O uso do ambiente virtual na comunicação política, e especialmente em campanha eleitoral, é algo de uma complexidade de fato particular. O fenômeno do “Exército do Lula” é uma prova eloquente de como o universo digital é, digamos assim, uma obra aberta. Depois da eleição de Jair Bolsonaro presidente – lá se vão oito anos, quase uma década –, parecia que não haveria mais o que inventar nesse meio de campo.
Depois de 2018, todo mundo aprendeu tudo sobre o uso das redes sociais nas disputas políticas. Sob a regência de Carlos Bolsonaro, a campanha do Jair decretou o roteiro do sucesso. Nada de sofisticação, fora com os gigantes do marketing, zero de vídeos com linguagem de cinema. A revolução veio pela estética da tosquice.
“Tosco” aqui é elogio. A eleição de 2018 humilhou as luxuosas produções na propaganda eleitoral. Bolsonaro se valeu de vídeos amadores, sem aparente cuidado com visual “limpo”. O que importava era falar diretamente com o público. A estratégia deu certo. Consagrou um novo modelo para se comunicar com eleitores. Uma Nova Era.
Mais à frente, a realidade mostrou que a parada não era tão simples assim. O padrão Carluxo ganhou variantes e camadas – e os marqueteiros profissionais voltaram ao comando. Mas agora eles precisam atuar em sintonia com os meandros e mistérios do Metaverso. Nem todos conseguem uma relação amigável com tanta novidade.
Sidônio Palmeira, por exemplo, ministro e marqueteiro do presidente Lula, não sai da eleição com essa bola toda. Ao contrário. Vale o mesmo para o também ministro Guilherme Boulos, que era a grande aposta da campanha petista na aproximação com as multidões via redes sociais. Foi a missão que ele recebeu do próprio Lula.
Os dois foram engolidos por André Janones na curtíssima campanha do segundo turno. Ou seja, enquanto os “profissionais” batiam cabeça, um amalucado Janones chutou o pau da barraca, abriu uma nova janela e, sem exagero, foi decisivo para mudar o rumo da eleição. Mas o que ele fez exatamente? Eu mesmo não faço ideia.
Bem no começo da campanha, Boulos falou em várias entrevistas sobre sua estratégia de atuação na esfera digital. Alardeou como grande iniciativa a criação do canal “Porta-Vozes do Lula”. Além disso, havia os “comitês digitais” pelo Brasil inteiro. Alguém sabe dos resultados dessas ferramentas? Não, porque nada disso funcionou.
No primeiro ano do mandato, Lula criou o programa de TV “Conversa com o Presidente”, apresentado pelo jornalista Marcos Uchôa. Transmitida também pela internet, era uma espécie de live semanal. Durou oito meses e morreu de morte morrida.
Agora, no embalo do “exército” criado por Janones no WhatsApp, a live caseira de Lula – uma conversa entre ele e o deputado – alcança milhões de acessos. Mais uma vez, o homem do “Pessoal, urgente” mostra que sabe como atuar nesse universo mirabolante.
Tem algo de novo na área. É o que explica a repercussão fulminante do trabalho de Janones – que vai de convites para ajudar lideranças mundiais até perfil reverente no New York Times. Aliás, os maiores veículos do mundo noticiaram a façanha de Janones.
Sabe-se lá o que vem adiante após tanto barulho. O “Exército do Lula” sacudiu as placas tectônicas da comunicação, do marketing e da política. Tudo junto numa tacada só.
