O governador eleito de Alagoas, João Henrique Caldas, é político profissional desde o berço privilegiado. Nunca teve outra atividade de trabalho fora desse ramo. O patriarca João Caldas, o pai de JHC, é político. Foi prefeito de Ibateguara e deputado federal. Hoje, é o atual presidente do Democracia Cristã, um dos mais de trinta partidos do país. A matriarca Eudócia Caldas, mãe do futuro governador, exerce o mandato de senadora.
João Antônio Caldas, o JAC, é irmão do futuro ocupante do Palácio República dos Palmares. Como suplente de deputado federal, exerceu o mandato por alguns meses em 2020. Marina Candia, casada com JHC, foi eleita senadora nas eleições deste ano. A futura primeira-dama do estado estreia em Brasília já com um mandato de peso.
Pesquisei para ver se os pets da família de João Henrique também estão vivendo da política, mas ainda não encontrei confirmação. De todo modo, é uma família inteira trabalhando duro para melhorar o dia a dia do povo. Diante desses dados, pode-se falar tudo sobre os Caldas, menos que eles representam alguma novidade nesse mundo.
Mas não é que JHC, nosso futuro governador, posa de “renovação da política”! Como? Em entrevista ao Congresso em Foco, ele explicou assim: “É você quebrar um ciclo patrimonialista, com resquícios de privilégios coloniais, o que remete muito a Alagoas do século passado”. Pelo que entendi, finalmente sairemos do atraso.
O virtual governador refina a explicação de ordem sociológica, por assim dizer: “A gente está no século 21. As pessoas não aguentam mais esse modelo de política tradicional que revolta a muitos”. Aqui chegamos a um momento relevante da entrevista. JHC vai relacionar sua atuação política à defesa da liberdade de expressão.
“Muitos se calam porque têm receio desse aparelhamento das instituições e da falta de liberdade que as pessoas têm de expressar ali suas vontades”. Tirante a construção verbal meio confusa, ele exalta o direito ao livre pensamento. Diz que houve “intimidação” na campanha para que “as pessoas” não aderissem à sua candidatura.
Terei de lembrar que esse palavreado está mais para maquiagem do que para a realidade. Ao longo deste ano, JHC foi o campeão de ações judiciais para censurar veículos de comunicação. Ainda antes da campanha, ele já investia contra espaços da imprensa que publicavam alguma informação que não lhe agradava. Isso é o novo?
A sanha para silenciar vozes críticas à sua renovada forma de fazer política bateu até neste blog. Após notificação extrajudicial, o Cada Minuto teve de retirar do ar um texto que escrevi sobre o caso Master e a prefeitura de Maceió. E isso no século 21...
João Henrique só não processou os sites e emissoras de rádio controlados por sua família. Sim, como todo político de vanguarda, ele também tratou de montar seu próprio modelo de “imprensa livre”. De fato, é muita novidade na milenar arte da velha política.
Então ficamos assim: um legítimo representante das oligarquias alagoenses chega ao governo para combater a velharia “patrimonialista”. Que bom. Fazia tempo que o estado precisava mesmo de um sopro de renovação, dinamismo e probidade.
Espero que este artigo não seja alvo da super banca de advocacia a serviço de JHC, este bravo defensor das liberdades individuais. Afinal, chega de tanta intimidação.
