O encontro que balança antes de acontecer
Bastou a notícia de uma conversa para o mercado prender a respiração.
O Globo informou que Lula receberia, nesta semana, André Lara Resende, um dos pais do Plano Real. O ministro Dario Durigan negou. “Não há nenhuma reunião agendada.” A equipe econômica admite apenas tentar reunir o presidente com economistas de correntes diferentes.
Com ou sem encontro, a ideia já está na praça. Levar a Selic de 13,75% a 7,5% em doze meses e, depois, mantê-la entre 3% e 5,5%. Um novo conselho coordenaria juros e contas públicas.
A causa
Imagine uma família cuja renda sobe 7% ao ano, enquanto sua dívida cresce 13%. Pode cortar a feira e vender o carro. A dívida continuará vencendo a corrida.
É esse o Brasil que Lara Resende descreve. Em doze meses, os juros custaram R$ 1,2 trilhão, ou 8,99% do PIB. O rombo antes dos juros foi de 0,52% do PIB. Para ele, o juro não é consequência do desequilíbrio. É o seu motor.
Os críticos invertem a seta. Todo banco cobra mais de quem já deve muito. O juro seria alto porque o credor desconfia.
O outro devedor
A conta não é só do governo. As famílias devem o equivalente a 50,1% de tudo o que ganham em um ano e entregam 29% da renda a prestações e juros. São recordes do Banco Central.
Segundo a CNC, em agosto, 82% das famílias tinham dívidas a vencer e 29,9% estavam com contas em atraso.
É aqui que o tema vira política. O Tesouro não vota. A família endividada, sim. Por isso, o juro chega ao Planalto por duas portas. A do orçamento e a da urna.
As consequências
Se der certo, Lara Resende estima uma economia próxima de quatro pontos do PIB ao ano, além de crédito mais barato para quem produz. Ainda assim, restaria um déficit perto de 5,5% do PIB.
Se der errado, o dinheiro age como água. Corre para onde rende mais e teme menos. O dólar sobe, o diesel e os importados encarecem, e a inflação volta para cobrar a conta.
O capital sinalizou sua fúria na primeira semana após a eleição. Sem nenhum corte de juros, o dólar foi de R$ 4,99 a R$ 5,44, e a Bolsa caiu 18%.
Lara Resende admite o risco e oferece uma comporta. As reservas, acima de US$ 350 bilhões. A dúvida, levantada em debate no Cebri, um espaço de discussão sobre o Brasil, é se ela aguenta uma enchente.
A viabilidade
Há três barreiras.
A primeira é institucional. O Banco Central é autônomo, Galípolo afirma que seu mandato vai até 2028, e a Fazenda rejeita qualquer tabelamento dos juros.
A segunda é o mercado. Cerca de metade da dívida acompanha a Selic, e seu custo cairia depressa. O restante depende de quem aceite comprar os títulos. O juro para 2031 já bateu em 15,3%.
A terceira é a memória. Em 2012, a queda forçada dos juros terminou com a inflação no teto de 6,5%, lembra o economista Sérgio Vale.
A ordem dos fatores
Curiosamente, um grupo de 380 empresários e executivos pede os mesmos 7,5% até dezembro de 2027. Mas quer, antes, um superávit de 1% do PIB nas contas sem os juros.
Mesmo número, ordem inversa. Lara Resende quer baixar o juro para a conta fechar. Os outros querem fechar a conta para o juro baixar.
No papel, as duas contas se resolvem. Na vida real, ambas dependem da mesma mercadoria em falta. Confiança.
O diagnóstico de Lara Resende tem números fortes. A cura ainda não tem prova. E, se Lula decidir testá-la, o laboratório será o bolso de todos.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
Fontes
Tribuna PR — Endividamento das famílias em 50,1% da renda.
BP Money — Pesquisa da CNC de agosto e mandato de Galípolo.
Blog do Esmael — Proposta e reação do governo.
Hora do Povo — Detalhes da proposta.
Brasil 247 — Durigan nega reunião e tabelamento.
Poder360 — Juros e dívida em setembro.
B3 — Déficit primário em doze meses.
SouBrasília — Dólar, Bolsa e juros na semana da eleição.
A Crítica — Títulos atrelados à Selic.
ES Hoje — Carta do Grupo Parlatório.
