Quando o voto se forma num ambiente que o Estado já não ocupa
O voto não começa na urna. Começa na vida que o eleitor leva, nas referências que encontra e nas necessidades que precisa resolver.
Gramsci - filósofo marxistas - mostrou a importância da cultura e dos valores na conquista do poder. Quem influencia o ambiente onde as pessoas formam suas opiniões chega à eleição com parte do caminho percorrido.
A meu ver, a eleição de 2026 trouxe esse alerta.
A aritmética falhou
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro venceu por 1,87 ponto. Os candidatos eliminados somavam cerca de 9,3 milhões de votos. A expectativa era que a maior parte desses eleitores seguisse o campo conservador.
Os modelos em que nos apoiamos apontavam vantagem de Flávio.
A urna respondeu outra coisa. Lula venceu com 51,79% dos votos válidos. Somou 10,4 milhões de votos ao resultado do primeiro turno, contra 3,7 milhões de Flávio. A abstenção caiu de 21,1% para 19,2%.
O resultado sugere que Lula não disputou apenas os votos dos candidatos eliminados. Também pode ter atraído quem não havia votado.
Quando a previsão falha, é preciso rever a conta e os pressupostos. Sobretudo, entender o terreno onde o voto se forma.
O terreno ocupado
Em maio deste ano, uma pesquisa Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 41% dos brasileiros, cerca de 68,7 milhões de pessoas, percebem a atuação do crime organizado no bairro onde vivem.
Entre eles, 71% temem que alguém da família se envolva com o tráfico. Um em cada três afirma que essas organizações influenciam muito as regras de convivência local.
É nesse ambiente que cresce parte da nossa juventude. Ali, o tráfico oferece o que a escola e o trabalho formal demoram a entregar: renda, pertencimento e reconhecimento.
A recompensa imediata ganha força diante de um futuro incerto.
Isso não permite concluir como essas pessoas votam. Mas ajuda a formular uma pergunta: quanto pesa uma promessa de alívio imediato para quem vive sem perspectiva?
A transferência de renda como atalho
O benefício anunciado às vésperas da eleição encontra esse terreno. Entrega alívio, mas não assegura autonomia nem renda própria. A conta fica com o Tesouro Nacional, isto é, com o contribuinte e, quando financiada por dívida, com o futuro.
Não se trata de condenar a assistência a quem precisa. Trata-se de questionar seu uso eleitoral.
Quando o benefício nasce ou cresce no calendário da campanha, cabe perguntar: atende a uma necessidade planejada ou à conveniência de quem disputa o poder?
A brecha da lei
A legislação brasileira pune a compra de votos e restringe a distribuição de benefícios em ano eleitoral. A questão é saber se consegue impedir, com a mesma eficácia, o uso da máquina pública para conquistar grupos inteiros de eleitores.
É a diferença entre comprar apoio um a um e buscá-lo, com dinheiro público, no atacado.
Defendo uma regra mais clara: proibir a criação ou a expansão de benefícios no ano eleitoral, salvo calamidade comprovada, com responsabilização pessoal de quem autoriza o descumprimento.
A assistência precisa de continuidade e planejamento. Não pode ficar ao sabor da campanha.
O alerta
Venezuela e Nicarágua servem de advertência sobre o enfraquecimento gradual das instituições.
O Brasil tem instituições, imprensa livre e alternância de poder. Isso precisa ser preservado. Não considero inevitável que sigamos o mesmo destino. Considero perigoso tratar essas garantias como permanentes.
O Estado precisa amparar o cidadão sem transformar sua necessidade em dependência eleitoral.
A disputa deve ser entre candidatos. O dinheiro público pertence a todos.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
Fontes indicadas:
• ABC+ — resultado final do 2º turno (TSE).
• Jovem Pan — Datafolha/FBSP, crime organizado nos bairros.
• O Povo — relatório “Medo do crime e eleições 2026”.
