Augusto Nunes comandou as redações do Jornal do Brasil, Estadão, Zero Hora e revista Época. Foi também repórter especial e colunista da Veja. Na TV Cultura, apresentou o Roda Viva em dois momentos de sua carreira. De quebra ainda passou, nos últimos anos, pela Jovem Pan. Ele organizou o extraordinário Minha Razão de Viver, livro com as memórias do jornalista Samuel Wainer. Augusto Nunes é uma referência.
Mas o bolsonarismo tragou o profissional para um mundo paralelo, por assim dizer. Aos 77 anos de idade, Nunes atua desde 2022 na Oeste, revista e canal no YouTube. É uma frente de batalha não do jornalismo, mas da militância na defesa da extrema direita. O ódio a Lula é um troço perturbador na Oeste. Merece um estudo.
Ao lado de Alexandre Garcia, Rodrigo Constantino e coadjuvantes, Nunes virou praticamente porta-voz do bolsonarismo. Desde a campanha de 2018, ele caiu nas graças da família Bolsonaro. E não foi do nada. Ainda na Veja durante a eleição daquele ano, o jornalista tratou o candidato Jair Messias como um verdadeiro estadista.
Após o 25 de outubro, o domingo no qual Lula se reelegeu, Nunes decidiu se afundar mais um pouco no lamaçal de onde não consegue mais sair. “Não aceito isso aí de jeito nenhum”. Com essas palavras singelas, o jornalista segue os passos de Flávio Bolsonaro e, também ele, não reconhece o resultado das urnas. Como e por que isso é possível?
A pergunta é retórica. Mas é uma pergunta que se impõe diante de um caso de tamanha perplexidade. Que o cara tenha suas ideias sobre política e ideologia, ok. Mas adotar o figurino de extremista alucinado, capaz de reproduzir falsidades a granel para defender os Bolsonaro?! Alguém do tamanho de Augusto Nunes?! Fim dos tempos.
Cavoucando dados para este artigo, encontro no YouTube vários canais na mesma linha editorial da Oeste. Tem o Ernesto Lacombe, que foi da Globo e é outro abduzido pelas forças que defendem o Brasil da invasão comunista. A galera na Jovem Pan segue na mesma. A “denúncia” de fraude na eleição é um apelo melancólico.
Augusto Nunes e demais viúvos de Flávio Bolsonaro não aceitam os números das urnas. “É tudo muito estranho”, dizem numa só voz. Mas onde está a fraude? Não se deve esquecer que os bolsonaristas Kassio Nunes Marques e André Mendonça, presidente e vice do TSE, comandaram o processo eleitoral. São preservados dos ataques.
A velha imprensa tem problemas. Mas veículos que se pretendem “jornalismo alternativo”, como a Oeste, são muito piores. A paixão política leva mesmo à cegueira.
