O Centro de Maceió registra um movimento atípico nas semanas que antecedem o 10 de maio. Entre vitrines decoradas e ofertas de ocasião, o comércio local celebra o aquecimento das vendas.
No entanto, por trás da movimentação econômica e do apelo ao consumo, a data oculta uma realidade que raramente vira anúncio: o cotidiano de resistência das mulheres que sustentam a base social de Alagoas.
Para além das flores e presentes, a trajetória da maternidade no estado é atravessada por desafios estruturais. São mulheres que dividem o tempo entre o cumprimento do dever profissional, a precariedade do suporte social e, em muitos casos, o enfrentamento silencioso do luto.
Nesta reportagem especial, o CadaMinuto apresenta a história de mães e filhas que encaram a celebração sob uma perspectiva diferente. Longe da estética idealizada das campanhas publicitárias, elas revelam como é conciliar o ofício e o afeto em uma sociedade que exige muito, mas oferece pouco amparo.
O peso da mão: entre a farda e o ninar
O mercado de trabalho oferece riscos que vão além do cansaço físico; há o risco do afastamento emocional. Para uma mãe, trabalhar é, muitas vezes, abdicar de uma parte de si, tentando entender onde termina a profissional e onde começa a maternidade fora do alcance do abraço.
Algumas mulheres abrem mão de sonhos pessoais para entregar um futuro digno a crianças que ainda nem sabem soletrar. Outras enfrentam o desafio de estarem prontas para qualquer intercorrência, mesmo quando o corpo pede trégua.
Assim é a vida de Luci Mônica, delegada da Polícia Civil, professora de direito e mestranda em Sociologia. Para ela, não há uma linha divisória clara entre as dimensões da vida materna e o cotidiano na delegacia.

Suas vivências se retroalimentam. "Eu procuro aplicar a lei com a firmeza necessária, mas obviamente sem perder a escuta ativa, o respeito à dor do outro e o olhar humanizado", explica Luci.
Para além do distintivo, as histórias que atravessam o plantão policial permanecem fixas em sua mente, influenciando diretamente a forma como educa o filho.
Em meio à correria metropolitana, Luci luta para manter rituais de presença: no café da manhã, no almoço ou no jantar, ela busca a família reunida para colocar a conversa em dia, ainda que o tempo seja escasso.
Mas a vida de uma mãe policial não espera o fim do expediente. Luci recorda um episódio que resume esse malabarismo:
"Uma vez eu estava em uma operação em Rio Largo e meu filho caiu e quebrou um dente. Eu corri de lá para cá, não tinha com quem vir, peguei uma lotação. Quando sentei no carro, percebi que estava ao lado de uma pessoa em cuja casa eu tinha acabado de entrar para fazer uma busca e apreensão".
Para a delegada, ser mãe é entender que a presença de qualidade é o que sustenta o vínculo quando o controle da rotina escapa das mãos. "É estar junto quando é para estar junto, sempre", resume.
O suor do cuidado: a luta pela dignidade
Nos ônibus que cortam Maceió, as bolsas carregadas por mulheres contam histórias de pesos inimagináveis. Ali dentro estão o sustento da casa, a distração para as poucas horas de folga e o amor que transparece em cada gota de suor.
Nadir da Silva, 53 anos, é uma dessas mulheres. Auxiliar de serviços gerais na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) há sete anos, ela volta para casa com a sensação de dever cumprido no ofício, mas com as marcas de uma trajetória de renúncias.
Mãe de seis filhos — o mais velho com 37 anos e a caçula com 20 —, Nadir relata os sacrifícios feitos para garantir o mínimo às crianças. "Quando me separei do pai dela [a caçula], ela tinha três anos. Criei os quatro que ficaram comigo sozinha, trabalhando e cuidando ao mesmo tempo", conta.
A necessidade a obrigou a uma decisão dolorosa: entregar um dos meninos para ser criado por uma tia em São Paulo. "Eu era mãe solteira e não tinha como. Sou muito grata a ela. Meu filho tem duas mães: eu e ela".
