Cinquenta por cento das intenções de voto para cada um. Empate técnico. Numericamente empatados. Cabeça a cabeça, voto a voto. Às vésperas do encontro com as urnas, o Datafolha mostra Lula e Flávio Bolsonaro num cenário inédito. Suspeito que, desde 1989, é a primeira vez que os finalistas de segundo turno chegam, de acordo com o instituto, com o mesmo percentual de votos válidos. Decisão será na última hora.
Em 1989, Collor saiu na frente no primeiro turno, com larga diferença sobre o próprio Lula e Leonel Brizola. Na segunda e decisiva rodada, o petista nunca chegou a ameaçar a liderança do ex-governador de Alagoas. No dia da votação, as pesquisas indicavam a virtual vitória de Collor. Ele venceu com 53% contra 47% do adversário.
Na sequência das disputas presidenciais, surfando a revolução do Plano Real, Fernando Henrique Cardoso levou duas vezes no primeiro turno. Em 1994 e 1998, não houve arrumação política que mudasse o rumo da prosa. O país que havia mergulhado no caos da hiperinflação apostou tudo no portfólio da estabilidade econômica.
Mas um Brasil com as contas arrumadas não significou avanços sociais à altura de demandas históricas. De tão antigas e enraizadas, mazelas como desigualdade, fome e violência se tornaram ramos da paisagem natural. Na virada do século e do milênio, a inflexão sem precedentes se materializou na primeira eleição vitoriosa de Lula.
Embora tenha enfrentado crises políticas e um cenário de quebradeira na economia global, Lula foi reeleito em 2006 até de modo previsível. Da mesma forma, fez Dilma Rousseff sua sucessora em 2010. Nas três eleições que venceu para o Planalto, o candidato do PT precisou do segundo turno. A briga mais acirrada foi em 2022.
Em 2014, na ressaca de junho do ano anterior, Dilma passou ao segundo turno com 41,5% dos votos válidos contra 33,5% de Aécio Neves. Embalado naquela onda, o tucano tirou a diferença e chegou a virar o jogo. No dia da eleição, ele tinha dois pontos de vantagem sobre a rival. Na contagem oficial, Dilma fez 51% contra 48%.
Quando o atual segundo turno começou, as turmas do bolsonarismo e da ultradireita deram o jogo como encerrado. Erro sempre perigoso e, na maioria dos casos, fatal. Na imprensa, para surpresa de ninguém, articulistas se danaram a falar de nomes para “o ministério de Flávio”. Soberba não costuma acabar em boa coisa.
O empate inédito como o de agora será resolvido, reitero, no dia do voto.
