Porcarias da política alagoana agora estão em campanha na defesa dos desenhos bíblicos exibidos na TV Record. Cabeça oca e falta do que fazer explicariam, em parte, a presepada. Mas a mente perturbada e a vadiagem não explicam tudo nesse caso. Pelo que vi de longe, uma simples reclassificação para maiores de 12 anos despertou a fúria de patriotas. O Ministério da Justiça voltou atrás numa portaria sobre o assunto.

A decisão do ministério era um equívoco de burocratas, logo corrigido pelo governo. Nada demais. O papai provedor e a mamãe recatada e do lar, além de seus filhotinhos, podem se reunir livremente para vibrar com as aventuras que a Bíblia Sagrada nos conta. Falar em algo como “perseguição” aos seguidores de Cristo é delinquência evidente.

A rebelião bolsonarista contra o governo nesse episódio ocorre no mesmo momento em que o Senado aprova a PEC da Segurança. No STF, audiência pública debate o caso do fim das bets. O Banco Central acaba de manter a taxa de juros no patamar de 13,75%, quebrando uma sequência de redução. Reforma eleitoral também está em pauta.

Como se nota, para qualquer lado que se olhe, não faltam desafios a segmentos da vida pública brasileira. Com atenção e seriedade, o Poder Legislativo tem trabalho de sobra. Perder tempo com animação infantil definitivamente não configura urgência no país.    

No panorama político, o clima esquentou nos debates sobre as eleições para o comando do Congresso Nacional. A escolha dos parlamentares será daqui a mais de dois meses, mas as caneladas estão aí. A briga pelas cadeiras de Hugo Motta (na Câmara) e Davi Alcolumbre (no Senado) tem tudo para ser na base da pancadaria.

O mais importante mesmo são as demandas reais do povaréu, o que exige trabalho duro do governo e uma oposição responsável. Mas o que temos de oposição é essa cloaca – muito bem representada por valentes das Alagoas com mandato na Assembleia e em Brasília. Sem surpresa, naturalmente, porque é o padrão da ultradireita pelo mundo.

Estratégia do caos. Um dos consensos sobre a atuação do reacionarismo mais tosco é quanto à metodologia do tumulto. Basta o exemplo do governo Bolsonaro e sua tática de produzir confusão em tempo integral. A bagunça é matéria-prima essencial ao projeto dessa “corrente ideológica”. O bolsonarismo se nutre do arrastão generalizado.

Teorias da conspiração, negacionismo interesseiro, invasões a universidades, ataques aos ambientes de cultura e às instituições – tudo isso faz parte da mesma ofensiva. O que vale é promover o caos em todas as áreas, não importa o que esteja em debate. O fim do mundo por causa de um desenho animado?! Pois é. A farsa utilitária.

É nessa loucura com método que se encaixa a histeria com o programa da Record.