O crescimento acelerado das cirurgias bariátricas e o uso cada vez mais frequente de medicamentos para perda de peso trouxeram à tona uma consequência ainda pouco debatida: a grande quantidade de pele excedente após o emagrecimento. Para a maioria das pessoas, essa condição passa longe de ser uma preocupação meramente estética. Trata-se de um problema de saúde real, que gera limitações de movimento, dores constantes e infecções dermatológicas recorrentes.
Os dados refletem a dimensão dessa realidade. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, cerca de nove em cada dez pacientes que passam pela redução de estômago precisarão de uma cirurgia de contorno corporal. No entanto, apenas uma pequena parcela consegue efetivamente realizar o procedimento.
O que muitos desconhecem é que existe amparo legal para que esse procedimento seja coberto pelos planos de saúde. Em uma série de decisões recentes, a Justiça tem obrigado as operadoras a custear a remoção do excesso de pele, reconhecendo que, nesses quadros, a intervenção tem caráter reparador e não cosmético.
De acordo com o advogado Jalbas Soares, especialista em Direito à Saúde e com atuação em casos de negativas de cobertura em Alagoas, a principal dúvida dos pacientes está em diferenciar uma cirurgia estética de uma cirurgia reparadora. Para ele, é justamente essa distinção que tem gerado um número crescente de disputas entre consumidores e operadoras de saúde.
"A cirurgia estética busca apenas melhorar a aparência. Já a cirurgia reparadora tem como objetivo tratar problemas decorrentes do excesso de pele, como assaduras constantes, infecções, dermatites, dificuldades de higiene, dores e limitações para atividades do dia a dia. Nesses casos, o procedimento faz parte da continuidade do tratamento da obesidade", explica.

O advogado ressalta que a forma como o paciente emagreceu não interfere no direito à cobertura. Seja por cirurgia bariátrica ou pelo uso de medicamentos para emagrecimento, o que realmente deve ser analisado é a necessidade clínica da cirurgia.
"O que define o direito do paciente não é o caminho utilizado para perder peso, mas a indicação médica e os prejuízos que o excesso de pele causa à saúde", afirma.
O drama de quem luta contra a obesidade e espera por uma intervenção pós-cirúrgica
O CadaMinuto ouviu a Flávia Almeida, que tem um caso tramitando na Justiça em busca de uma cirurgia reparadora. Ela conta como iniciou a luta contra a obesidade até o momento atual.
“Minha história com a obesidade começou ainda na adolescência, por volta dos 12 anos de idade. Nessa época, eu já pesava cerca de 70 quilos. Como muitas adolescentes, comecei a fazer dietas restritivas, sem acompanhamento adequado, tentando emagrecer. Em alguns momentos, conseguia voltar para algo em torno dos 60 quilos, mas era sempre temporário.
Aos 20 anos, tive meu primeiro filho e ganhei mais de 30 quilos durante a gestação. Depois do parto, nunca mais consegui voltar ao meu peso anterior. Passei a pesar entre 90 e 95 quilos e, a partir daí, começou uma longa jornada de tentativas para emagrecer. Procurei inúmeros nutricionistas, nutrólogos, endocrinologistas, fiz as mais diversas dietas, utilizei shakes, remédios para emagrecer, fórmulas manipuladas e tudo o que aparecia como promessa de perda de peso. Conseguia emagrecer alguns quilos, mas depois recuperava tudo novamente. Era um ciclo constante de efeito sanfona”, comenta.
Ela comenta sobre o tempo que obteve para a realização da cirurgia.
“A autorização da cirurgia ocorreu sem dificuldades. Realizei o procedimento pelo plano de saúde, no hospital do convênio e toda a equipe desse médico foram extremamente competentes e acolhedores. Também tive o suporte da minha nutricionista, que continua me acompanhando até hoje. A cirurgia foi apenas o início de uma nova etapa.
Muitas pessoas acreditam que a bariátrica resolve tudo sozinha. Não resolve. Ela é uma ferramenta extremamente importante, mas exige mudanças profundas. Exige disciplina, acompanhamento profissional e um grande trabalho emocional,” afirma.
Além da questão visual, Flávia fala como o excesso de pele afeta sua rotina no dia a dia, e a forma que enfrenta problemas como dores, infecções e limitações de movimento.
