A noite da quarta-feira, 14 de outubro de 2026, é uma dessas datas que o jornalismo será obrigado a tratar como histórica. E nesse caso, o termo, usado algumas vezes de modo abusivo, é plenamente adequado ao que se passou em sessão do Senado da República. Por 75 votos a um, senadores aprovaram o fim da jornada de trabalho na escala 6x1. A decisão altera uma regra instituída oito décadas atrás – em outro mundo.
Sim, é uma vitória política do presidente Lula, a pouco mais de uma semana para a votação do segundo turno. O governo defendia a medida não é de hoje, tendo de enfrentar todo tipo de sabotagem por parte da oposição. Até a última hora, as lideranças do PL tentaram barrar a votação. Até a véspera, Flávio Bolsonaro atacava a PEC.
Ao perceber que não conseguiria impedir a apreciação pelos senadores, e que essa é uma demanda amplamente popular, hipocritamente declarou apoio. Votou remotamente enquanto fazia campanha fora de Brasília. Em comício ignorou o tema diante dos eleitores. Votou resignado – e já ameaçou que, se eleito, vai tentar anular a mudança.
O placar de 75 a 1 mostra como o organismo da política identifica os momentos de acionar o instinto de sobrevivência. A turma bolsonarista, a ultradireita, os serviçais do Mercado, todos nesse balaio votaram contra seus “princípios”. Porque, antes de tudo, está o casuísmo de aparecer bem na foto para o grande público. Um clássico.
A situação desses senadores, portanto, é a seguinte: votam a favor de um projeto por conveniência, mas esse voto, na prática, contribui para o êxito de uma causa justa e necessária. Repudiá-los, então, também seria paradoxal para seus adversários. Não parece fazer sentido. Atacar aqueles que decidiram pela melhor escolha?
São os dilemas de complexa interpretação, digamos assim. Está além da política. Agora, lixo moral é a postura dos que se omitem na opaca abstenção. Pelo ódio, negam o voto no que é certo. Por covardia, se entocam feito ratos. Foi o caso do invertebrado Sergio Moro. O juizeco que trocou a toga por um carguinho de Bolsonaro é previsível.
Na contramão de Moro está um senador quase sumido. Um cara que por quatro anos foi vice de Bolsonaro. E foi rifado por suas qualidades. No placar de 75 a 1, o único voto contra é do general Hamilton Mourão. Sua escolha pode ser criticada; sua postura, não. Agiu com coragem, sem dúvida. Isso tem a ver com dignidade. Merece respeito.
Quanto ao mérito da decisão do Senado, um avanço incontestável para o Brasil.