O ritmo de Maceió costuma ser medido pela velocidade do trânsito na Avenida Fernandes Lima ou pelo piscar incessante das notificações nas telas dos smartphones. Sob a estética de um paraíso litorâneo, a capital alagoana esconde uma realidade invisível, mas ruidosa, uma epidemia de indivíduos profundamente cansados. 

Entre o isolamento em apartamentos, a pressão do ambiente de trabalho e o esmagamento das áreas verdes pelo avanço imobiliário, os transtornos de ansiedade e depressão fincaram raízes como os grandes males do século.

Diante desse cenário de saturação urbana, um movimento silencioso de contracultura tem levado dezenas de maceioenses a buscarem um remédio incomum, que não se vende em farmácias: o chão de terra e o silêncio da mata. 

O ato de caminhar em ambientes naturais deixou de ser apenas um esporte de aventura ou lazer de fim de semana para se transformar em um potente aliado terapêutico de sobrevivência mental.

A geração do cansaço crônico

Quem chega às trilhas ecológicas hoje, em Alagoas, geralmente carrega o peso de uma exaustão que ultrapassa o cansaço físico. É o esgotamento da mente. 

A psicanalista Maria Cavalcante, observa de perto o perfil desse adoecimento moderno no cotidiano da capital.

"Vejo pessoas profundamente cansadas. Muitas chegam após longos períodos de estresse crônico, sobrecarga profissional, excesso de responsabilidades e dificuldade em estabelecer limites", explica a especialista.

Drª Maria Cavalcante e seu esposo Mário coordenam o grupo MCZ Trilhas. Crédito: Railton T. da Silva/CadaMinuto

 

Esse diagnóstico social se reflete em sintomas que combinam ansiedade generalizada e quadros depressivos, potencializados por um isolamento contraditório. 

"É comum encontrar pacientes com um sentimento crescente de isolamento, mesmo estando conectados digitalmente o tempo todo", pontua a especialista que também organiza um movimento de trilha chamado MCZ Trilhas.

A trilha, nesse sentido, surge como um espaço de desaceleração e resgate de experiências simples que a rotina moderna frequentemente elimina.

O déficit de natureza em Maceió

A relação entre o desenho das cidades e a saúde mental tem sido amplamente debatida pela ciência. 

Embora o chamado "Transtorno de Déficit de Natureza" não configure um diagnóstico médico oficial em cartório, ele serve para descrever as consequências biológicas e psicológicas do distanciamento humano dos ecossistemas originais.

Viver cercado por ruídos, trânsito lento, poluição e cimento funciona como um vetor contínuo de estresse. 

O paradoxo maceioense reside no fato de habitarmos uma cidade com um patrimônio natural privilegiado, mas cujo cotidiano aprisiona a população em ilhas de concreto.

"Quanto mais distante estamos dos ambientes naturais, maior tende a ser nossa exposição ao estresse contínuo", alerta a psicanalista. 

Para ela, aproximar a população de espaços verdes preservados na capital e na Região Metropolitana não é apenas uma opção de lazer, mas "uma importante estratégia de promoção da saúde mental e prevenção do adoecimento."

O "aterramento": o corpo que recupera o presente

Um dos relatos mais frequentes de quem enfrenta crises de pânico ou episódios agudos de depressão é a sensação de desconexão com o próprio corpo, uma flutuação dolorosa onde a mente rumina o passado ou antecipa o futuro de forma obsessiva. 

A caminhada na natureza atua diretamente nessa fissura, promovendo um processo de "aterramento".

Fisiologicamente, o esforço do passo na terra, a regulação da respiração e a melhoria da circulação ativam uma cascata de neurotransmissores ligados ao bem-estar, como endorfinas, serotonina e dopamina. 

Há uma redução real na ativação dos sistemas ligados ao estresse, derrubando os níveis de cortisol no organismo.

No entanto, o impacto mais profundo do caminhar reside na atenção que o terreno exige do indivíduo. Desviar de uma raiz, equilibrar-se no chão irregular, ouvir o som das folhas e sentir a umidade do ar forçam uma presença absoluta.

"Do ponto de vista psicológico, caminhar exige atenção ao terreno, à respiração e aos estímulos do ambiente, ajudando a pessoa a sair do ciclo de pensamentos repetitivos e a recuperar a percepção do próprio corpo e do momento presente", detalha a psicanalista.

Para além da farmácia

Em uma era hiperfarmacalizada, onde o primeiro recurso contra a dor psíquica costuma ser a pílula, a discussão proposta pela ecoterapia urbana não caminha para a negação da ciência, mas para a ampliação do conceito de cura. 

A farmacologia, conforme defende Maria, representa um avanço indispensável e continua salvando vidas, mas o erro moderno reside em acreditar que a saúde mental se resume à ausência de sintomas.

Os remédios conseguem regular as alterações biológicas do cérebro, mas são incapazes de preencher o vazio existencial da falta de propósito ou curar a solidão das redes sociais. 

É no bando, na comunidade que se apoia durante o percurso de uma trilha, que o indivíduo reencontra o sentido de comunidade.

"Os remédios tratam alterações biológicas importantes, mas eles não oferecem experiências de pertencimento, contemplação, movimento, conexão social ou contato com a natureza", argumenta a especialista. 

O silêncio da mata limpa o excesso de estímulos da cidade, abrindo margem para que a mente reorganize os pensamentos.

A grande virada de chave para enfrentar os males do século, portanto, não está em substituir o consultório pela floresta, mas em compreender que um não sobrevive sem o outro. 

Como sintetiza a psicanalista, a saúde mental é uma colcha de retalhos complexa, construída diariamente: "Ela é feita pela integração entre tratamento médico, psicoterapia, atividade física, vínculos afetivos, sono adequado e contato frequente com ambientes naturais. O consultório é essencial, mas ele não substitui a vida."

Foto de capa: Railton T. da Silva/CadaMinuto