Tudo muda o tempo todo no mundo, mas algumas coisas resistem à passagem avassaladora das estações. É o caso das eleições. Mais precisamente, é o caso de um debate na Globo ser o evento mais relevante na reta final da campanha eleitoral. É assim há mais de três décadas. Dois dias para seu voto na urna, e a escolha do futuro presidente está no centro do palco da maior emissora de TV do Brasil. Nem tudo muda.
De novidade à velharia ultrapassada, a história dos debates é uma antologia de episódios que vão de bate-boca a cadeirada, com quilômetros de insultos passando na janela. As avaliações sobre o evento oscilam entre frases feitas para exaltar a democracia e condenações sumárias quanto à decadência do formato. Mas o troço está aí.
Com um empate no horizonte traçado por várias pesquisas, o duelo entre Lula e Flávio Bolsonaro de repente ganhou as cores da decisão. O clima é de tensão máxima, de lado a lado, diante de eventuais vacilos no confronto. A ordem é evitar provocações, passar confiança e exibir conhecimento de causa sobre todo e qualquer assunto.
Perigo no TSE. Existe também o que não deveria existir. Refiro-me às estripulias de Kassio Nunes e André Mendonça, presidente e vice do TSE. A dupla está doidinha para derrubar o canal de WhatsApp “Exército de Lula”, com quase 10 milhões de seguidores. Bolsonaristas, atuam como cabos eleitorais de Flávio com escandalosa desenvoltura
Pelo engajamento dos ministros, há uma estranha expectativa no ar – a de que alguma decisão de última hora possa tumultuar a rua e o salão. Nunca uma eleição presidencial esteve sob um comando tão suspeito quanto o que se vê agora. Que a solidez das regras seja capaz de barrar a saliência dos juízes a serviço dos Bolsonaro.
Checagem. Um debate, em alguma medida, é um vendaval de distorções, meias verdades, números sob tortura e mentiras a perder de vista. Pensando nisso, candidatos e emissora cogitaram uma “checagem ao vivo” durante a realização do encontro. Seria um desastre. Para o bem de todos os envolvidos, a ideia foi descartada.
Vários órgãos de imprensa anunciaram que vão checar a veracidade do que os candidatos afirmarem no programa. É mais uma “atração” para a audiência. Claro que seria confusão na certa caso isso fosse levado para o meio do debate, ao vivo e em tempo real. Nenhum candidato aceitaria ser exposto como um contador de lorotas.
Bolha & Negação. Na Era do Negacionismo, pesquisa de respeito é aquela na qual meu candidato está à frente. Incrível como esse descolamento da realidade atravessa todos os níveis e camadas da vida contemporânea. Parece que sempre foi assim.
É nesse ambiente – trincado, nervoso, imprevisível – que o país encara hoje mais um debate “crucial” numa eleição agora sem favorito. Está chegando a hora.
