De repente, esta é a décima vez que voto para presidente da República. Dez vezes o voto direto e popular para decidir quem deve governar o país nos próximos quatro anos. Dez eleições consecutivas é praticamente um milagre no país, dado o histórico de golpismo que marca os quartéis, as Forças Armadas. A décima eleição direta desde 1989, quando elegemos Fernando Collor, o primeiro eleito no voto pós-golpe de 1964.

Como tantas vezes já foi lembrado, o Brasil vive seu período mais longo de regime democrático, sem interrupção pela força bruta. Em 1985, a ditadura caiu de podre. Os trogloditas de farda finalmente deixaram o poder após duas décadas. Ainda não era eleição direta, mas Tancredo Neves, eleito pelo Congresso, caiu nas graças do povão.

Depois da Constituição de 1988, elegemos Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro e Lula de novo. Neste domingo sai o futuro chefe do Planalto – a eleição direta de número dez desde o fim da ditadura. O compromisso maior de quem vencer deveria ser com a democracia. Na prática, não é assim.

Nas dez eleições, Lula estava na urna em sete, contando com a atual disputa contra Flávio Bolsonaro. Suponho que deve ser um caso único no mundo. Nenhum problema sobre isso, porque o petista participou de cada jogo dentro das regras democráticas estabelecidas. Não há como negar afinal que golpe à brasileira é exclusivo na direita.

A cada uma dessas eleições, um país diferente, com novas demandas e outros desafios. Avançamos até de século e de milênio. Claro que em relação ao fim da década de 80 e o decorrer dos anos 90, do século 20, um mundo deixou de existir. Telefonia celular e internet resumem a transformação sem precedente no cotidiano de todos.

Nesse percurso, além dos eleitos diretamente, dois vices assumiram em decorrência de dois processos de impeachment. Itamar Franco substituiu Collor em 1992 e comandou o governo que criou o Plano Real. Em 2016, um ilegítimo Michel Temer assume a cadeira de Dilma, a presidente que ele ajudou a derrubar. O traíra em pessoa.

Na última década, deu a louca no planeta. A plutocracia digital encontrou a política. Mais do que isso, os dois lados entraram numa parceria inédita cujas consequências assombram e ameaçam o futuro. No admirável mundo novo, o papel do Brasil também mudou ao longo do tempo. Estados Unidos, China, Rússia, a Europa – todos olham para cá.

E assim chegamos à décima eleição direta em quase quarenta anos. Sem golpe, sem censura nas redações, com liberdade de expressão e de pensamento. Parece pouco ou muito? É bastante. E assim tem de continuar, vença quem vencer a eleição do voto a voto.