Quando a vida é só resultado, ninguém tem o que deixar aos netos

 

"Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje." "A vida é curta, otimize tudo." Como conselho contra a preguiça, a máxima presta bom serviço. Como regra de vida, é perigosa.

Otimizar exige medir, e a planilha só mede o que rende agora. A honra não aparece nela. Seu valor costuma surgir décadas depois, muitas vezes quando quem pagou o preço já morreu.

Toda trajetória se passa em dois tempos: o agora dos resultados e o amanhã das memórias e exemplos. Quem vive só o primeiro pode até exacerbar o prazer e  enriquecer, mas não deixa um rumo aos filhos.

 

Quando adiar foi a decisão certa

Em 1960, a médica Frances Kelsey recebeu na FDA, a agência americana de medicamentos, o pedido de liberação da talidomida. O remédio já era vendido em dezenas de países, e o fabricante a pressionou repetidamente. Ela exigiu mais dados e foi adiando.

Quando os defeitos congênitos vieram à tona na Europa, os Estados Unidos haviam sido poupados da tragédia em grande escala. Kelsey deixou para amanhã, e crianças nasceram sem as malformações que a pressa teria causado.

 

Quando a pressa venceu

Na véspera do lançamento do ônibus espacial Challenger, em janeiro de 1986, o engenheiro Roger Boisjoly e seus colegas recomendaram adiar o voo. O frio ameaçava as vedações dos foguetes.

O calendário já vinha sofrendo atrasos, e a gerência reverteu a recomendação. A nave explodiu 73 segundos depois da decolagem, com sete tripulantes a bordo. Boisjoly contou a verdade aos investigadores e pagou com o isolamento na própria empresa e na profissão.

A otimização falhou de forma exemplar. Quem protestou perdeu a carreira, e é o seu nome que hoje se ensina nas aulas de ética da engenharia.

 

O erro que só o autor conhecia

Em 1978, o engenheiro William LeMessurier descobriu que o Citicorp Center, arranha-céu de Nova York que ele próprio calculara, tinha uma fragilidade diante de certos ventos fortes. Ninguém mais havia percebido.

O cálculo mais cômodo era o silêncio, e o risco à reputação era enorme. Ele avisou os responsáveis, e as ligações foram reforçadas com soldas, à noite, enquanto um furacão rondava a costa. O prédio segue de pé.

 

O preço pago em vida

Em junho de 1940, o cônsul português em Bordeaux, Aristides de Sousa Mendes, desobedeceu às ordens de Salazar e emitiu vistos em massa para fugitivos do nazismo. Foi punido, afastado da carreira e morreu pobre em 1954, com a família dispersa.

Sob qualquer planilha, foi um péssimo negócio. Israel, porém, o reconheceu como Justo entre as Nações, Portugal o reabilitou e, em 2021, o homenageou no Panteão Nacional. Seus descendentes herdaram pouco dinheiro e um nome que atravessou a História.

 

O limite civilizatório

Em 1936, o advogado Sobral Pinto, católico e anticomunista, aceitou defender Luís Carlos Prestes e Harry Berger durante a ditadura de Vargas. Berger era torturado na prisão, e Sobral chegou a invocar em seu favor a lei de proteção aos animais.

Nada ali otimizava coisa alguma: não havia ganho, nem afinidade de ideias, nem aplauso. Havia uma fronteira que nenhum regime deveria cruzar, e um homem disposto a lembrá-lo disso. Civilização é, em boa medida, esse conjunto de coisas que não se fazem, mesmo quando compensam.

 

A conta final

Nenhum desses personagens desprezou o trabalho ou o lazer. Todos eram profissionais rigorosos, que sabiam que certos resultados custam caro demais.

Aprendi essa lição antes de conhecer qualquer uma dessas histórias. Minha mãe dizia que estudar é o único caminho para fortalecer os neurônios.

Levei o conselho para a sala de aula. Nunca filei nem estimulei ninguém a  colar na minha prova. Quando não sabia a resposta, entregava em branco e tirava zero. Os caminhos neurais da Dona Celina se encarregavam do anteparo e me conduziram  a respeitar o dinheiro público.

Nenhuma planilha aprovaria essa conta. A cola rende nota hoje e não fortalece neurônio algum. O zero custava caro no boletim, mas deixava intacto o que minha mãe me ensinara a preservar.

A vida é curta, e por isso mesmo não pode ser gasta inteira no que rende hoje. O conselho de minha mãe chegou até mim e segue para filhos e netos. É assim que uma memória vira rumo.

 

Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos