Na ascensão do bolsonarismo, pode-se falar num marco de dez anos atrás. É o voto de Jair Bolsonaro pelo impeachment de Dilma Rousseff – o voto que homenageia o torturador Brilhante Ustra. Dois anos depois, o mesmo Bolsonaro, piorado, bate no auge, eleito presidente da República. Quatro anos caóticos de mandato, derrota para Lula em 2022, tentativa de golpe, julgamento e condenação. Seria o fundo do poço.
Não foi. A sentença de 27 anos passou longe de decretar a morte dessa frente ideológica. A realidade é que pela terceira eleição seguida houve um Bolsonaro na urna. Como já foi dito e contradito, a direita clássica foi mesmo colonizada pelo extremismo do líder improvável. Prova disso foi a imposição de Flávio candidato a presidente.
A carta golpista do mau perdedor parece mudar o rumo das coisas. Até agora, nenhum partido ou liderança do campo conservador declarou apoio incondicional ao senador foragido. Está claro o clima de desconforto e irritação com a atitude do ex-candidato. Resumindo, Flávio errou na mosca com a sua jogada individualista.
Autoproclamado “verdadeiro presidente eleito”, o golpista mudou a redação da carta e passou a chamar a si próprio de “líder brasileiro”. O palavreado para convertidos não combina com os fatos. Para quem se anunciava como a lideranças da oposição, Flávio desabou dezenas de casas no ranking da direita. O cenário é de terra arrasada.
A partir de agora, deve-se observar os movimentos do clã – sobretudo Flávio, Eduardo e Carlos – e dos partidos do centro à direita. Os dois foragidos não têm mandato, o que torna muito mais difícil qualquer articulação formal. As demais forças não ficarão esperando deliberações da dupla “exilada”. Muda o quadro radicalmente.
Nesse balaio, perguntas antigas se renovam. Existe bolsonarismo sem Bolsonaro? Onde está a direita civilizada capaz de rejeitar o grotesco? Ninguém esperava que as novas alternativas se postassem tão cedo na guerrilha do antipetismo. A briga pelo comando da oposição a Lula tem tudo para ganhar contornos fratricidas. Conferindo.
Depois de dez anos no controle de uma facção política, Bolsonaro pode ser substituído por um líder fora do sobrenome familiar. O que não falta é candidato a mandachuva. São debutantes e veteranos. Agora eles botam a cabeça para fora, dispostos a pegar o bastão em nome de Jesus. Espera-se a reação da família do barulho.
As consequências da fuga de Flávio Bolsonaro vão demorar a passar.
