O Estado só conhece uma lei: "Para cada ação uma reação...

Socializo texto extremamente coerente do Marcos Romão, brasileiro que mora lá para as bandas da Alemanha, para reflexão.


O Brasil, Dilma e Cabral precisam de bombeiros.

Marcos Romão


A presidente Dilma ainda em campanha em Hamburgo 2009.
Conversei em Hamburgo semana passada, com um amigo ativista como eu, do movimento negro há mais de 40 anos. Sua filha de 23 anos, mãe de uma criança de 5 anos, foi executada com um tiro na cabeça em Salvador.
Aconteceu em plena luz do dia, 11 horas da manhã, 3 homens foram buscá-la em casa. Saíram sorridentes, disse uma testemunha.
O carro féretro percorreu 300 metros e parou em um terreno baldio, disse uma segunda testemunha, que reparou apenas que conversavam amigavelmente e seguiu adiante. Minutos depois viu o carro passar com apenas três ocupantes. Desconfiado foi até o terreno e encontrou a menina já morta com uma bala na cabeça.
As informações é de que ela andava com más companhias, traficantes talvez. Assunto encerrado para as autoridades.
Seu pai estivera um mês antes no Brasil, comprara um passagem para que ela viesse para a Europa. Pressentia o pior para sua filha.
Andou em más companhias, fez isto, fez aquilo é o que cada pai e cada mãe, de cada um dos 50 mil adolescentes e quase adultos mortos violentamente no Brasil, ouvem das autoridades.
O que era o chicote corretivo antes do Brasil correto é hoje bala de super trezoitão no Brasil democrático. O tratamento social de nossos jovens mudou de ruim para pior. Para todos os problemas a resposta é bala. O Estado só conhece uma lei: "Para cada ação uma reação e grito de passarinho se cala com tiro de canhão".
O pai da menina ainda não chorou. Ouvi pessoalmente relatos de vítimas do holocausto, que o absurdo da situação de extermínio era tão grande, que as lágrimas não estavam preparadas para responder com o choro.
Sei que ele talvez leve muito tempo para reaprender a chorar, para chorar a morte estúpida de sua filha. Eu chorei por ele.
Aprendi a chorar depois de velho, o choro indignado com a ignomínia e injustiça. Que bom poder me sentir vivo e não anestesiado pelo terror das milícias e corrupção generalizada, que nos atinge enquanto brasileiros a 12 mil Km de distância, como se eu estivesse andando em uma rua de Salvador.
Os conselheiros da presidente e dos governadores e autoridades de meu país precisam reaprender a chorar. Chorando talvez aconselhem melhor e parem com as truculências e as balas, e dêem exemplo aos nossos jovens, que é possível comportar-se de outra forma que não seja através da violência.
Em um ato talvez mal aconselhado o governador do Rio de janeiro reprimiu brutalmente os bombeiros de meu estado natal. Infelizmente ele não está sozinho em sua ação. Representou apenas os desmandos coronelistas que persistem e voltam a crescer em nossas cidades e no campo.
Precisamos de bombeiros em todas as instâncias de nosso país. Das escolas a alta magistratura, dos lares aos quartéis. Gente que converse e salve e que não mate.
A filha do meu amigo, meus filhos, os filhos e filhas de cada um vão nos cobrar um dia a nossa ignorância. Vão cobrar a nossa falta de sensibilidade para conversamos e darmos um basta na violação do mais intimo de nossas vidas, que é a nossa dignidade de ser humano. Ainda é tempo. Não é mais momento para trocarmos acusações, é momento para agirmos.
Marcos Romão
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Cadê minha liberdade ?

Socializando...

“A resposta da Nega Fulô”

                         Beto Brito,


Sinhô! Sinhô
Era a fala da negá
Cadê a minha liberdade
A cama que nunca tive
Cadê minha virgindade
E os locais que nunca estive?
Cadê minha autoridade
Ah! Foi você quem roubou!
Ah! Foi você quem roubou!
Esse Sinhô!
Esse Sinhô!
Sinhô! Sinhô!
Devolva minha alegria,
Sinhô!
Nas correntes e no chicote
Foi lá que ficou
Em rubro sangue e lágrimas
E no suor do Sinhô!
Esse Sinhô!
Esse Sinhô!
Ó Sinhô! Ó Sinhô!
(era a fala da negá amaldiçoando o Sinhô)
Pra que Deus te mandou?
Pra que Deus te mandou?!
 

