O que o pronunciamento do presidente revela sobre os dois anos que lhe restam
Donald Trump reconheceu que a guerra com o Irã contribuiu para a derrota republicana nas eleições de meio de mandato. Mas acrescentou que faria tudo novamente. Os democratas conquistaram a Câmara e o Senado. O presidente admitiu o custo de sua decisão, sem admitir que estivesse errada.
É dessa diferença que partem as consequências da eleição americana.
Para quem o apoia, a declaração pode representar firmeza. Um presidente disposto a perder popularidade para fazer o que considera necessário à segurança do país.
Para quem sofreu com a alta dos preços, a leitura pode ser outra. Se o presidente faria tudo novamente, o voto de protesto talvez não baste para fazê-lo mudar de caminho.
Assumir o desgaste tem seu valor. Mas não devolve as cadeiras perdidas nem resolve o problema de quem precisa disputar a próxima eleição.
Trump pode sustentar sua decisão. O Partido Republicano precisa recuperar seus eleitores.
Até aqui, os dois caminhavam juntos. Daqui em diante, seus interesses podem começar a se separar.
A primeira consequência aparece no Congresso. Quando os eleitos assumirem, Trump encontrará uma oposição com mais instrumentos para fiscalizar seu governo, investigar decisões e dificultar a aprovação de suas propostas. A negociação ganhará um peso que a maioria republicana ajudava a dispensar.
O presidente conservará poderes importantes. Poderá vetar projetos e tomar decisões dentro das atribuições do cargo. Mas governar com as duas Casas nas mãos do adversário exigirá mais do que vontade própria.
A segunda consequência está dentro do partido.
Já surgiram cobranças por mudanças na equipe e nos rumos do governo. O senador republicano John Curtis acusou a legenda de abandonar princípios que antes defendia, entre eles a responsabilidade com as contas públicas. Outros republicanos passaram a cobrar uma revisão das políticas associadas à derrota.
Quando se vence, as diferenças ficam acomodadas. Quando se perde, cada grupo apresenta sua explicação e procura salvar o próprio futuro.
É nesse ambiente que a fala de Trump ganha outro sentido. Ao defender a guerra como necessária, ele oferece aos aliados uma justificativa para a derrota. Mas também torna mais difícil a mudança de rumo que parte do partido deseja.
A terceira consequência é a antecipação da sucessão.
O vice-presidente JD Vance atribuiu a derrota à guerra com o Irã. A declaração, por si só, não prova um rompimento com Trump. Mostra, porém, que a discussão sobre os erros do governo já alcançou quem pode disputar sua herança política.
O possível sucessor enfrenta uma dificuldade fácil de entender. Precisa conservar os eleitores fiéis ao presidente e recuperar aqueles que se afastaram dele. Aproximar-se demais pode significar carregar o desgaste. Afastar-se demais pode custar o apoio da base.
Trump, por sua vez, entra no período chamado pelos americanos de “pato manco”. A expressão descreve o governante que ainda ocupa o cargo, mas perde influência à medida que o fim do mandato se aproxima.
No segundo mandato, sem poder disputar outra reeleição, esse desgaste tende a pesar mais. Parlamentares e aliados começam a olhar para quem poderá ocupar a cadeira depois dele.
Isso não torna Trump irrelevante. Seu apoio ainda pode ajudar a escolher candidatos e decidir disputas internas. A questão é quanto dessa força sobreviverá à derrota e aos próximos dois anos de governo.
Minha leitura é que seu pronunciamento procura preservar justamente essa influência. Ao dizer que faria tudo novamente, Trump se apresenta como alguém que aceita o julgamento das urnas, mas mantém o próprio julgamento sobre suas decisões.
É uma posição que pode conservar a fidelidade de seus seguidores. Também pode prolongar o conflito com os republicanos que precisam mostrar alguma mudança ao eleitor.
A eleição deixou, portanto, dois problemas diferentes. Trump precisa governar até o fim do mandato. Seu partido precisa preparar o que virá depois.
O presidente pode apostar que a história lhe dará razão. Os candidatos republicanos terão de convencer o eleitor antes disso.