“Após a cirurgia, consegui perder 40 quilos. Alcancei minha meta de peso. Fiz a técnica bypass e tive uma excelente evolução clínica. Mas, junto com a perda de peso, surgiu um novo desafio: o excesso de pele. Quem perde 40 quilos sabe do que estou falando. O corpo muda drasticamente. O abdômen fica com excesso de pele. Os seios perdem volume e sustentação. Surgem desconfortos físicos e emocionais. A imagem que você vê no espelho nem sempre corresponde à sensação de vitória que deveria acompanhar uma conquista tão importante.
Muitas pessoas pensam que as cirurgias reparadoras são uma questão de vaidade. Não são. Elas fazem parte do tratamento. Existe desconforto físico. Existe sofrimento emocional. Existe dificuldade com a própria imagem corporal. Existe uma sensação constante de que uma etapa importante ainda não foi concluída. Depois de perder tanto peso, procurei o cirurgião plástico credenciado, para avaliação das cirurgias reparadoras. Foram indicadas a abdominoplastia e a mamoplastia, a princípio. Foi nesse momento que surgiu o problema. O plano de saúde negou os procedimentos”, argumenta.
Flávia comentou a respeito da justificativa que a operadora deu para negar a cobertura da cirurgia e como foi para ela receber essa recusa após todo o esforço do emagrecimento.
“Receber essa negativa foi extremamente frustrante. Depois de tantos anos lutando contra a obesidade, depois de tantas tentativas fracassadas, depois de toda a preparação para a bariátrica, depois da cirurgia, do acompanhamento, das mudanças de hábitos e de toda a dedicação necessária para perder peso, ouvir que não havia necessidade das reparadoras foi muito difícil.
A obesidade traz um sofrimento que quem nunca viveu talvez não consiga compreender completamente. Você deixa de escolher a roupa que quer usar e passa a usar a roupa que serve. Você evita situações sociais, se sente inadequada; sua autoestima é profundamente afetada e se desconecta da própria imagem. Existe um sofrimento silencioso que acompanha muitas pessoas obesas durante anos. Quando finalmente você consegue emagrecer, percebe que ainda existe um caminho a percorrer. Por isso, acredito que as cirurgias reparadoras não devem ser vistas como procedimentos meramente estéticos. Elas representam a continuidade de um tratamento,” diz.
Na luta pela cirurgia reparadora, Flávia conta como tem enfrentado a situação e sobre o apoio da especialista que a acompanha.
“Diante da negativa do plano de saúde, precisei recorrer à Justiça para buscar aquilo que entendo ser um direito do paciente bariátrico. Nesse processo, tenho contado com o apoio de uma excelente profissional, a Dra. Lizandra Ferro, e de toda a sua equipe. Desde o início, elas vêm atuando com muita dedicação, responsabilidade e comprometimento, buscando todos os meios legais possíveis para garantir que meu direito seja reconhecido. Faço questão de registrar minha gratidão pelo trabalho que vêm realizando.
É importante dizer que a demora do processo não acontece por falta de atuação da minha advogada. Muito pelo contrário. A Dra. Lizandra Ferro tem acompanhado o caso de forma atenta, realizando todos os encaminhamentos possíveis dentro das atribuições legais. O tempo de espera decorre do próprio andamento do sistema judicial, hoje aguardo uma decisão da Justiça,” comenta.
Flávia deixa um conselho para pessoas que estão passando pela mesma situação e pensam em aceitar a primeira negativa do plano sem buscar seus direitos.
“Se eu pudesse deixar uma mensagem para outras pessoas que enfrentam situação semelhante, diria para não desistirem diante da primeira negativa. Busquem orientação médica, psicológica e jurídica. Conheçam seus direitos. A negativa administrativa de um plano de saúde não pode ser o fim da sua história.
A minha história me ensinou que a obesidade não é falta de força de vontade. É uma doença séria, complexa e multifatorial, que merece tratamento integral. E as cirurgias reparadoras, para muitos pacientes bariátricos, fazem parte desse tratamento e da recuperação da dignidade, da autoestima, da saúde e da qualidade de vida.
Essa não é apenas a minha história, é a história de milhares de pessoas que lutam diariamente contra a obesidade, enfrentam preconceitos, superam desafios imensos para recuperar a saúde e, mesmo depois de vencer tantas batalhas, ainda precisam lutar para ter acesso à continuidade do próprio tratamento”, conclui.
*Estagiário sob supervisão da editoria