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E assim falou FHC: Eu sou a favor da descriminalização de todas as drogas.

Lembrei dos meninos faz pouco. Foram meus alunos e afogados no pântano das drogas morreram na infância dos sonhos.
Eram meninos pobres da periferia e portavam no sorriso aberto a singeleza da felicidade gratuita: correr na praça, jogar bola, paquerar meninas.
Eram meninos com barba ainda por nascer. Rostos imberbes.
Viviam decorando a cartilha das descobertas. Ainda me lembro deles, mesmo fazendo tanto tempo. Fui sua professora.
Eram inocentes na sanha das descobertas e um dia descobriram o fruto proibido. Não era a maçã de Adão e Eva. Foi a tal da erva maldita, a “inofensiva” maconha.
Não era nada. Não era nada mais enviesou o caminho dos meninos para terrenos baldios, sem perspectivas.
Os meninos partiram cedo, pois avançaram na descoberta do proibido. Era apenas um cigarrinho que se tornou uma bomba relógio. E os meninos morreram.
No bairro da periferia de Maceió, com uma incidência alarmante de mortalidade, outros meninos e meninas seguiram o mesmo caminho. Partiram...
Segundo a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármem Lúcia que votou a favor da liberação da marcha da maconha "a democracia é generosa exatamente porque há liberdade de pensamentos.”
Os meninos não tiveram chance de descobrir a generosidade da democracia brasileira.
A sensação de liberdade os matou.
 

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O que é Injúria Racial x Racismo.

Socializando informações importantes...


A questão mais debatida no meio jurídico é a distinção entre injúria racial e racismo, onde uma começa e a outra termina. A questão é mais simples do que se pensa.
Há a injúria racial quando as ofensas de conteúdo discriminatório são empregadas a pessoa ou pessoas determinadas. Ex.: negro fedorento, judeu safado, baiano vagabundo, alemão azedo, etc.
O crime de Racismo constante do artigo 20 da Lei nº 7.716/89 somente será aplicado quando as ofensas não tenham uma pessoa ou pessoas determinadas, e sim venham a menosprezar determinada raça, cor, etnia, religião ou origem, agredindo um número indeterminado de pessoas. Ex.: negar emprego a judeus numa determinada empresa, impedir acesso de índios a determinado estabelecimento, impedir entrada de negros em um shopping, etc.
Entre as peculiaridades de cada crime encontram-se as seguintes diferenças:
o crime de racismo possui penas superiores às do crime de injúria racial;
o crime de racismo é imprescritível e inafiançável, enquanto que o de injúria racial o réu pode responder em liberdade, desde que paga a fiança, e tem sua prescrição determinada pelo art. 109, IV do CP em oito anos;
o crime de racismo, em geral, sempre impede o exercício de determinado direito, sendo que na injúria racial há uma ofensa a pessoa determinada;
o crime de racismo é de ação pública incondicionada, sendo que a injúria racial é de ação penal privada;
enquanto que no crime de racismo há a lesão do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, no crime de injúria há a lesão da honra subjetiva da vítima.
Fato  Interessante:
Na noite de 13 de abril de 2005, durante espetáculo futebolístico televisionado, ocorreu ilícito penal testemunhado por milhares de espectadores.
Segundo foi possível notar, um dos jogadores de futebol, de nacionalidade argentina, dirigiu-se a outro, de nacionalidade brasileira; adversário no certame, chamando-o de “negro”. Conforme declarações prestadas à imprensa televisiva logo após os fatos, por um dos advogados do clube de futebol a que pertence o ofendido, este teria informado à autoridade policial solicitada, em depoimento formal, que fora chamado de: “negro” e “negro de merda”.
Foi o suficiente para a exploração televisiva, em parte justificável pela conduta do ofensor, de outro condenável pela forma e conteúdo das matérias veiculadas sem qualquer preocupação técnica.
Para a legislação penal brasileira, conforme consagrado na jurisprudência e na doutrina a conduta de dirigir-se a outrem o chamando de “negro”, ou mesmo “negro de merda” como na hipótese aventada, não restará configurado o crime de racismo.
Necessidade de Cautela na Divulgação dos Fatos. 

Com efeito, ao noticiar o ocorrido e apresentar posição jurídica a respeito, cria-se expectativa de medidas policiais e judiciais que logo se verificarão incabíveis à espécie, e então não faltarão críticas injustificadas e maldosas à Polícia, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário.
A população destinatária da notícia não compreenderá o descompasso entre o que foi veiculado e as conseqüências jurídicas efetivamente constatadas, e no mais das vezes a mesma imprensa não cuidará de esclarecer os incautos, deixando sempre a névoa sobre fatos que nem comportavam tanta dificuldade de compreensão.
O episódio verificado durante a partida de futebol foi lamentável, deplorável, e está por merecer justa reprovação penal.
Ao que se pode verificar ocorreu, em tese, crime de injúria racial (artigo 140, § 3º, do CP) e não crime de racismo regulado na Lei 7.716/97.
Por outro vértice, não menos lamentável e deplorável foi o sensacionalismo distorcido a que se prestou parte da imprensa em relação ao episódio; e quanto a esta conduta a certeza absoluta é a de que nenhuma punição virá.
Contudo, concluí-se que se referindo a uma outra pessoa com dizeres do tipo "negro", "negro de merda", "macaco", "tsão", não estará cometendo o crime de racismo como muitos pensam, e sim uma injúria racial,capitulada no artigo 140, § 3º, do CP.


RODRIGO DE SOUZA COSTA
Guarda Municipal/Varginha- Bacharel/Direito
Fontes de pesquisa:

GILBRAN - WWW.REVISTAPROLEGE.COM.BR
 

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Carlos Moore, Patrícia Mourão e o pato no tucupi, no Rio.

Quando de sua vinda a Alagoas, em 13 de maio e após ter conhecido o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, Carlos Moore saiu de Alagoas determinado a conhecer Patrícia Mourão.
Um mês após, o encontro se deu no Rio de Janeiro. Patrícia Mourão e Carlos Moore são amig@s muitíssimos dilet@s. Desses que  a gente guarda no lado esquerdo do peito.

 

 

Minha querida amiga Arísia Barros,

Hoje, como em alguns outros dias no passado, você esteve intensamente presente num encontro emocionante.
Uma amiga paraense tinha combinado de fazer um pato no tucupi aqui em casa neste domingo. Quando o Carlos Moore me ligou pra me convidar pro lançamento do livro"Fela. Esta Vida Puta" e pra uma festa no Teatro Rival, na Cinelândia. Como já tinha compromisso em ambos os casos não poderia ir (ainda consegui passar na livraria pra comprar o livro que ele autografou hoje, um domingo, 12 de junho) .
 Assim, convidei-o pra vir comer o pato aqui em casa, com a mulher e a filha. Convidei também a Schuma Shumaher. Tivemos um encontro maravilhoso. A Schuma deu o livro dela pra ele – que adorou. Trocaram mil e uma figurinhas e se curtiram muito. Eu adorei a mulher,Ayeola Moore e a filha de Carlos.
E ele...Bem...Entendo o seu encantamento! Ele é tudo de bom, neste e no outro mundo! Me emocionei – até chorei (momento registrado pela minha amiga paraense Alegria) quando falamos do Parque Memorial Quilombo dos Palmares e de tudo que ele significa e significou pra mim. Que coisa louca, inexplicável, intensa!!!!!
Obrigada, mais uma vez e sempre, por fazer parte da minha vida dessa forma tão especial e transformadora.
Um beijo da sua, sempre,
Patricia
 

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Estava na cara que eram felizes.

Caminhavam pela calçada de mãos dadas. Uma mão como equilíbrio da outra. Ela um pouco mais desgastada pelo tempo e as incertezas da vida. As idades variando entre 65 e 70 anos. A mulher andava um tanto trêmula, mas a mão do companheiro era seu sustento. As vestes diziam da falta de riqueza material, entretanto as duas mãos agarrando a vida falavam de outra riqueza.
Riqueza como sentimento imorredouro, afetividade, troca, companheirismo.
Apesar da simplicidade traziam no semblante e nas mãos, que não desgarravam o flerte com a cumplicidade do eterno. Do para sempre!
Caminhavam juntos e no mesmo passo, como imagem inquebrantável que vale bem mais do que mil palavras.
As mãos presas na alma um do outro sussurravam as juras de que entre eles, a solidão virara do avesso.
Talvez tivesse filhos, netos conjecturava, eu olhando a passagem dos anos nos passos daquele casal, que de mãos dadas, se protegiam dos perigos do mundo. Respiravam a serenidade de quem já tinha  vivido todas as situações limites.
Era singular apreciar o senhor e sua companheira andando de mãos dadas, em um bairro de periferia da grande Maceió, cercada da indisfarçável indiferença humana. Como um quadro na parede da memória.
Apesar da fragilidade de ambos e do passo miúdo eles simplesmente avançavam,atravessando ruas movimentadas e os barulhos do mundo todo.
Era o retrato da dimensão do amor como legado maior da vida do casal.
Estava na cara que eram felizes.
É  isso que interessa!

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Jornalista estréia espaço sobre cultura e movimento negro na tevê gaúcha.

Conhecemos o jornalista Oscar  Henrique, quando de sua primeira visita à  Palmares. Oscar subiu a Serra da Barriga, como então-assessor de comunicação da Fundação Palmares e   saiu encantado com o Parque e todas energias ancestrais. Socializando a  notícia, pois é uma grande vitória, para Oscar e o jornalismo étnico  romper as cortinas hegemônicas de um estado dito branco e pelas  possibilidades de uma nova interpretação que isso oferece. Parabéns Oscar!

Jornalista estréia espaço sobre cultura e movimento negro na tevê gaúcha.

Porto Alegre, 11/6/2011 - Conhecido por sua atuação a frente de projetos em Comunicação Social direcionados à cultura e a história afro-brasileira, em especial durante sua passagem pela gerência de Comunicação Social da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura, o jornalista e escritor Oscar Henrique Marques Cardoso estréia o Espaço "Kizomba" na televisão gaúcha. Com a proposta de produzir e apresentar reportagens acerca da presença e da participação do negro na formação da sociedade gaúcha, Oscar Henrique integra a equipe do Programa Diversidade, que vai ao ar todos os dias na ULBRA TV, canal 48 UHF, NET e Parabólica, emissora da Universidade Luterana do Brasil, sediada em Porto Alegre, RS. O espaço KIZOMBA, com Oscar Henrique Cardoso vai ao ar todas as quintas-feiras, durante a apresentação do programa, de segunda à sexta-feira, das 16h30min às 17h30min.

Na primeira reportagem, a qual marcou a estréia do quadro, na última quinta-feira, 9 de junho, Oscar Henrique e o cinegrafista Paulo Lyrio fizeram um passeio de ônibus.
 O veículo é utilizado para a realização do Projeto Territórios Negros, coordenado pela Companhia Carris Portoalegrense, em parceria com a Secretaria Municipal da Educação de Porto Alegre, Gabinete de Políticas do Povo Negro da Prefeitura de Porto Alegre, Empresa de Processamento de Dados de Porto Alegre (Procempa).
 A Companhia Carris Porto Alegrense é a empresa municipal de transporte público da capital gaúcha, a qual tem um núcleo de promoção da Igualdade Racial em sua estrutura. O jornalista acompanhou a visita dos alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Victor Isler a pontos da cidade que abrigaram a histórica presença da população negra, como a antiga Colônia Africana, hoje bairro Rio Branco, o antigo Campo da Redenção, hoje Parque Farroupilha, bairro da Ilhota, hoje Cidade Baixa e também visitou a Comunidade Quilombola Urbana Areal da Baronesa, na Cidade Baixa. Comunidade quilombola que aguarda a titulação de sua área, a ser entregue até o final do ano pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, segundo prevê a liderança comunitária.
Assista:

Atração:Espaço Kizomba
Veiculação: semanal, todas as quintas-feiras, sempre a partir das 16h30min
Programa:Diversidade
Emissora: ULBRA TV, canal 48 UHF, 21 NET e Parabólica. Porto Alegre, RS
Envie sua sugestão de pauta: para o mail do apresentador pelo oskarhcardoso@gmail.com
 

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Tributo para Abdias na Serra da Barriga, em Alagoas.

Abdias do Nascimento foi o maior líder negro do século XX e como tal merece reverências e honras de estado.
Abdias morreu aos 97 anos e redesenhou nos caminhos de tantos e muitos a trilha do auto- reconhecimento e da mudança de paradigma; o povo negro como agente político de sua história.
 Liberdade!
 Segundo o jornalista Bruce Weber New York Times, o mais importante jornal norte-americano: Abdias Nascimento não teve medo de falar para as pessoas que a democracia racial era um mito. E disse isso por 60 anos”, afirma Telles, acrescentando que Abdias se tornou uma lenda. O Senado do Estado do Texas, na sessão realizada no dia 27 de maio passado, aprovou a Resolução n.º 1220 em memória de Abdias, em que lembra as honrarias e prêmios recebidos pelo líder negro nos EUA, onde esteve exilado durante a ditadura militar brasileira. A revista do Instituto de Educação e Pesquisa Martin Luther King Jr, da prestigiada Universidade de Stanford, EUA, noticia na sua edição online (http://mlk-kpp01.stanford.edu/index.php) de 1º de junho a morte de Abdias do Nascimento."Não houve brasileiro mais importante que Nascimento desde a abolição da escravidão em 1888. Para os americanos o compreenderem e a sua contribuição, você teria que dizer que ele foi um pouco de Marcus Garvey, um pouco de W.E.B. DuBois, um pouco de Langston Hughes e um pouco de Adam Clayton Powel", diz Ollie A. Johnson, professora de Estudos Africanos da Universidade do Estado de Wayne.

 Em África o principal diário angolano, o matutino estatal Jornal de Angola, noticiou a morte de Abdias, destacando a sua vida como dramaturgo e político.
 E na pequena Africa chamada Alagoas segmentos sociais reunidos, dentre eles o Projeto Raízes de Áfricas, reafirmando a extraordinária importância do professor, político, artista, articulador, visionário, e, acima de tudo, ativista pela liberdade incondicional do povo negro promoverá, em 07 de julho, “Dia Nacional de Luta contra o Racismo”, a celebração de Ato interreligioso no alto da Serra da Barriga, em Palmares, como tributo especial a Abdias Nascimento.
A cerimônia contará com a presença de Elisa Larkin Nascimento, esposa de Abdias Nascimento e coordenadora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros-IPEAFRO/Rio de Janeiro, o professor doutor Roberto Borges,da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e de Hilton Cobra, coordenador do Fórum Nacional de Performance Negra, que terão reunião preparatória com os segmentos locais para a organização do translado das cinzas de Abdias, para Serra da Barriga, no mês de novembro.
Segundo o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva: “Abdias Nascimento foi um lutador brilhante e incansável contra o racismo e por um Brasil melhor. Militante político, jornalista, professor, intelectual e artista, sua coragem e inteligência na defesa dos direitos e da auto-estima dos afro-brasileiros são um exemplo e motivo de orgulho para todos nós”.
Era o desejo de Abdias Nascimento,guerreiro contemporâneo do povo brasileiro, ser cremado e que as cinzas fossem levadas para a Serra da Barriga, em Alagoas, local do maior centro da resistência negra no Brasil, o Quilombo dos Palmares.
“Asé” ou assim seja!
 

Com informações dos correspondentes internacionais de Afropress em Nova York, nos EUA, e em Londres, no Reino Unido, respectivamente, Edson Cadette e Alberto Castro

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História que alguém me contou

Recebi da  minha homônima Arísia Barros residente em São Paulo, socializo:"Querida xará ArísiaLi essa prosa na Folha de S. Paulo, não sei se você já leu. Achei o texto muito bonito e estou lhe enviando.Beijos. Arí"

História que alguém me contou.

