Nas redações por onde andei, independentemente do cargo de ocasião, fui antes de tudo um editor. Entre as funções de um editor está a de arrumar o “material bruto” que as reportagens capturam nas ruas, no mundo lá fora. Estou simplificando. Editar é tornar as coisas mais claras e soprar para longe o nevoeiro da ambiguidade. O texto do repórter deve ser cristalino e preciso, livre de afetação e sem margem para duplo sentido.
Se falamos de um conteúdo para ser lido, a boa edição também deve zelar pelo ritmo do texto. Para isso, são cruciais a escolha de palavras, o tamanho das frases e a alternância entre um período curto e outro mais longo. Um desafio eterno é combinar clareza e densidade, para manter o interesse do leitor sobre o que está sendo narrado.
Ao editor cabe escolher as imagens que vão aparecer na reportagem. Para cada foto ou desenho, uma legenda esclarecedora sobre o que se mostra. Por último – embora essa ordem não seja um dogma – vem o título. É o detalhe final na tarefa de apresentar ao público um produto “atraente”. Um erro nesse desfecho pode ser trágico.
Quando você termina uma leitura, e não vê conexão entre título e texto, aí temos essa tragédia cotidiana do jornalismo capenga. A chamada da matéria, além de ter precisão, também deve ser criativa, com algum toque de surpresa, algo para sacudir o leitor da “zona de conforto” (desculpem). Mas sem exageros, como ensina a lógica.
O pecado mortal da redundância denuncia a baixa presença de vitaminas criativas no organismo. Tantas vezes eu li nas páginas da velha imprensa coisas assim: “É vencer ou vencer”, “Basta!”, “Cidade dominada pelo crime”, “Consumidor deixa para última hora”, “O sonho vira pesadelo”, “Saúde está na UTI”. “Agora ou nunca”.
Todas as expressões acima foram – e continuam sendo – usadas como títulos em reportagens sobre variados assuntos. São construções recorrentes desde a invenção da prensa. Em 99% dos casos, esses termos não dizem nada. A repetição sugou até as últimas gotas de sentido que havia séculos atrás. São muletas de edição.
Escrevo tudo isso porque, ao ver a capa da Veja que está no ar e nas bancas que restaram, lembrei de outra capa da mesma Veja. Em 1989, após a vitória de Collor sobre Lula, a revista trouxe no título o nome do eleito e a sentença “Vitória num país dividido”.
Trinta e sete anos depois, a publicação sobre a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ganhou este título: “Um Brasil dividido”. Além de anêmico, o arranjo verbal requenta a mesma ideia de quase quatro décadas. É isso mesmo ou preguiça mental de editor?
O Brasil é um país “dividido” desde sempre ou o fenômeno é mais recente? A última edição da Veja escolheu uma capa de uma obviedade perturbadora. O quanto isso tem a ver com decisão política ou com mediocridade na redação? Dúvida sem resposta.
Editar também é botar ordem no caos. Mas essa é Uma Missão Impossível.
