O candidato que perdeu se rebela contra a realidade, não reconhece a vitória do oponente e se autoproclama o “verdadeiro presidente eleito”. Do outro lado da linha, o bolsonarista que denuncia a ditadura de toga entra numa lista de boicote a empresas cujos funcionários votaram em Lula. Ou demite ou demite, avisam os patriotas indignados com os brasileiros que não sabem votar. Os dois lados cumprem sua parte.

O candidato e seu eleitor nesse grau de engajamento pretendem o mesmo delírio: anular as eleições, realizar nova votação e esperar até que o eleito atenda pelo nome de Flávio Bolsonaro. O derrotado nas urnas força a barra pateticamente para buscar uma vitória no “tapetão”. Que desfecho para mais uma aventura da nova política!

E ainda fomos obrigados a conviver com a ladainha do bolsonarista moderado. Flávio é o Bolsonaro vacinado, festejavam colunas e artigos na crônica política nacional. Nada mais fantasioso diante do histórico de Jair Messias, o homem que nunca jogou dentro das quatro linhas. Entre o processo legal e o arbítrio, ele escolhe o pau de arara.

Quando se lembra que o ex-presidente defendia que a ditadura de 1964 “deveria ter matado pelo menos 30 mil”, é sobre isso o que estamos falando. O clã aliado de milícias nunca se deu bem com o Estado de Direito. Por isso mesmo o sobrenome prosperou no baixo clero da política, entre um acerto espúrio e outro. Levar vantagem sempre.

Na tradição bolsonarista por mandatos Brasil afora, natural que o candidato que não recebeu votos suficientes recorra à truculência para tomar votos à força. Está de acordo com os métodos e os meios de ação da turma do “mito”. E olhe que os protagonistas não se importam com a patetice da investida com chance zero de andar.

A postura de Jair Messias e seguidores deu a Lula um discurso recorrente em defesa do jogo limpo. O petista perdeu três eleições presidenciais antes de vencer em 2002. A cada derrota, diz o presidente, “voltava pra casa e ia disputar outra vez”. Esse pensamento elementar, cristalino não ocorre aos Bolsonaro. Um erro de nascença.

Ganhar no tapetão é ganhar no grito. Algo tipicamente bolsonarista. A charanga não tem como explicar uma diferença superior a 4 milhões de votos. Enquanto ideia, ou na pretensão de ser mensagem ao país, a carta golpista é também de uma mediocridade constrangedora. E não faltou a mente da inteligência artificial.  

Às vezes, a democracia barra retrocessos perigosos.