Enquanto o governo chama Flávio de fujão, aliados de Trump dizem que Milei salvou a vida dele e da família

 

O xadrez político internacional costuma ser descrito como um jogo de alta estratégia. Mas, às vezes, o tabuleiro se parece mais com o velho jogo das tampinhas numa calçada movimentada. A saída do senador Flávio Bolsonaro do Brasil teve tudo de um "olé": fintas sucessivas, plateia olhando para o lado errado e a bolinha aparecendo onde ninguém esperava.

O apito inicial veio do Supremo.

 

Na segunda-feira, 26 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse os passaportes à Polícia Federal até as 11h do dia seguinte e o proibiu de deixar o país. Entre os aliados, a leitura foi imediata: a ordem seria o primeiro passo para a prisão. Versões que circularam nas redes chegaram a atribuir a Lula uma ordem para prendê-lo "de qualquer jeito", afirmação que não tem registro que a confirme. O prazo venceu, e os passaportes não foram entregues.

 

A primeira finta aconteceu na rua. Segundo os relatos, quatro carros pretos deixaram a residência do senador em comboio. No primeiro, só o motorista; no segundo, uma mulher parecida com a esposa de Flávio; o terceiro e o quarto, de vidros escuros, guardavam o mistério de seus ocupantes. Jornalistas saíram em perseguição até que, num entroncamento, o comboio se dividiu em direções opostas. A imprensa se dispersou. Era só o primeiro movimento dos copos.

 

A segunda "finta" veio do céu, ao menos na imaginação de quem acompanhava. Um cargueiro Lockheed C-130T Hércules da Marinha dos Estados Unidos, que saíra da Base Aérea Naval de Jacksonville com escalas em Porto Rico e Barbados, cruzou o Norte do país sob o código CNV3370 e pousou no Galeão às 19h07 da terça-feira. A coincidência fez muita gente lembrar a captura de Nicolás Maduro em janeiro. A FAB, porém, informou que o voo tinha autorização prévia, era missão de transporte de passageiros e pernoitou no Rio antes de seguir para Lima. Distração planejada ou puro acaso, o fato é que o avião prendeu a atenção de todos.

 

A terceira finta é das que circulam sem comprovação: os nomes de Flávio, da esposa e das duas filhas teriam sido incluídos nas listas de passageiros de seis voos comerciais diferentes, para mandar a polícia aos aeroportos errados.

 

A quarta veio pela internet. O advogado mexicano Simón Levy, ligado ao universo de Trump, anunciou que Flávio já não estava no Brasil e seguia para os Estados Unidos sob uma operação de proteção americana. O mundo olhou para o Norte.

A bolinha, enquanto isso, corria para o Sul. Às 22h50 da terça-feira, segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio, a esposa e as filhas cruzaram a pé a Ponte Internacional Tancredo Neves e entraram em Puerto Iguazú, na província de Misiones. Às 23h30, embarcaram num jato Gulfstream G400 da empresa Baires Fly, com plano de voo para Guayaquil, no Equador. Detalhe saboroso: o governo argentino, que pela manhã negava ter registro da entrada do senador, só divulgou a confirmação depois que o avião já havia decolado.

 

A finta final estava no traçado do voo. Em vez de cruzar o Brasil rumo à Flórida, o jato desceu em Guayaquil apenas para reabastecer e de lá seguiu para Miami, numa rota que evitou o espaço aéreo brasileiro. O pouso no aeroporto executivo de Opa-Locka ocorreu na manhã de quarta-feira, 28.

 

Quando os copos foram levantados, o senador já estava em solo americano com a família, e um alto funcionário de Washington confirmava que os Estados Unidos lhe dariam acolhida. Simón Levy resumiu a jogada à sua maneira: segundo ele, a operação foi coordenada por Marco Rubio e conduzida por Milei, e "graças ao presidente Milei, hoje Flávio está vivo". Levy não apresentou provas, e Milei preferiu o silêncio.

 

Um olé que lembra uma velha lição: na política, nem sempre vence quem move as peças, e sim quem faz o adversário caçar fantasmas enquanto o jogo se decide na calçada ao lado.

 

Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos

 

Sources:

• Movimento Econômico – rota Argentina, Equador, Miami

• Infobae – Simón Levy

• Terra – C-130 no Galeão

• Diario de Pernambuco – ordem de Moraes

• Diário do Centro do Mundo – Milei sem confirmação