Um dos males da humanidade é desperdiçar tempo e energia para atacar um problema imaginário. Veja o caso do modelo de eleições brasileiro. Agora mesmo a Câmara Federal parece disposta a alterar a forma como elegemos vereadores e deputados (estaduais e federais). Isso é uma urgência para o Brasil? Curioso que uma demanda seja “urgente” há três décadas pelo menos. Sim, porque esse debate parece eterno.

É a chamada reforma eleitoral. O presidente da Câmara, Hugo Motta, e lideranças do centrão articulam para aprovar o projeto até o fim deste ano. Resumindo, sai o sistema proporcional com lista aberta de candidatos e entra o distrital com lista fechada dos aspirantes a um mandato. Seria o fim do quociente eleitoral.

Falei em reforma eleitoral, mas na verdade o que está a caminho seria mais uma gambiarra. Os parlamentares não se entendem sobre a ideia de dividir o município e o estado em distritos, com seus candidatos específicos. O eleitor vota em um nome, e esse voto também serve para eleger os mais votados de uma lista fechada pelo partido.

Há quem rejeite uma e outra ideia. Nesse caso, é o bloco que defende o modelo chamado de distritão – se elege quem tiver mais voto, sem depender do cálculo do quociente. Temos à mesa, portanto, quatro alternativas: o sistema proporcional (o atual), o distrital, o distrital misto e o distritão. Por enquanto, não dá para apostar o que vai sair.

A forma atual permite o tal puxador de voto. O caso mais afamado é o de Nikolas Ferreira, que elegeu uma “bancada particular” de 13 nomes em Minas. Vereador em São Paulo, Lucas Pavanato desembarca em Brasília “puxando” com ele outros sete eleitos. Aqui em Alagoas, os votos de Cabo Bebeto elegeram Leonardo Dias deputado estadual.

Quando você olha para os números, de fato é esquisito que um sem-voto assuma o mandato, enquanto um nome com um caminhão de votos fica de fora. Em boa medida, o crescimento do PL na Câmara Federal tem tudo a ver com o modelo vigente. E aí entra uma briga que já existia, mas subiu de patamar, justamente PL x Centrão.

Repare que os termos da arenga já entregam o que está em jogo. O interesse público e o avanço com uma reforma eleitoral pra valer não estão no centro do debate. A não ser como teatro. Em jogo mesmo está o tamanho de cada facção partidária, com os cargos e a fortuna que financia as legendas. De novo, o casuísmo dá as cartas.

Não, isso não é prioridade. Da farra das emendas orçamentárias ninguém fala.