Maceió foi redesenhada à força. Entre os cinco bairros evacuados e intervenções que mudaram o território após o crime ambiental da mineração de sal-gema pela Braskem, a cidade precisou reorganizar seus caminhos. Mas, em um ponto específico do mapa, há um lugar que não acompanhou esse movimento: os Flexais.

A região é atravessada por ruas marcadas pelo silêncio de um entorno esvaziado. Portas fechadas, comércios que não resistiram ao tempo da crise e moradores que seguem lutando pela realocação. O que antes era fluxo, encontro e sustento, hoje se traduz na ausência de pessoas, de renda e de perspectivas.

A comunidade, que vive à beira de um colapso iminente, permanece em um limbo entre o que ficou e tudo aquilo que foi embora após anos de atividade da mineração na capital alagoana.

Decisão recente do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5)  manteve válido o acordo assinado em 2022, que prevê medidas de requalificação para a área afetada em Maceió. Segundo a Justiça, o conjunto de ações é suficiente para enfrentar os impactos identificados.

Na prática, isso mantém como está uma solução pensada para “requalificar” a região. Para quem permanece nos Flexais, no entanto, a dúvida persiste: o que, de fato, significa essa requalificação quando a vida comunitária foi desfeita?

As instituições e a população afetada

Moradores dos Flexais, em Maceió, participaram neste sábado (18) de uma audiência pública no bairro do Bebedouro para acompanhar os desdobramentos da decisão do TRF-5 sobre o caso da mineração da Braskem, que envolve medidas de realocação e indenização às famílias atingidas.

O encontro reuniu entre 300 e 350 pessoas e contou com a presença da Defensoria Pública do Estado de Alagoas (DPE/AL) e de representantes de movimentos sociais. Além de atualizar os moradores sobre a ação judicial, a audiência abriu espaço para relatos sobre os impactos vividos na região ao longo dos últimos anos.

Os moradores dos Flexais avaliam que as medidas ainda não refletem a realidade do território. Segundo lideranças comunitárias, entre 80% e 90% das famílias que permanecem na área defendem a saída definitiva do bairro. Cerca de 3 mil pessoas, aproximadamente 812 famílias, ainda vivem na região.

Para os moradores, o processo avança mais lentamente do que a urgência da vida no bairro. A ação, conduzida pelo defensor público Ricardo Melro, está na fase de produção de provas na Justiça Federal em Alagoas, com coleta de documentos, oitivas e análise dos impactos.

A expectativa é que essa etapa permita ao Judiciário considerar não só os efeitos já reconhecidos, mas também o esvaziamento progressivo da comunidade. Esse cenário se conecta à decisão do TRF-5, que mantém o acordo vigente como suficiente, apesar das críticas de moradores que dizem não se sentir contemplados.

Entre eles está o comerciante Valdemir dos Santos, morador há mais de 30 anos do Flexal de Cima, no bairro do Bebedouro. “Essa decisão agora será tomada pelas mãos dos responsáveis do caso, porque a ação está sob responsabilidade de um juiz federal”, diz.

Ele também questiona os acordos já firmados. “A nossa luta é para provar o que estamos vivendo e o que queremos — não o que decidem por nós. As instituições que fizeram acordos para nos manter aqui mostram claramente de que lado estão”, afirma.

O que a Justiça ainda precisa reconhecer

Ao validar as medidas de requalificação, a decisão também estabelece um limite sobre o que pode ser reconhecido como impacto do desastre. Na prática, o processo discute se as perdas vividas pelos moradores vão além do que foi considerado inicialmente.

A fase de produção de provas deve aprofundar essa discussão. É a partir dela que a Justiça poderá avaliar se os efeitos do esvaziamento — menos visíveis, mas contínuos — também devem entrar nas formas de reparação.

Nesse contexto, a disputa ganha outra dimensão. Mais do que discutir um acordo, o processo passa a definir quais perdas serão reconhecidas e se a realidade dos Flexais ultrapassa os limites previstos inicialmente.

Nesse ponto, o processo deixa de ser apenas jurídico e passa a impactar diretamente o destino de quem permaneceu na região. A história de Valdemir resume esse cenário. Durante anos, sua rotina foi construída a partir do trabalho, de planos possíveis e da sensação de pertencimento ao lugar onde vivia.

Há mais de três décadas nos Flexais, ele construiu uma trajetória no comércio local. Começou do zero, formou clientela e chegou a manter três negócios ativos — uma estrutura consolidada ao longo do tempo.

Mas essa realidade foi se desfazendo aos poucos, assim como a própria comunidade. Hoje, sua história se mistura à do território que perdeu movimento e perspectiva. “Levei anos para construir minha estabilidade. De repente, fiquei sem clientes e com um imóvel que não tem mais valor. Isso gera uma insatisfação enorme”, relata.

Permanecer nos Flexais, hoje, não significa dar continuidade a uma história, mas lidar com as consequências de uma ruptura que não foi escolha dos moradores. O comerciante afirma que recusou propostas apresentadas até agora por considerá-las insuficientes diante das perdas.

“Minha vida faz mais sentido fora daqui, porque tudo o que representava construção de sonhos e conquistas foi destruído”, diz. “Eu tenho esperança de que vamos até o fim e que vamos vencer. Somos vítimas, não culpados. Esse crime tem responsáveis e esperamos que haja responsabilização”, finaliza.

*Estagiárias sob supervisão da editoria