Nos próximos dias, quilômetros de artigos serão publicados na boa e velha imprensa para explicar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Diante da campanha no segundo turno, é possível detectar algumas variáveis que serão apontadas como “decisivas” para o triunfo do petista. Primeiro, haverá uma unanimidade quanto à potência das ruas – porque foi nas ruas, de fato, que o presidente apostou na reta final da disputa.
É claro que um nome e uma marca serão exaltados como fundamentais na virada em relação ao primeiro turno. O nome é André Janones, deputado federal de Minas Gerais. A marca é “Exército de Lula”, o canal de WhatsApp criado pelo parlamentar na mobilização pró-Lula. Em poucos dias, mais de 10 milhões de seguidores.
A reeleição do presidente também será associada ao “pacote de bondades” lançado nos últimos dias de caça ao voto. Um dos itens mais barulhentos foi o reajuste no valor do Bolsa Família. O aumento do benefício e outros gastos levam analistas a decretarem o fim do mundo via crise fiscal nas contas públicas. Um ato “irresponsável”.
O candidato à reeleição também investiu toda a energia para aprovar, no Congresso, o fim da jornada 6x1. A oposição e O Mercado de tudo fizeram para impedir a votação. Nos acréscimos da prorrogação, diante do fortíssimo apoio popular à medida, até o adversário Flávio Bolsonaro votou pela aprovação. O voto contra seria um suicídio.
Na lista de causas da vitória, há espaço também para a desconfiança de que Flávio Bolsonaro seria um risco iminente aos princípios da democracia. Não fosse por nada, bastaria citar seu principal plano de governo caso fosse eleito: soltar o pai preso por golpe de Estado. Diante do perigo, melhor não arriscar, pensou o eleitor.
Na antologia de fatores que explicariam a reeleição de Lula, há muito mais. A abstenção caiu, por exemplo, em relação ao primeiro turno. Talvez eu esteja esquecendo agora de algo ainda mais relevante. De todo modo, o desfecho de uma disputa eleitoral nunca tem uma causa única. Uma combinação de fatos amarra as pontas.
O mais relevante a ressaltar neste momento, no calor da hora, é que o país escolheu o presidente que, ao longo de sua trajetória, jamais flertou com o arbítrio e o autoritarismo. Esse é o campo do candidato derrotado, ainda que por margem estreita.
Lula e seu grupo político têm um desafio gigantesco. Com um Congresso hostil – em boa parte golpista – e um cenário econômico de instabilidade, o governo precisa mudar a rota o quanto antes. O panorama global não é para otimismo.
Em meio a tantas incertezas, uma certeza: com Lula, a democracia venceu nas urnas.
