexta-feira Santa exigia um resguardo doméstico quase total. “Não se comia carne e nem se ouvia música alta”, recordou a idosa. Em Chã Preta, como em grande parte do interior alagoano, o dia era de jejum e de respeito que se passava pela abstinência de prazeres simples. 

Este cenário contrasta com a realidade das áreas urbanas em 2026. Onde antes se tinha o fechamento do comércio e o recolhimento, hoje observa-se bares lotados e toda uma rotina de lazer. A proibição do consumo de carne vermelha, um dos pilares mais tradicionais do período, deu lugar a uma maior flexibilidade nos hábitos alimentares.

 


Este cenário de recolhimento também abria espaço para manifestações de rua que hoje se tornaram raras, como a “Malhação do Judas”. O historiador recorda que esse era um dos atos mais carregado de simbolismo trágico. “O Judas amanhecia enforcado num poste e tinha seu cadáver linchado. Era um rito de extravasamento, nada cristão em sua execução, mas profundamente arraigado no imaginário alagoano da época”, pontuou.

O cientista social Amaro Hélio explica que esta mudança reflete a transição de uma sociedade de sacrifício para uma sociedade de consumo. “Antigamente, a interdição era uma forma de coesão social. Hoje, o mercado oferece o lazer como a principal atividade do feriado. O bar lotado na Sexta-feira Santa não é apenas um desrespeito ao rito para alguns, mas a afirmação de uma nova forma de ocupar o tempo livre”, analisou.

Para o historiador Paulo, isso reforça que esta “subversão” não é um fenômeno inteiramente novo, mas que agora ganhou contornos públicos. Ele pontua que sempre houve o banquete de frutos do mar que, de certa forma, já driblava o jejum rigoroso. “A diferença é que hoje não existe mais a patrulha social que obrigava o indivíduo a esconder os seus hábitos”, assegurou.

A transformação dos costumes é ainda mais evidente no comportamento das novas gerações. Para os jovens, o período é frequentemente ressignificado como um hiato na rotina de trabalho. O historiador Paulo aponta que houve uma quebra na transmissão oral da tradição. Para ele quando a religião deixou de ser uma imposição social, os jovens passaram a ter o direito de escolher onde depositam a sua atenção”.

A Pedagogia do silêncio e o “continente digital”

Se o mundo exterior é marcado pela pressa, a Igreja tenta resgatar o que o Padre Rodrigo Rios chama de “silêncio sepulcral”. Para o sacerdote, o silêncio da Sexta-feira da Paixão e do Sábado Santo não é um vazio, mas uma ferramenta pedagógica. “O silêncio é importantíssimo para pacificar sentimentos e emoções. É nesse estado que conseguimos encontrar a paz e o próprio Deus”, afirmou. Ele destaca que esse silêncio é carregado de esperança. “Não é uma escuridão sem fim, mas uma espera confiante na ressurreição”.

 

Padre Rodrigo Rios. Crédito: Arquivo Pessoal


O Padre Rodrigo Rios também reflete sobre como a tecnologia desafia a espiritualidade. Ele observa que vivemos em um “barulho digital” constante, onde as notificações e o imediatismo dificultam a contemplação. Por outro lado, ele vê a tecnologia como um meio de misericórdia. “A Igreja povoa o que chamamos de ‘continente digital’ para chegar onde o fiel está. É a tecnologia que permite ao idoso ou ao doente, impedidos de ir ao templo, acompanhar o rito de Roma ou de sua própria paróquia”, explicou, citando a importância de emissoras como a Rede Vida e Canção Nova para manter a chama da fé em lares como o de dona Maria.

Ainda de acordo com o sacerdote, a fé traduz-se em gestos concretos. Ele relata que muitas paróquias em Maceió têm ressignificado o jejum, transformando a abstinência de carne em doação de alimentos para os mais vulneráveis. “O sentido do rito ganha força quando se torna caridade”, pontuou.

Esse é o ponto de contato que a Igreja busca com a juventude, hoje mais distante dos ritos tradicionais. De acordo com o historiador Paulo, houve uma quebra de transmissão oral da tradição onde os jovens passaram a ter o direito de escolher onde depositam a sua atenção.

O Padre Rodrigo admite o desafio:

“A juventude vive na cultura do zapping. Não podemos apenas impor o silêncio, precisamos mostrar o valor dele. O desafio é levar a mensagem de sempre, mas numa linguagem que faça sentido para as novas realidades”, afirmou o sacerdote.

Permanência e mutação 

Apesar das mudanças apontadas, a prática de Dona Maria permanece como um testemunho de resistência. Ela reza “por quem não reza” e mantém o olhar sereno de quem sabe que o véu sob as imagens é temporário. O cientista social Amaro Hélio pondera que o futuro destas práticas depende da dinâmica entre o mercado e a identidade regional.

 

Cientista social Amaro Hélio. Crédito: Arquivo Pessoal


Se por um lado a “dessacralização” e a lógica do consumo, apontado por Amaro Hélio, consolidaram o período como um fenômeno de lazer e bares lotados, por outro lado, o “silêncio sepulcral” defendido pelo Padre Rodrigo Rios ainda encontra eco em redutos de fé persistente.

O distanciamento das novas gerações em relação aos ritos rígidos de outrora, analisado pelo historiador Paulo, não apagou totalmente a memória cultural do estado. Práticas como a de Dona Maria Ferreira, em Chã Preta, mostram que a tradição sobrevive onde a fé pessoal e a memória afetiva criam barreiras contra o imediatismo digital.

O cenário atual não aponta para a extinção das tradições, mas para a sua coexistência com a modernidade. Entre o linchamento simbólico do Judas nas ruas e as missas acompanhadas pela tela da TV, a Semana Santa alagoana permanece como um mosaico de identidades, onde o sagrado e o profano, o silêncio e o ruído, dividem o mesmo tempo histórico.