A poucos meses das eleições, adolescentes de 16 e 17 anos começam a decidir se querem ou não participar, pela primeira vez, do processo democrático brasileiro. Enquanto alguns enxergam no voto uma oportunidade de transformação social, outros ainda se sentem inseguros diante da responsabilidade de escolher os representantes políticos do país.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 20,3% dos adolescentes aptos a votar nas eleições de 2026 emitiram o título de eleitor. O percentual é de antes do encerramento para a emissão do documento, que se encerrou no último dia 6 de maio. O órgão ainda não divulgou os números atualizados. O percentual revela uma adesão ainda baixa entre os jovens de 16 e 17 anos, faixa etária em que o voto é facultativo.

Para incentivar a participação da juventude, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o TSE chegaram a lançar uma campanha nacional voltada para adolescentes, premiando coletivos que conseguissem mobilizar outros jovens a tirarem o título.

O medo da responsabilidade e o desejo de participar

A estudante Maria Luisa Silva Cavalcante, de 17 anos, ainda não tirou o título de eleitor. Para ela, a decisão está ligada ao peso que atribui ao voto.

“É uma responsabilidade muito grande porque você está decidindo alguém que vai comandar o seu país ou sua cidade”, afirmou.

Maria Luiza - Foto: Mara Santos /CadaMinuto

 

Aluna do 2º ano do Ensino Médio, Maria Luisa contou que os pais deixaram a decisão por conta dela, embora a mãe sempre tenha incentivado que tivesse uma opinião formada sobre política. Mesmo sem se sentir preparada neste momento. “Depende muito do jovem. Eu achei que ainda não tinha maturidade suficiente”, completou.

Já o estudante John William Rodrigues, de 15 anos, tirou o título por influência da família. Ele conta que não planejava fazer o documento agora, mas acabou acompanhando os irmãos e o pai.

Apesar de afirmar que conversa pouco sobre política em casa, John acredita que seu voto pode fazer diferença. Sobre a escolha dos candidatos, admite que deve seguir orientações da família.

“Eu sempre presto atenção, mas vou pela indicação do meu pai”, afirmou.

José William, Maria Luiza e Antônio - Foto: Mara Santos / CadaMinuto

 

Para Antônio José de Medeiros, de 17 anos, o título veio acompanhado da vontade de começar cedo a entender o processo político. Ele decidiu tirar o documento após conversar com a mãe e acredita que participar desde jovem ajuda a formar consciência política.

“Eu acho importante porque os jovens já começam a criar uma base sobre o que querem mais para frente”, destacou.

Embora diga que ainda não acompanha política de forma aprofundada, Antônio afirma que pretende pesquisar os candidatos antes de votar.

“Vou conversar com meus pais, mas também procurar entender quem eu acredito que seja melhor”, explicou.

Jovem defende mais informação e consciência política

A estudante Jamile Alves, também do 2º ano do Ensino Médio, decidiu tirar o título aos 16 anos por iniciativa própria. Para ela, o voto é uma ferramenta importante de transformação social.

“Acredito que votar é uma ação importante para mudanças no país. O Brasil precisa investir em educação para que os jovens possam moldar um futuro melhor”, afirmou.

Jamile disse que acompanha notícias, conversa sobre política em casa e acredita que os adolescentes precisam buscar mais informação antes de votar.

Foto: Divulgação / TSE

 

“Muitos jovens da minha idade nem sabem o nome dos políticos da própria cidade. Quem vai votar precisa se informar para ajudar a construir uma sociedade melhor”, disse.

Ela também defende que o diálogo entre gerações pode ajudar os jovens a compreenderem melhor o cenário político. “A experiência de pessoas mais velhas é extremamente importante nesse momento”, completou.

Números do eleitorado jovem

De acordo com o TSE, o Brasil registrou, em 2024, 724.324 eleitores de 16 anos e 1.111.757 de 17 anos. Entre os adolescentes de 16 anos, 362.230 são do sexo masculino e 362.694 do feminino. Já entre os jovens de 17 anos, são 552.509 homens e 599.448 mulheres.

O total geral de eleitores regulares no país ultrapassa 155,9 milhões.

Em Alagoas, o eleitorado em 2024 foi de 2.442.894 pessoas. Desse total, 21.789 têm 16 anos — sendo 10.899 homens e 10.890 mulheres. Já os eleitores de 17 anos somam 29.926, divididos entre 14.729 homens e 14.947 mulheres.

Os dados do TSE também mostram que a participação da juventude nas eleições oscila ao longo dos anos. Em 2022, mais de 2 milhões de adolescentes haviam tirado o título, o equivalente a 34% dos aptos. Já em 2018, eram cerca de 1,4 milhão de jovens, representando 21% desse público.

Atualmente, o Brasil possui cerca de 5,8 milhões de adolescentes entre 16 e 17 anos. Até fevereiro deste ano, aproximadamente 1,8 milhão de jovens de 15, 16 e 17 anos já haviam emitido o título eleitoral.

Mesmo com a participação facultativa, adolescentes de todo o país vão às urnas pela primeira vez carregando dúvidas, expectativas e diferentes visões sobre política, mas também a possibilidade de começar a construir, desde cedo, sua participação na democracia brasileira.

Foto: Agência Brasil

 

Participação política fortalece democracia, avalia pesquisadora

Segundo o pesquisadora em Ciências Sociais, Vanessa Silva, a participação dos jovens na política é fundamental para fortalecer a democracia e tornar os debates mais representativos. Além de influenciar decisões que impactam diretamente áreas como educação, saúde e segurança, a juventude também contribui com novas ideias e perspectivas para a sociedade.

“É importante que os jovens entendam que a política é a arena onde são tomadas as decisões que afetam diretamente suas vidas, como políticas públicas de saúde, educação, segurança, entre outras. A participação deles no processo é fundamental para trazer novas ideias, perspectivas e demandas para a agenda política, tornando-a mais diversa e representativa", destaca. 

O envolvimento político, segundo a pesquisadora, ajuda ainda na formação de cidadãos mais conscientes sobre direitos, deveres e a importância do diálogo coletivo. “Somente assim será possível construir uma sociedade mais justa, democrática e participativa”, concluiu.

 

*Foto 1: Mara Santos- CadaMinuto