O aplicativo do banco abre com apenas um toque. Em segundos, já é possível visualizar o limite disponível do cartão de crédito, e surge a sensação de poder ao perceber que há um valor que pode ser usado, mesmo que ainda não esteja, de fato, na conta.

Entre jovens alagoanos, em meio à expansão dos bancos digitais e à facilidade cada vez maior de acesso ao cartão de crédito, a rotina financeira segue essa descrição. 

Mas, para quem está começando a lidar com o próprio dinheiro, esse sistema pode fazer com que o crédito passe a funcionar como uma extensão do salário, sem que haja renda suficiente ou preparo para lidar com o acúmulo de dívidas.

A estudante de direito, Agnes Nathália, de 21 anos, reconhece que o cartão de crédito faz parte da sua rotina, especialmente em compras online, e admite que já enfrentou situações de dificuldade.

 

 Estudante de direito, Agnes Nathália, de 21 anos – Foto: Arquivo Pessoal

 

“Já tive compras de madrugada que foram totalmente emocionais, sem pensar. Depois tive que devolver coisas que nem gostei. Teve um mês em que não consegui pagar a fatura e precisei parcelar. Os juros foram altos e virou uma bola de neve”, relata.

O que dizem os dados?

Segundo dados da Serasa, foram registrados 142.383 acordos de renegociação de dívidas entre janeiro e julho de 2025 em Alagoas, com destaque para o crescimento de 53,91% entre jovens da Geração Z.

Ainda conforme o órgão, também houve aumento de 15% no número de consumidores que buscaram negociar débitos nos primeiros sete meses do ano passado. Ao todo, cerca de 1,07 milhão de alagoanos encerraram 2025 com algum tipo de dívida em atraso

O levantamento aponta que 47,32% da população adulta do estado estava inadimplente em dezembro de 2025, um avanço em relação ao ano anterior, quando o índice era de 43,15%. Em um ano, isso representa aproximadamente 94 mil novos inadimplentes.

Uma outra pesquisa divulgada pela Fecomércio em abril de 2026 mostra que o endividamento continua em alta neste início de ano. Em março, 83,40% das famílias estavam endividadas, percentual ligeiramente acima de fevereiro (83,12%) e bem superior ao registrado no mesmo período de 2025 (79,60%).

Para o economista alagoano Guilherme Lopes, professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), o cenário observado em Alagoas está diretamente ligado a um contexto mais amplo da economia brasileira, marcado por juros elevados e forte dependência do crédito.

 

Economista Guilherme Lopes – Foto: Divulgação

 

“Com a taxa básica de juros em 14,5%, a expectativa é de manutenção nesse patamar, diante da instabilidade do cenário global e das incertezas internas. Isso, somado a uma política monetária ainda restritiva, é um ponto central a ser considerado”, ressalta. 

De acordo o especialista, “a taxa média que o consumidor paga chega a cerca de 66%, especialmente quando se inclui o cartão de crédito e o rotativo. Na prática, isso significa que uma parcela significativa da renda das famílias acaba direcionada para o pagamento de dívidas”, afirma.

Segundo ele, o país também convive com uma alta propensão ao consumo, resultado de uma renda historicamente mais baixa e de uma demanda reprimida por bens e serviços.

“Quanto mais a renda aumenta, maior é a tendência de consumo. Isso acontece porque existe uma demanda acumulada por coisas que as pessoas não conseguiam consumir antes, como celular novo, roupas, cursos e assinaturas”, explica.

Lopes destaca ainda que esse comportamento, somado à facilidade do crédito, faz com que muitos consumidores percam a noção do comprometimento real da renda.

“Você parcela uma compra em 10 vezes, depois outra em 5, depois outra em 12. Cada parcela parece pequena, mas quando se soma tudo, o orçamento já foi ultrapassado. É aí que muita gente se perde”, defende.

Como orientação para quem já enfrenta dificuldades com dívidas, o economista cita iniciativas de renegociação.

“Hoje existe o Desenrola Brasil, um programa importante que permite renegociar dívidas com condições mais acessíveis. Para quem está inadimplente, pode ser um caminho para reorganizar a vida financeira”, orienta.

O segredo é a organização

Com o tempo, Agnes diz ter mudado a forma de lidar com o crédito. Hoje, tenta ajustar o limite do cartão ao próprio salário e evita parcelamentos longos. Ainda assim, reconhece que o consumo nem sempre é racional.

“Eu tento me organizar, deixo o limite compatível com o que posso gastar no mês, mas às vezes acabo comprando coisas mais caras do que deveria e parcelando. Não é algo muito saudável para a minha vida financeira”, afirma.

Entre a facilidade do crédito digital e o desafio da organização financeira, o equilíbrio ainda é um aprendizado em construção,  especialmente para uma geração que cresceu com o consumo na palma da mão.

*Estagiária sob supervisão da editoria