Nadir recorda os tempos em que trabalhou como cobradora de ônibus em São Paulo, enfrentando jornadas integrais que a impediam de participar de reuniões escolares ou de ver os filhos crescerem de perto.
Apesar dos esforços para que as filhas estudassem, ela lida com a frustração de uma delas não ter concluído o ensino médio. "Eu estava disposta a pagar uma faculdade se fosse o caso, mas ela não quis", lamenta, reforçando que o desejo de toda mãe trabalhadora é que os filhos não precisem carregar o mesmo peso que elas carregaram.
A maternidade também é atravessada pelo desafio do invisível, como conta Elisângela Matias.
Sua jornada é marcada pelo diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) da filha, Thalia Cândido, hoje com 11 anos. Para Elisângela, o despertar é sempre uma incerteza: o humor, o comportamento e a sensibilidade sensorial da filha ditam o ritmo da casa.
"Até a roupa incomoda, a cor incomoda. Quando ela entra em crise, é difícil controlar. Todos em casa tentam fazer com que ela se tranquilize", relata.
A seletividade alimentar e as crises de agressividade são partes duras do cotidiano, mas Elisângela, entre lágrimas, destaca o aprendizado.
"Ela me ensinou a ter paciência. Eu tenho uma filha mais velha, mas não tinha muita paciência. Quando ela veio, eu aprendi. Agora sei conversar com elas, temos papo de mãe e filha".
Para ela, o Dia das Mães agora é sobre resiliência. "Todos os dias são desafiadores, mas é uma bênção".
O fio da memória: o luto que se torna herança
Para Josinete Santos, a "Dona Jô", o Dia das Mães de 2026 traz um novo e silencioso significado.

É o primeiro ciclo completo após a morte de sua mãe, Sebastiana Lúcia, falecida em 2025. Sebastiana era figura frequente no Bloco de Comunicação da Ufal, onde Josinete mantém seu estabelecimento. Ali, o amor era servido em conversas rotineiras sobre as virtudes da vida.
A perda de uma mãe é o rompimento de um pilar. "Eu não vivo muito feliz, mas ao mesmo tempo vivo feliz porque tenho minhas filhas. Sinto falta da minha mãe, mas entendo que esse dia chegaria", desabafa Josinete.
Ela foi a cuidadora fiel de Sebastiana na terceira idade, acompanhando-a em cada consulta e respeitando até os momentos em que a mãe preferia a solidão do próprio pensamento.
Hoje, Josinete vê nas filhas a continuidade dessa força. Ela busca lecionar para as próximas gerações o que aprendeu com Lúcia: que ser mãe é ser pilar, não importa a idade do filho.
"Ser mãe é saber educar também quando o filho é adulto. Tem que estar do lado, nunca deixar, porque ele sempre vai querer o apoio. Quero ser irmã, quero ser amiga dos meus filhos", afirma.
Neste Dia das Mães, o que Josinete celebra é a memória das reuniões na casa da matriarca, onde o tempo parecia parar para o afeto. Como legado, ela não deixa joias, mas a índole.
"Quero que levem o que eu tenho: a generosidade que agrada a qualquer um onde chega. E quero viver sempre me amando".
Ser cem em uma
As vozes de Luci, Nadir, Elisângela e Josinete compõem um mosaico que as propagandas de loja insistem em ignorar. A sociedade cria um romance perigoso entre a dor do parto e o medo de errar na criação, mas oferece pouco amparo real para a dinâmica dessas mulheres que atravessam mares e rios para proteger os seus.
Para este 10 de maio, as mães de Alagoas não precisam apenas de sapatos e joias. Elas precisam de direitos garantidos, reconhecimento profissional e o entendimento de que sua jornada é a base que sustenta o estado. Ser mãe é, muitas vezes, ficar invisível aos olhos de quem não compreende a complexidade de ser "cem em uma". Elas são a força que move Alagoas, mesmo quando o mundo insiste em não olhar.
