Uma das delinquências mais repulsivas no mundo da política é a exploração da fé e da religião. Quando vejo um candidato a qualquer posto apelar para “a vontade de Deus”, ao explicar suas “qualidades” para merecer o voto popular, já sei que estou diante de um picareta. Para começo de conversa, seria preciso explicar de qual divindade o vagabundo está falando. Aquela do cristianismo? Do Candomblé? Ou talvez do Budismo?

Há também os deuses e as deusas dos ventos, dos oceanos, da chuva, da guerra, da gandaia, e vai por aí. Sim, deve-se respeitar a crença de todos e de cada um. Os templos e as escrituras das mais variadas correntes religiosas estão à disposição de quem quiser praticar sua devoção. Tudo isso fica muito melhor quando longe do ambiente político.

Mas os meliantes profissionais no jogo do poder, é claro, fazem o contrário. Não perdem uma chance de emplacar proselitismo hipócrita, como se fossem mensageiros do Altíssimo e do além. Agora mesmo, nos Estados Unidos, o miliciano Flávio Bolsonaro recorre a esse método para enganar devotos, otários e desavisados. Difícil.

Em discurso na tal conferência conservadora americana, o covardão foragido veio com esta malandragem: “Minha candidatura é um projeto divino não apenas para mim, mas para todo o Brasil”. Sobre a surra que levou do presidente Lula nas urnas: “A porta que Ele abre, ninguém fecha; e a porta que Ele fecha, ninguém abre”.

Flávio Bolsonaro falou como se fosse um pastor, desses que ficam milionários por meio de orações: “Mesmo quando o que parece ser o final não é aquilo que nós esperávamos, nós temos que agradecer a Deus e ter ainda mais fé de que ainda não foi o fim”. É perturbador que tanta gente veja algo de verdadeiro num farsante como esse.

No Brasil, o contrabando da crença religiosa para a baixa política sempre esteve na praça. Está aí a Bancada da Bala de muitas décadas. Aliás, o nome deveria mudar para Bancada das Milícias. A ascensão do bolsonarismo e da ultradireita abriu as comportas e destampou os bueiros para esse chorume correr solto. O resultado é infernal.

Governador eleito de Alagoas, João Henrique Caldas transita por essas vielas insalubres. No discurso eleitoreiro, tudo o que ele faz na política é “no tempo de Deus”. E, claro, “Deus tem um propósito” para JHC, como ele também gosta de repetir.

Será que uma única divindade dá conta de tantos homens públicos na sua cola? Essa encenação toda é de provocar asco, apenas isso. A defesa do Estado laico é o que interessa nas esferas do poder. O resto é prosa vigarista. Deus nada tem a ver com isso.