Quase à boca da urna, bem perto de eleger o próximo presidente da República, o brasileiro recebe a notícia sobre um foragido que deve mais de meio milhão de reais em pensão alimentícia. E daí? Essas coisas acontecem todo dia pelo Brasil afora. Ocorre que o devedor em fuga é o historiador Marco Antonio Villa, um dos nomes mais conhecidos no debate sobre política e grandes temas do país. Os detalhes causam surpresa.
Villa estaria dando calote na pensão destinada a um filho de 45 anos, portador de deficiência, fruto de casamento anterior. A dívida é de 570 mil reais. Com a prisão decretada pela Justiça de São Paulo, o professor desapareceu. Tratado oficialmente como foragido, Villa se manifestou em rede social. Afirma que é alvo de uma “injustiça”.
Nas duas últimas décadas, o historiador ganhou notoriedade como analista da conjuntura brasileira. À direita, ele foi migrando para as bandas do reacionarismo mais tacanho à medida que o país fertilizava o ódio como terreno de divergência ideológica. Dos textos mais equilibrados, foi bater em apelidos e xingamentos.
Ele assinou colunas em O Globo, Folha, Estadão, Veja e IstoÉ. Foi estrela da Jovem Pan quando a emissora virou porta-voz do extremismo alucinado. Villa também teve passagem pelas rádios do grupo Band e esteve no time de comentaristas da CNN Brasil. Na TV Cultura, ocupava a bancada da emissora como analista no telejornal.
Autor de vários livros, Villa é uma das assinaturas numa onda que tomou conta da imprensa brazuca há pelo menos 15 anos. Ao lado de Pondé, Constantino, Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Sardenberg, William Waack, Mainardi e vários outros, o homem se pôs a serviço de um antipetismo tosco, com pitadas de puro fanatismo.
Vida privada não tem nada a ver com nossas opiniões, ideias e escolhas. Mas figuras como Villa e assemelhados atiram para todas as direções, com a petulância de cravar o certo e o errado, o belo e o feio, a virtude e o vício, a glória e a desonra. Em seus piores momentos, o historiador passou a agir como eleito para fiscal da conduta alheia.
Nessa toada, Villa deixou os autores clássicos de lado e partiu para analisar letras de música escritas por Anitta. Tudo embalado na empáfia de quem sai por aí ensinando boas maneiras, modos civilizados e respeito às leis para as multidões ágrafas.
Sem entrar no mérito da questão judicial específica, mais um personagem do Brasil recente encara um ajuste de contas com a própria trajetória. Villa é acusado de um delito com forte componente moral. Por sua régua, deveria ser achincalhado.
Pela segunda vez, o historiador tentou se eleger deputado. Perdeu. Que fase!
