Para além da picaretagem de especular fraude nas eleições, há uma sincera perplexidade na imagem de Flávio Bolsonaro, ao falar depois do resultado das urnas. As demais figuras que aparecem ao redor do senador, como o vice Alfredo Gaspar, reproduzem o abatimento que vai além da “cara de enterro” (foto). Catatonia e estado de choque são outras aproximações gramatológicas para tentar entender a reação de Flávio à derrota.
Não há dúvida de que a turma calçou o salto alto e saiu por aí se amostrando como vencedora de uma disputa em andamento. Entre o resultado oficial do primeiro turno e as pesquisas, dois dias depois, Flávio assumiu agenda e discursos de presidente eleito. Ocorre que, diante de números tão acirrados, fazia sentido tamanha soberba?
Além da empolgação natural refletida no “já ganhou”, o candidato recebeu de quase toda a imprensa o veredito de que, sim, a parada estava liquidada. Suspeito que praticamente todos os colunistas do velho jornalismo, em diferentes gradações, cravaram a derrota de Lula da Silva. Não tem de onde tirar tanto voto para virar a eleição, diziam por aí.
Com essa aclamação, Flávio partiu para montar o ministério e engatilhar alianças para governar. A ala econômica não via a hora de anunciar as medidas do “tesouraço”. Já decretava o arroxo em entrevistas a podcasts. Seriam fechados dez ministérios. Em compensação, já estaria planejada a criação do Ministério da Prosperidade.
Nomes para várias pastas estavam sendo sondados, alguns convidados. Áreas como a Defesa já eram motivo de tensão entre civis e militares. Diretamente dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro se insinuou como próximo ministro das Relações Exteriores. O irmão do virtual presidente avisou que faria uma faxina geral no Itamaraty.
No último domingo, dia do segundo turno, a última demonstração eloquente de certeza na vitória. Flávio levou milhares de convidados para um churrasco numa das mansões mais caras de Brasília. Tudo bancado por um amigo, o dono da mansão. Porcarias da política alagoana estavam lá na boca livre. O pagode virou velório.
Após desmontar o ministério para o governo imaginário, Flávio está desaparecido. Até o fim da manhã desta terça-feira 27 de outubro, o paradeiro do senador era desconhecido. Suspeita-se que possa ter fugido de carro para a Argentina. É muita novela. Seja como for, o suspense já é o bastante para confirmar que Flávio é um homem perplexo.
Lula também venceu o clima – espalhado pela imprensa – de eleição resolvida.
