Primeiro, a exaltação da relevância de um debate. Não participar é uma afronta ao país, um insulto ao eleitorado. Depois, o veredito fatal sobre “o pior debate na história das eleições”. É o que se lê nas páginas da velha imprensa. Expectativa e desfecho nunca estiveram tão distantes quanto nesse caso. Nos editoriais dos jornalões centenários, Lula e Flávio Bolsonaro foram intimados ao bate-boca “vital à democracia”.    

E finalmente ocorreu o primeiro duelo entre os dois candidatos a presidente. Durante o primeiro turno, os dois adversários não aceitaram esse tipo de evento. A presença dos demais candidatos – com chance zero na corrida – é sempre fator desgastante para os líderes. Aliás, nesse aspecto, nenhuma novidade no histórico de debates. 

Outro elogio ao debate antes da hora é sua “enorme contribuição” para que o eleitor conheça, com mais detalhes, o que propõe cada um dos aspirantes ao cargo. Nenhuma ocasião melhor do que essa para “se expor ao contraditório”. E os rivais vão lá e quase trocam até dedo na cara. Analistas não gostaram. Triste Brasil sem conserto.

O diagnóstico de terra arrasada, à beira do abismo e da sentença de morte, interessa a um lado das batalhas políticas. Hoje e sempre, a gritaria pelo fim do mundo mobiliza uma horda com atuação combinada. Desaba o ibope da política e das instituições para que os piores possam triunfar. Hora de destruir tudo para finalmente construir.

Parecia esse o lema do Canal Livre, programa da Band, que debateu o debate. A roda de jornalistas só faltou cair em lágrimas de tanta lamentação. “Mostra o tamanho da nossa encrenca”, resumiu um indignado. Sobre propostas para a economia, Lula e Flávio “foram patéticos”. Foi nessa toada noite adentro. A palavra é cansativo.

Diante de tudo o que se passou na campanha até aqui, os dois debates – o da Band e o que vem na sexta na Globo – ganharam outra dimensão. Com a maioria das pesquisas fotografando um empate técnico, o marketing lembrou que a brigalhada ao vivo ainda tem gasolina para rodar. Mas o que debater numa hora dessas? Toda aposta é um risco.

Os grandes temas para o país, responderiam articulistas prontos para condenar o último debate da eleição. Mas não será o tema que vai levar o leitor ainda indeciso a tomar um lado. A tacada certeira, maquinada ou deflagrada pelo acaso, é encaixar a mensagem no time. As campanhas guardaram trunfo de última hora – mito ou verdade?

No voto a voto, tem de aproveitar tudo, até o pior debate de todos os tempos.