Uma negra bêbada tropeçou para dentro do metrô. Testou seus superpoderes, tentando se equilibrar com o vagão em movimento. Parecia surfar no ar já contaminado de seu bafo. Desafiava-nos com sua ousadia alcoólatra.
Todos. Tenho certeza de que todos torciam por sua queda. Ela resistia e ria, zombando de nossas caras. Parecia-nos impossível para uma mulher tão alcoolizada manter-se de pé. Era uma questão de honra: tinha que cair. Iniciamos uma vibração silenciosa. Gargalhava. Uma voz antipática e sonolenta anunciou a próxima estação.
A negra vitoriosa sentou-se. Conseguiu completar o percurso de uma estação a outra sem ameaçar uma queda. Esnobou. Nem nos olhou na cara. Mas começou a falar. Alto. Amplificada. Não abria os olhos e soava por todo o vagão. Decidiu nos comunicar tudo que pensava do mundo. Suas opiniões, estado d'alma, mal-estar físico, seu iminente vômito, os litros de cerveja, as marcas de cerveja, os rótulos das cervejas. A negra tagarelava e se calou apenas quando vomitou. Estabeleceu assim uma trincheira. Migramos todos para o outro canto do vagão, deixando-a só.
Uma poça fétida. Um minuto sem a sua voz. O que parecia uma dádiva. Hospedou-se, por fim, na última cadeira. Tudo levava a crer que iria dormir. Braços cruzados, pernas esticadas, olhos fechados, cabeça inclinada. Aguardávamos o ronco. Esticávamos mesmo o ouvido para checar se dormia ou não. Uma velhinha deu dois passos para ver de perto, tapando o nariz.
"Eu não dormi." Renasceu sonora e expulsou a velhinha de volta a sua cadeira. "Sabia que minha mãe era negra, e mãe dela, e a mãe da mãe dela?" Só então percebi suas tranças afro. Pareceu-me bonita. Duas oitavas abaixo cantou alguma coisa em iorubá. Disse que não sabia a tradução. Disse que sua alma se perdia nas notas da canção. Como um disco em rotação alterada, iniciou uma narrativa.
Tínhamos a impressão de que não conseguiria completar a frase seguinte. Mas partiu confiante e mágica, como os bons contadores de histórias.
Era uma vez a África.
Negros que corriam protegidos pelo sol. Amavam-se como negros e uns aos outros. Numa cidade do Atlântico, seus antepassados se casaram. Homem e mulher de grande beleza. Bentos pelos orixás, tementes a cada movimento da natureza. Da folha frágil que voava ao solo ao mais furioso trovão.
Foram colhidos na noite de suas alegrias pelos homens sem cor. Isentos de sol. Os que descobriram que negro vale dinheiro. Ceifaram metade da aldeia. A mulher, negra parideira, queria levá-la. Acorrentaram-na à noite. Na madrugada, transportariam fêmeas que gestariam dividendos para seu capital. Astuto, o homem invadiu o cativeiro. Libertou-a, mandando-a para a floresta. Vestiu seus panos. Envolveu-se no disfarce. Foi em seu lugar. Sua mãe amarrou-a à África numa árvore espessa. Cimentou-lhe os pés com cordas.
Impediu que se atirasse no barco para ir junto. Ele viajou envolto em seu cheiro.
Negros e negros eram semeados ao mar. Doentes, fétidos, raquíticos, loucos. Alguns choravam tanto que eles os jogavam às águas. Não aguentavam a insânia de suas dores. Mulheres deram cria no meio do esterco e dos cadáveres. Ele não largou seus panos. Desceu neste país e guardou sua alegria para o dia em que conseguisse voltar. Não sorriu desde então. Esperou pela alforria. Sobreviveu a anos sob um outro sol e chibata. Sem sorrir.
Liberto pela nova lei, queria voltar. Ofereceu seus préstimos para trabalhar num navio. Limparia, lavaria, cozinharia, remaria. De pouco valem os braços de um velho cansado. Navios e navios partiam, e nenhum o aceitava. Clandestino, atirou-se a uma embarcação.
Ocultou-se no porão, comendo restos de lixo, enfrentou o Atlântico para poder voltar a sorrir. Seus dentes nem estavam mais lá. Mas ele sorria ao sentir na brisa um cheiro de África. O canto dos pássaros, o céu, a cor da água, o sol. Quando, ao longe, já se via terra, atirou-se ao mar. Tinha pressa. Desembarcou junto com o dia na praia. Andou o litoral até chegar a sua aldeia. Estava mudada, mais vazia, alguns pescadores, alguns homens sem cor. Nenhum conhecido a princípio.
A saudade baixou como um raio de tempestade: poderia tirar a vida de um incauto. Perguntou por sua mulher, por sua família, por seus amigos. Muitos foram levados para o outro lado do oceano. Mas a mãe sobrevivera. Encravada numa cama no núcleo da África. Num berço da selva, ungida pelos orixás, cantava seus filhos perdidos e pedia para não sofrer mais. Estava fraca do coração. Ele não sabia o que fazer. E se ela morresse ao vê-lo? Mas foi ela quem veio até ele. Pressentiu sua chegada. Arrumou-se contra a velhice. Abraçou-o como uma raiz envolve a terra. Elogiou sua força. Ele perguntou por sua mulher. A mãe calou num suspiro, por onde vazou sua alegria.
"Ela fugiu para te encontrar. Entregou-se aos piratas. Foi na tua direção e morreu no mar. Iemanjá me confirmou. Iemanjá nanou essa filha. Desceu com ela para o fundo do mar para fazer um carinho. Conduziu com um cafuné até o outro lado."
Foi até este ponto que ela conseguiu chegar. Agora, o ronco estrondoso enterrava-a no sono. Minha estação se anunciava na voz antipática do metrô. A negra dormia. Eu não poderia agradecê-la. Eu deveria? Por quê? A velhinha recolheu as lágrimas no rosto. O homem desapareceu para dentro do seu casaco. Eu queria acordá-la para ouvir mais ou para me redimir do meu comportamento anterior.
Mas havia algo extremamente justo naquele sono. Como um troféu. Como um repouso. Como uma vitória. De alguém que tem que cruzar um Atlântico todos os dias para aguar seus mortos e entender quem é.
Desci. Em algum lugar do outro lado do mar.
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0506201109.htm

