Arte na eleição. A campanha eleitoral que chega ao fim nas próximas horas reviveu o antigo debate sobre o engajamento político de artistas. É matéria-prima de sobra para confusão interminável. A partir dos anos 1960, depois do golpe militar, o Brasil consagrou a categoria música de protesto. Seu maior representante é Chico Buarque, mas Geraldo Vandré talvez seja a síntese definitiva desse fenômeno.   

Com o mesmo marco temporal, o cinema brazuca deu uma guinada – formal e tematicamente – para a realização de obras que pretendiam transformar a realidade. Chega de alienação hollywoodiana, pregavam os jovens diretores do mitológico Cinema Novo. Sai o requinte plástico de fachada, entra a estética da fome.

Teatro do oprimido, poesia popular, exposições para desafiar o regime e provocar reflexão na audiência. Tudo isso parece hoje fora de hora, meio descabido, cheirando a mofo. Faz sentido. Mas não é bem assim. Termos como “alienação” e “engajamento” de fato saíram do vocabulário na academia e nas ruas. Soam como fósseis para estudo.

De qual modo um artista deve se portar diante das questões sociais de seu tempo? Quatro opções. 1) criar seu trabalho com motivações de fundo político, como protesto e denúncia; 2) não usar a arte para esse fim, mas se expressar publicamente sobre os temas; 3) as duas atitudes juntas; 4) nem uma coisa nem outra. Negócio sério.

Como se diz hoje em dia, são muitas camadas a contemplar. Nem vou falar de pertencimento, identitarismo, resiliência ou lugar de fala. Porque ficaria perdido num labirinto sem salvação. Ao que interessa aqui, a grande questão é: artistas têm obrigação de se posicionar publicamente? Essa é a tal pergunta da discórdia.

E o público tem o direito de cobrar engajamento de seus ídolos na arte? Foi o que aconteceu com cantores e atores na campanha eleitoral de 2026. Eles foram “chamados à responsabilidade” À esquerda, houve até a confecção de cartazes com o rosto e o nome dos “desaparecidos”. Quem se omite passa pano pra fascista. E agora?

Na outra faixa, o mesmo dilema entrou na ordem do dia. O negócio é tão sério que foi o próprio Flávio Bolsonaro quem exigiu que “os artistas da turma da direita cheguem junto”. E alguns chegaram, como aqueles sertanejos esgoelados. Eles nunca falham.

Seis décadas depois daquelas canções de protesto, Chico segue nas paradas, como capitão de honra no time que apoia Lula. O cineasta Kleber Mendonça, de O Agente Secreto, virou militante multinacional em tapetes vermelhos mundo afora.

A militância, suspeito, é arapuca para a arte. Um desastre desde a largada.