Ou o Brasil acaba com essa gastança ou vai para o abismo ainda ontem. Você sabe, a dívida pública já compromete não sei quantos por cento do PIB. Uma tragédia anunciada. Precisamos enfrentar o déficit primário o quanto antes e finalmente sinalizar ao Mercado o compromisso com o ajuste fiscal. Com uma taxa de juros indecente, que barra o investimento privado, o crescimento da economia é apenas uma miragem.
O economês está na praça desde sempre, mas em alguns momentos toma proporções oceânicas. É o caso de agora. Nos últimos dois anos, o presidente Lula foi bombardeado com críticas à sua “política irresponsável” em relação ao controle orçamentário. Diante do caos previsto pelos profetas da bagaça, o governo precisa agir.
A ação necessária, para os economistas do apocalipse, é cortar, cortar e, no limite do limite, cortar mais um pouco. E os cortes – é lógico, evidente e incontornável – devem ocorrer nos programas sociais e na Previdência. Do Bolsa Família, ao Minha Casa Minha Vida, tem de passar a tesoura de ponta a ponta. Caso contrário, é o fim.
Esse é o programa de Javier Milei na Argentina. Ocorre que o seguidor de Milei no Brasil é Flávio Bolsonaro, o candidato que perdeu a eleição pela vontade popular. Os donos do dinheiro babam pelo presidente argentino. Claro: a fatura do ajuste cai toda nas costas do mais fraco. Os pobres pagam a conta para os ricaços continuarem ricaços.
Uma semana após a vitória de Lula no segundo turno, a velha imprensa não fala de outra coisa. Em seus editoriais, os jornalões já cobraram do governo anúncios na direção do que o sistema financeiro espera. Ou segue as diretrizes do topo da pirâmide ou haverá no país um terremoto de dimensões inéditas. É o chamado “terrorismo fiscal”.
Ao longo de meses na campanha, Flávio prometeu à elite financeira todo o receituário da plutocracia. Mas, na propaganda eleitoral, o candidato prometia o contrário – programas sociais mantidos e, mais, reajustados. Flávio mentia para o povão com a naturalidade criminosa dos milicianos. Por isso, era o preferido nas coberturas.
Um dos economistas sempre ouvidos para alertar sobre o risco de desastre com Lula é Maílson da Nóbrega. Entre outras coisas, é dono de agência de especulação financeira e colunista da Veja. Entre 1988 e 1990 foi ministro da Fazenda no governo Sarney. Criou o plano Verão para combater a inflação nas alturas. Fracassou miseravelmente.
O mesmo economista que “ensina” ao governo Lula como cuidar das contas públicas é o mesmo que deixou como legado uma inflação superior a 1000% ao ano. Depois, foi ganhar mais dinheiro tocando sua empresa de consultoria. Tá nessa até hoje.
O estranho é que, no noticiário, todos os economistas falam a mesma coisa. Ninguém pensa diferente? Pensa sim. Mas quem discorda da cartilha do “arroxo” é limado. A pressão sobre Lula é descomunal. E o novo mandato ainda nem começou.
