A eleição de 2026 sinalizou o suficiente. Atender aos interesses da Classe C é uma arma política que não pode ser ignorada. Ela reúne cerca de 130 milhões de brasileiros, o que deve corresponder a perto de 95 milhões de eleitores.

 

Por isso, ninguém mais vencerá uma eleição no Brasil sem atentar para políticas que atendam a essa maioria.

 

Lula estava certo na sua intuição. O pacote de bondades lhe rendeu apoio popular e 64,3 milhões de votos.

 

Priorizar o discurso sobre corrupção provou-se um erro. Em tempos de redes sociais e IA há que se assestar a bateria na economia, porque é ela que decide eleição. O eleitor acha que todos roubam. Quer saber de sua parte.

 

Eis a munição disponível. O Brasil produz cerca de R$ 13,4 trilhões por ano, o seu PIB, e acumulou R$ 1,205 trilhão em juros - quase 9% - nos 12 meses encerrados em setembro. Famílias endividados - cerca de 51% - não conseguem paga-las com reajuste salarial de 7% e correção de dívida de 13,65%.  Esse número, 9%, é o que o Banco Central chama de juros nominais. O valor cheio da conta, sem descontar a inflação.

 

É o custo de carregar a dívida. Rolar a dívida é tomar novo empréstimo para quitar o que vence, como quem renova uma promissória. Os juros são o preço pago a quem empresta. Também ajudam a atrair o capital internacional, que participa do financiamento do desenvolvimento.

 

A Selic é a taxa básica de juros, referência para a remuneração dos títulos do governo. Hoje, corresponde a R$ 13,75 por ano a cada R$ 100 aplicados.

 

Admitindo um alívio de cerca de R$ 69 bilhões anuais para cada ponto percentual de redução, a conta impressiona. Se a Selic caísse à metade, para R$ 6,88 a cada R$ 100, abriria um colchão próximo de R$ 470 bilhões por ano. Um valor que o governo poderia pretender direcionar à produção e ao consumo.

 

Mas o colchão não é dinheiro guardado. O déficit nominal, tudo o que o setor público gasta além do que arrecada, já com os juros incluídos, soma R$ 1,275 trilhão em 12 meses.

 

Mesmo com o alívio, faltariam cerca de R$ 800 bilhões. Cada real poupado em juros é, primeiro, um real a menos tomado emprestado. Para o governo transformar essa economia em novos gastos ou financiamentos, teria que abrir mão de parte da redução do endividamento.

 

Pelos números a redução da Selic parece um caminho fácil. Seu percurso, porém, apresenta dificuldades. A começar pelo fato de que a decisão não cabe ao presidente, e sim a um Banco Central autônomo, cuja diretoria tem mandato próprio.

 

As projeções apontam inflação brasileira perto de 5,2% em 2026 e 4,3% em 2027. Nos Estados Unidos, a inflação está em 3,7% ao ano. Lá, os títulos de dez anos do Tesouro americano chegaram a oferecer 5% ao ano em setembro, sem o risco Brasil.

 

Esse risco inclui o temor de que o país não honre o que deve ou de que o real perca valor.

 

Captar lá e aplicar aqui pode deixar uma margem atrativa. Mas ela precisa cobrir os juros ao emprestador, os impostos quando incidem e o risco da reconversão ao dólar. A inflação brasileira também pesa, porque pode pressionar o câmbio e reduzir o ganho na volta.

 

Para quem aplica e consome no Brasil, importa o rendimento real, aquilo que sobra depois de descontada a inflação. Usando a previsão de 4,3% para 2027, cada R$ 100 aplicados à Selic atual deixariam cerca de R$ 9 de ganho real por ano, antes de inflação e impostos.

 

Nos Estados Unidos, uma aplicação a 5%, diante de uma inflação de 3,7%, deixaria cerca de US$ 1,25 por US$ 100.

 

Com a Selic à metade, o ganho real brasileiro cairia para perto de R$ 2,50 por R$ 100. E isso supondo que a inflação não suba com o corte.

 

Para o investidor que precisa voltar ao dólar, a conta depende também do câmbio. A margem menor pode deixar de compensar o risco. Parte do capital poderá buscar destinos mais rentáveis ou mais seguros.

 

Com a retração desse capital, o dólar tenderia a subir. O Brasil poderia recorrer às reservas internacionais, a poupança em moeda estrangeira guardada pelo Banco Central, para amenizar a pressão e manter o mercado funcionando.

 

As reservas estão na casa dos US$ 360 bilhões a US$ 370 bilhões. Não há um piso legal conhecido, mas a prudência impõe limites.

 

O FMI usa um critério para avaliar quanto um país deve guardar para enfrentar saídas de dólares. Essa referência varia conforme as condições da economia. Não permite tratar toda a reserva como dinheiro disponível, nem assegurar que haja US$ 120 bilhões livres para cobrir a retirada de capital internacional.

 

É munição finita. Se o país insistisse em gastar reservas para conter uma pressão duradoura, poderia enfraquecer sua defesa.

 

Uma disparada do dólar encareceria combustíveis, alimentos e máquinas importadas. Traria inflação e perda do poder de compra da mesma Classe C que se quis premiar. O desgaste chegaria ao meio empresarial e ao eleitorado.

 

Lula quer resolver a taxa de juros e já apontou a conta de R$ 1,2 trilhão como o grande gasto do Estado.

 

André Lara Resende oferece o argumento. Numa entrevista de 2022, defendeu juros reais abaixo do crescimento da economia e mencionou uma economia de 4% a 6% do PIB no serviço da dívida.

 

Aplicada ao PIB de hoje, essa proporção corresponderia a algo entre R$ 530 bilhões e R$ 800 bilhões por ano. É a dimensão da proposta, não uma economia garantida.

 

Ele chamou de chantagem a ameaça de fuga de capitais, embora admitisse pressão temporária sobre o câmbio.

 

A tese e o alto interesse do presidente precisam ser avaliados com os números de hoje. O cuidado é evitar que a bala de prata dispare dentro do próprio mecanismo criado para abater o adversário do desenvolvimento econômico.

 

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