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Governador, a construção do acesso a Serra da Barriga não pode mais esperar.

A Serra da Barriga plantada em União dos Palmares  reverenciada como palco maior da resistência negra está sendo expurgada.
A má conservação da estrada impede o acesso do povo a uma parte significante da história do Brasil e traz prejuízos ao turismo étnico.
A Serra da Barriga abrigou a República de Palmares, primeiro território sócio-políticodas terras de Cabral .
Como metástase institucional as crateras que se formam no caminho que levam a Serra
interpretam a leitura pública do descaso com a história do povo de pele preta e parda.
Na Serra estão contidos elementos simbólicos da nossa cartografia ancestral, portanto é um valor que não pode deveria ser negligenciado, mas é.
Segundo matéria das jornalistas Thayanne Magalhães e Fran Ribeiro ( Primeira Edição,02/05):” A Presidenta Dilma Rousseff, assinou no dia 29 de abril, decreto que prorrogou os prazos para que os projetos de 2009 sejam concluídos no prazo máximo de 30 de junho. Caso isso não ocorra, as cidades perderão a concessão, como aconteceu com as emendas de 2007 e 2008, em que as obras não haviam sido iniciadas. A suspensão dos recursos e a prorrogação do prazo da emenda de 2009 foram publicadas no Diário Oficial da União.
E ainda segundo representação do Departamento de Estradas e Rodagens será quase impossível atender as demandas de construção dos caminhos que levam a Serra, até o dia 30 de junho.
A construção do acesso a Serra da Barriga, governador, não pode mais esperar.
Alagoas que é quase pobre de marré-marré-deci não pode se dá ao luxo de devolver recursos federais. Somos campeões, também, nessa modalidade numa cúmplice e silenciosa anuência de tantos e muitos.
É preciso fazer alguma coisa, Excelência. Sair do lugar de conforto e cavar soluções.
É preciso estabelecer metas e otimizar prazos junto à Caixa Econômica, DER, Governo estadual e Ministério da Cultura.
O governo do estado de Alagoas precisa tomar para si a responsabilidade do exercício do poder político, sem subjugar a inteligência social.
Os caminhos que levam a Serra da Barriga são repletos de significados. Uma mistura de memória e muitas histórias serve como mediação do olhar dos espectadores para os fatos.
A Serra da Barriga recusa a insuficiência de ações plantadas ao seu redor. É preciso novamente fazer ecoar o grito que um dia gritou Zumbi: Liberdade!
E os artifícios mascaradamente ideológicos vão usurpando territórios e persistem como resquícios do androcentismo do estado brasileiro.
A estrada da Serra da Barriga continuará descalça, Governador?
 

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