Trinta anos atrás, o país inaugurava um novo tempo no sistema de votação nas eleições brasileiras. A novidade – uma verdadeira revolução – chamou atenção do mundo, e até hoje recebe elogios de organismos e entidades internacionais. A tecnologia nativa foi capaz de forjar um equipamento, seguro e auditável, que mudou a forma da escolha de candidatos e a apuração dos votos. Em poucas horas, conhecemos os eleitos.

Além de tornar o processo mais rápido, a chegada da urna eletrônica foi uma reação a um sistema que, comprovadamente, era uma avenida para fraude. A contagem manual, com as cédulas de papel, era uma operação em tudo caótica. Ao ver hoje imagens da apuração de eleições antes da urna eletrônica, causa espanto aquela bagunça.

Testemunhei ao vivo e em cores esse modelo de apuração no tempo da papelada. Na eleição municipal de 1988, trabalhei na contagem dos votos para a Gazeta de Alagoas – que fazia sua apuração paralela. Era o mesmo que faziam veículos de imprensa de todo o país. Na unidade do Sesc Poço, viramos a noite e a madrugada num trabalho de doido.

Não sei como aquilo era possível – e como poderia dar certo. As urnas eram abertas sobre os mesões, e meio mundo de gente avançava para desdobrar as cédulas, verificar os garranchos, confirmar o “x” e anotar o candidato votado. Isso era compartilhado por fiscais de todos os partidos, servidores do TRE, políticos, radialistas e jornalistas.

Eram dezenas de pessoas manipulando as cédulas em meio a empurrões, pedidos de revisão, gritaria e, vez por outra, alguma “denúncia”. Defender que aquilo era um processo transparente e imune a fraudes é uma fantasia extravagante, na contramão da realidade ululante. Porque era precisamente o contrário do que acontecia.

Em 1996, esse amadorismo bagunçado começou a ruir. Um terço do eleitorado no país usou urna eletrônica pela primeira vez. Era um teste. Foi um sucesso acachapante de crítica e público. Dois anos depois, na eleição de 1998, a Justiça Eleitoral avançou o novo sistema para 70% dos eleitores. E finalmente em 2000, era tudo eletrônico.

Essa conquista brasileira também virou alvo de negacionismo e assombrações após a ascensão do bolsonarismo e da extrema direita. A contestação ao processo eleitoral é parte da cartilha dos que apostam no tumulto como tática de guerra. Não por acaso, essa farsa está na base da tentativa de golpe de Estado que Bolsonaro planejou.

Antes da urna eletrônica, a fraude corria solta. Há trinta anos, a história mudou.