Um dos capítulos que mais chama atenção na trama do Master é o envolvimento de jornalistas e meios de comunicação. Não é mais segredo pra ninguém que o banco de Daniel Vorcaro financiou profissionais e veículos da boa e velha imprensa. O banqueiro foi plural e democrático na hora de liberar uma grana para o Quarto Poder. Do Grupo Globo ao DCM, de Léo Dias a Reinaldo Azevedo, meio mundo foi contemplado.
Falando assim, de modo genérico, parece que todos foram comprados, que todos se corromperam para ajudar no projeto Master, em troca de uma boa propina. Não é verdade. Pelos fatos conhecidos, não se pode tratar como crime uma relação de patrocínio e publicidade. É o que houve em várias ocasiões, com nomes e marcas.
Além disso, em boa parte dos episódios, quando empresas ou personalidades fecharam contrato, não havia notícia nenhuma sobre qualquer tipo de problema com o banco. Não se pode responder hoje por um crime que talvez seja cometido amanhã.
Esse é o argumento central de jornalistas e influenciadores que foram financiados pelo Master durante algum tempo. Também é o que alegam veículos que realizaram eventos – até internacionais – com patrocínio de Vorcaro. Ele não era acusado de nada.
Três exemplos que se encaixam nessa linha de defesa: os jornais Valor Econômico, a Folha e o Estadão. Vale o mesmo para o já citado Grupo Globo. Entre pessoas físicas, estão nessa o também citado Azevedo, Gabriela Prioli e Guilherme Amado.
Não sei se alguém aí teria mesmo atuado para fazer um serviço sujo em favor do banqueiro, com uma bela remuneração. Mas não há uma prova definitiva que aponte um delito combinado com Vorcaro. Se isso ocorreu, as investigações deveriam esclarecer tudo, preto no branco. Mas suspeito que não chegaremos a esse esclarecimento.
Na leva de mensagens que enrola a imprensa com o Master, a figura do diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, surge perigosamente num café da manhã um tanto mal explicado. Mas além do exotismo aparente, nada compromete o jornalista e o jornal.
Situação muito mais sombria é a do portal Metrópoles. Além da fortuna de 27 milhões de reais recebidos do Master, o veículo submeteu o conteúdo de seu jornalismo ao crivo do banqueiro. As menagens com a CEO da empresa, Lilian Tahan, são devastadoras. Ela se porta como funcionária obediente de Vorcaro, numa subserviência mortal.
O dono do Master recebia as reportagens e os artigos – antes que chegassem aos leitores. Ele virou na prática o chefe da redação, o diretor editorial. Nessa condição, Vorcaro acrescenta, corta e altera o conteúdo do material a ser publicado.
Nada disso é ilação ou uma simples interpretação diante do que se lê. Não. O que houve com o Metrópoles foi isso mesmo – o jornalismo foi comprado pelo banqueiro. As mensagens não deixam uma microscópica dúvida sobre a bandalheira. Nunca houve algo tão escrachado – que tenha vindo a público – arrastando a gloriosa imprensa.
Lilian Tahan, que agia com o aval da empresa, deu uma explicação cínica, e continua no comando do portal. Incrível como isso pode ser possível. A equipe certamente apenas finge que respeita sua líder. Não é possível fazer de conta que nada aconteceu. Não dá. O Metrópoles virou um gigante do dia pra noite. A ver como seguirá a partir de agora.
Credibilidade. Esse é o princípio que nenhuma fortuna compra. Daí a tragédia no portal de Brasília, que contratou nomes de peso, como Ricardo Noblat, Mario Sabino, Andreza Matais e Reinaldo Azevedo. Pode até sobreviver, mas a reputação está na lama. Por aí.