A Jovem Pan não toma jeito mesmo. Ou, escrevendo com outras palavras, a direção do veículo não aprendeu nada ao longo da última década e meia. Foi lá pelo segundo mandato de Dilma Rousseff que a emissora deflagrou uma descida ladeira abaixo aos porões da extrema direita – e de lá nunca mais saiu. Na atual campanha, o “jornalismo” da empresa acaba de cometer crime eleitoral para ajudar Flávio Bolsonaro.

Chama atenção a forma tosca como o grupo resolveu dar essa força ao candidato do PL. Uma “reportagem” divulgou pesquisa interna da campanha de Flávio, que segundo o texto mostra o rapaz bem à frente de Lula. Pesquisa interna não pode ser divulgada pela imprensa, por razões elementares, entre as quais a falta de registro no TSE.

Pesquisa de campanha, que os marqueteiros chamam de “tracking”, não segue as regras obrigatórias para divulgação. Naturalmente, a Jovem Pan não informa de quando é a suposta pesquisa, quantos eleitores foram ouvidos (e em quais regiões do país), qual a margem de erro – e tudo o mais que a lei exige para publicar o levantamento.

É uma fraude escancarada contra o eleitor. Um crime praticado, reitero, de forma tão grosseira e acintosa que cabe a pergunta: os donos e a redação enlouqueceram de vez? Ou a oferta da campanha flaviana foi tão vultosa que a turma não resistiu? Só falta ter sido por “convicção ideológica”, na defesa dos valores da tradicional família brasileira.

Sendo mais preciso na cronologia citada acima, a danação na Jovem Pan tem um marco em 2014, ano da reeleição de Dilma. Em seguida, a emissora de rádio (hoje também TV) se engajou numa campanha permanente contra o então governo, contra Lula, o PT e o campo democrático em geral. Tudo com uma ferocidade sem limite.

No auge daquele jornalismo do ódio, brilhavam por lá Augusto Nunes, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e Marco Antonio Villa, além de coadjuvantes que emulavam os mestres. No governo Bolsonaro, o dinheiro público jorrou como nunca – e os patriotas da emissora ficaram ainda mais patriotas. A lama bateu no pescoço.

A derrota do mito em 2022 forçou algum freio de arrumação. Mas só um pouquinho. Uma mão de tinta na fachada. A balança da isenção nunca pesa o que deveria. O problema não é ter opinião e expor o que se pensa. A delinquência é empilhar opiniões nas prateleiras exclusivas para os fatos. É o padrão que resiste ao tempo.

Já defendi aqui a liberdade de expressão para a Jovem Pan. A divergência é necessária. Uma lástima que um órgão de imprensa cuja marca já foi referência tenha virado isso daí.